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#Comédias#Literatura Brasileira

Os ciúmes de um Pedestre ou o Terrível Capitão do Mato

Por Martins Pena (1846)

Os ciúmes de um Pedestre ou o Terrível Capitão do Mato apresenta uma comédia marcada pelo humor e pela crítica aos costumes do Brasil do século XIX. A trama se constrói a partir de situações exageradas causadas pelo ciúme e pela desconfiança, com personagens caricatos e conflitos do cotidiano urbano. Com diálogos rápidos e tom satírico, o texto ironiza relações sociais e abusos de autoridade da época.

Comédia em 1 ato

PERSONAGENS

ANDRÉ JOÃO, pedestre

BALBINA, sua filha

ANACLETA, sua mulher

ALEXANDRE, amante de Balbina

PAULINO, amante de Anacleta

ROBERTO, pai de Anacleta

O cabo da patrulha

Soldados permanentes

A cena passa-se no Rio de Janeiro.

[ATO ÚNICO]

Sala ordinária. Porta no fundo e laterais. No segundo plano, à direita, um armário, e à esquerda, uma escada de mão, que se supõe conduzir a uma trapeira sobre o telhado. No alto de cada uma das portas laterais haverá um buraco. Uma mesa, sobre a qual estará uma vela apagada. É noite.

CENA I

Ao levantar do pano, estará a cena às escuras e só. Ouve-se dar meia-noite em um sino ao longe. Logo que tenha expirado a última badalada, aparece PAULINO sobre a escada e principia a descer com precaução.

PAULINO, ainda no alto da escada – Meia-noite. São horas de descer... (Principia a descer.) Ele saiu... Anda a estas horas em procura de negros fugidos... Que silêncio! O meu bem ainda estará acordado? A quanto me exponho por ela! Escorreguei no telhado e quase caí na rua. Estava arranjado! Mas, enfim, o telhado é o caminho dos gatos e dos amantes à polca... Mas cuidado com o resultado!(Neste tempo está nos últimos degraus da escada.) Ouço rumor

CENA II

BALBINA, da esquerda, metendo a cabeça no buraco da porta.

BALBINA, chamando – Minha madrasta? Minha madrasta?

PAULINO, à parte – Mau! A filha está acordada...

BALBINA, no mesmo – Da. Anacleta? Da. Anacleta?

ANACLETA, da direita, metendo a cabeça no buraco da porta – O que queres, Balbina?

PAULINO, à parte – É ela...

BALBINA – Já deu meia-noite...

ANACLETA – E foi só para me dizeres isso que me chamaste? Vai dormir, que eu não estou para conversar a estas horas e de poleiro... Adeus.

BALBINA – Pelo amor de Deus, espere!

ANACLETA – Para quê?

BALBINA – Estou com medo...

ANACLETA – Ora, não sejas criança. Vai dormir.

BALBINA – Não posso... Eu estava cosendo; fui espevitar a vela e apaguei-a... Fiquei às escuras. Nisso deu meia-noite... Arrepiaram-se-me os cabelos....... Levanteime e ia meter-me na cama assim mesmo vestida, quando ouvi as tábuas do forro estalarem como se uma pessoa andasse sobre elas...

PAULINO, à parte – E não enganou-se...

ANACLETA – O medo é que te fez crer isso.

BALBINA – Não, não foi o medo, bem ouvi... E fiquei com tanto susto, que nem ousava respirar. Afinal, cobrei ânimo para chegar até aqui e chamar-lhe.

ANACLETA – Quem pode a estas horas andar lá pelo forro?

PAULINO, à parte – Eu...

BALBINA – Não sei.

ANACLETA – Foi engano teu. As tábuas à noite estalam com o calor.

BALBINA – Bem pode ser; mas tenho medo. Não posso ficar só às escuras, morrerei de susto. Se eu pudesse ir para lá...

ANACLETA – Bem sabes que é impossível. Ambas estas portas estão fechadas e teu pai levou as chaves.

BALBINA – Meu Deus! Mas fique aí conversando comigo, até que meu pai entre.

ANACLETA – Isto é, queres que fiquemos aqui até de madrugada, que é a hora que ele volta?

PAULINO, à parte – Muito bem, não enganei-me!

BALBINA – Meu Deus, meu Deus, por que meu pai desconfia tanto de nós, que nos deixa assim fechadas cada uma no seu quarto? Se ao menos nos deixasse juntas!

ANACLETA – Ele diz que uma mulher só é capaz de enganar ao diabo, e que duas juntas enganariam o inferno em peso.

PAULINO, à parte – Que tal o pedestre? E o mais é que não deixa de ter sua razãozinha...

BALBINA – E por isso deixa-nos presas e separadas quando sai para suas deligências. Pois olhe: se meu pai continua a desconfiar assim e aperta comigo, eu prego-lhe alguma.......

ANACLETA – E eu também.

PAULINO, à parte – Bravo, isso mesmo é o que eu quero...

BALBINA – Nunca lhe dei motivos para assim tratar-me.

ANACLETA – E eu, que motivos lhe tenho dado? O remédio é ter paciência.

Adeus.

BALBINA – Não, não, espere!

ANACLETA – Escuta. Vai à gavetinha da mesa que está aí no canto à esquerda, tira uma caixinha de fósforo que lá guardei esta manhã, e acende a tua vela.

BALBINA – Pois sim, mas não saia daí enquanto eu procuro o fósforo.

ANACLETA – Medrosa! Pois vai, que fico esperando.

BALBINA – Pelo amor de Deus, não saia daí! (Desaparece do buraco.)

CENA III

[BALBINA,] PAULINO, e ANACLETA no buraco da porta.

PAULINO, à parte – Vamo-nos aproximando... (Caminha com precaução para aonde ouve a voz de Anacleta.)

(continua...)

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