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#Comédias#Literatura Brasileira

Os Dois ou o Inglês Maquinista

Por Martins Pena (1845)

NEGREIRO – Sim senhora, pois julgo que pretende também casar com sua filha.

CLEMÊNCIA – Pois é da Mariquinha que ele gosta?

NEGREIRO – Pois não nota a sua assiduidade?

CLEMÊNCIA, à parte – E eu que pensava que era por mim!

NEGREIRO – É tempo de decidir: ou eu ou ele.

CLEMÊNCIA – Ele casar-se com Mariquinha? É o que faltava!

NEGREIRO – É quanto pretendia saber. Conceda que vá mudar de roupa, e já volto para assentarmos o negócio. Eu volto. (Sai.)

CLEMÊNCIA, à parte – Era dela que ele gostava! E eu, então? (Para Mariquinha:) O que estão vocês aí bisbilhotando? As filhas neste tempo não fazem caso das mães! Pra dentro, pra dentro!

MARIQUINHA, espantada – Mas, mamã...

CLEMÊNCIA mais zangada – Ainda em cima respondona! Pra dentro! (Clemência empurra Mariquinha pra dentro, que vai chorando.)

FELÍCIO – Que diabo quer isto dizer? O que diria ele a minha tia para indispô-la deste modo contra a prima? O que será? Ela me dirá. (Sai atrás de Clemência.)

CENA XVII

Entra NEGREIRO na ocasião que FELÍCIO sai.

NEGREIRO – Psiu! Não ouviu-me... Esperarei. Quero que me dê informações mais miúdas a respeito da denúncia que o tal patife deu ao cruzeiro inglês dos navios que espero. Isto... [Não, que os tais meninos andam com o olho vivo pelo que bem o sei eu, e todos, em suma. Seria bem bom que eu pudesse arranjar este casamento o mais breve possível. Lá com a moça, em suma, não me importa; o que eu quero é o dote. Fazme certo arranjo... E o inglês também queria, como tolo! Já ando meio desconfiado... Alguém vem! Se eu me escondesse, talvez pudesse ouvir... Dizem que é feio... Que importa? Primeiro o meu dinheiro, em suma. (Esconde-se por trás da cortina da primeira janela.)

CENA XVIII

Entra CLEMÊNCIA.

CLEMÊNCIA – É preciso que isto se decida. Ó lá de dentro! José?

UMA VOZ, dentro – Senhora!

CLEMÊNCIA – Vem cá. A quanto estão as mulheres sujeitas! (Entra um pajem. Clemência, dando-lhe uma carta:) Vai à casa do sr. Gainer, aquele inglês, e entrega-lhe esta carta. (Sai o pajem. Negreiro, durante toda esta cena e a seguinte, observa, espiando.)

NEGREIRO, à parte – Uma carta para o inglês!

CLEMÊNCIA, passeando – Ou com ele, ou com nenhum mais.

NEGREIRO – Ah, o caso é este!

CLEMÊNCIA, no mesmo – Estou bem certa que ele fará a felicidade de uma mulher.

NEGREIRO, à parte – Muito bom, muito bom!

CLEMÊNCIA, no mesmo – O mau foi ele brigar com o Negreiro.

NEGREIRO, à parte – E o pior é não lhe quebrar eu a cara...

CLEMÊNCIA – Mas não devo hesitar: se for necessário, fecharei minha porta ao Negreiro.

NEGREIRO – Muito obrigado.

CLEMÊNCIA – Ele se há de zangar.

NEGREIRO – Pudera não! E depois de dar um moleque que podia vender por duzentos mil-réis...

CLEMÊNCIA, no mesmo – Mas que importa? É preciso pôr meus negócios em ordem, e só ele é capaz de os arranjar depois de se casar comigo.

NEGREIRO, à parte – Hem? Como é lá isso? Ah!

CLEMÊNCIA – Há dois anos que meu marido foi morto no Rio Grande pelos rebeldes, indo lá liquidar umas contas. Deus tenha sua alma em glória; tem-me feito uma falta que só eu sei. É preciso casar-me; ainda estou moça. Todas as vezes que me lembro do defunto vêm-me as lágrimas aos olhos... Mas se ele não quiser?

NEGREIRO, à parte – Se o defunto não quiser?

CLEMÊNCIA – Mas não, a fortuna que tenho e mesmo alguns atrativos que possuo, seja dito sem vaidade, podem vencer maiores impossíveis. Meu pobre defunto marido! (Chora.) Vou fazer a minha toilette. (Sai.)

CENA XIX

NEGREIRO sai da janela.

NEGREIRO – E então? Que tal a viúva? (Arremedando a voz de Clemência:) Meu pobre defunto marido... Vou fazer minha toilette. Não é má! Chora por um e enfeita-se para outro. Estas viúvas! Bem diz o ditado que viúva rica por um olho chora, e por outro repica. Vem gente... Será o inglês? (Esconde-se.)

CENA XX

Entra ALBERTO vagaroso e pensativo; olha ao redor de si, examinando tudo com atenção. Virá vestido pobremente, mas com decência. NEGREIRO, que da janela espiando o observa, mostra-se aterrado durante toda a seguinte cena.

ALBERTO – Eis-me depois de dois anos de privações e miséria restituído ao seio de minha família!

NEGREIRO, à parte – O defunto!

(continua...)

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