Por Martins Pena (1848)
Os Irmãos das Almas é uma comédia teatral que satiriza costumes da sociedade brasileira do século XIX. A trama gira em torno de personagens interesseiros que se aproveitam da religiosidade popular e de promessas feitas às almas para obter vantagens pessoais. Com humor e crítica social, o texto expõe a hipocrisia, a superstição e os vícios humanos, utilizando situações cômicas para provocar riso e reflexão no público.
Comédia em 1 ato
PERSONAGENS
MARIANA, mãe de EUFRÁSIA.
LUÍSA, irmã de JORGE, marido de Eufrásia.
TIBÚRCIO, amante de Luísa.
SOUSA, irmão das almas.
FELISBERTO.
Um irmão das almas.
Um cabo de Permanentes.
Quatro soldados.
A cena passa-se na cidade do Rio de Janeiro, no ano de 1844, no dia de Finados.
ATO ÚNICO
Sala com cadeiras e mesa. Porta no fundo e à direita; à esquerda um armário grande. Durante todo o tempo da representação, ouvem-se ao longe dobres fúnebres.
CENA I
LUÍSA, sentada em uma cadeira junto à mesa – Não é possível viver assim muito tempo! So e calar é minha vida. Já não posso! (Levanta-se.) Sei que sou pesada a D. Mariana e que minha cunhada não me vê com bons olhos, mas quem tem culpa de tudo isto é o mano Jorge. Quem o mandou casar-se, e vir para a companhia de sua sogra? Pobre irmão; como tem pago essa loucura! Eu já podia estar livre de tudo isto, se não fosse o maldito segredo que descobri. Antes não soubesse de nada!
CENA II
EUFRÁSIA e LUÍSA.
EUFRÁSIA, entrando vestida de preto como quem vai visitar igrejas em dia de Finados – Luísa, tu não queres ir ver os finados?
LUÍSA – Não posso, estou incomodada. Quero ficar em casa.
EUFRÁSIA – Fazes mal. Dizem que este ano há muitas caixinhas e urnas em S. Francisco e no Carmo, e além disso, o dia está bonito e haverá muita gente.
LUÍSA – Sei o que perco. Bem quisera ouvir uma missa por alma de minha mãe e de meu pai, mas não posso.
EUFRÁSIA – Missas não hei de eu ouvir hoje; missas em dia de Finados é maçada. Logo três! O que eu gosto é de ver as caixinhas dos ossos. Há agora muito luxo.
LUÍSA – Mal empregado.
EUFRÁSIA – Por quê? Cada um trata os seus defuntos como pode.
LUÍSA – Mas nem todos os choram.
EUFRÁSIA – Chorar? E para que serve chorar? Não lhes dá vida.
LUÍSA – E que lhes dão as ricas urnas?
EUFRÁSIA – O que lhes dão? Nada; mas ao menos fala-se nos parentes que as mandam fazer.
LUÍSA – E isso é uma grande consolação para os defuntos...
EUFRÁSIA – Não sei se é ou não consolação para os defuntos, mas posso-te afirmar que é divertimento para os vivos. Vai-te vestir e vamos.
LUÍSA – Já te disse que não posso.
EUFRÁSIA – Luísa, tu és muito velhaca!
LUÍSA – E por quê?
EUFRÁSIA – Queres ficar em casa para veres o teu namorado passar. Mas não sejas tola; vai à igreja, que lá é que se namora bem no aperto.
LUÍSA, com tristeza – Já lá se foi esse bom tempo de namoro!
EUFRÁSIA – Grande novidade! Brigastes com o teu apaixonado?
LUÍSA – Não; mas depois do que soube, não devo mais vê-lo.
EUFRÁSIA – E o que soubestes então?
LUÍSA – Que ele era... Até não me atrevo a dizê-lo.
EUFRÁSIA – Assustas-me!
LUÍSA – Considera a coisa mais horrorosa que pode ser um homem.
EUFRÁSIA – Ladrão?
LUÍSA – Pior.
EUFRÁSIA – Assassino?
LUÍSA – Ainda pior.
EUFRÁSIA – . Ainda pior que assassino? Rebelde?
LUÍSA – Muito pior!
EUFRÁSIA – Muito pior que rebelde? Não sei o que seja.
LUÍSA – Não sabes? (Com mistério:) Pedreiro-livre!
EUFRÁSIA – Pedreiro-livre? Santo breve da marca! Homem que fala com o diabo à meia-noite! (Benze-se.)
LUÍSA – Se fosse só falar com o diabo! Tua mãe diz que todos os que para eles se chegam ficam excomungados, e que antes quisera ver a peste em casa do que um pedreiro-livre. (Benze-se; o mesmo faz Eufrásia.) Não, não! Antes quero viver toda a minha vida de favores e acabrunhada, do que casar-me com um pedreiro-livre. (Benzese.)
EUFRÁSIA – Tens razão. Eu tenho-lhes um medo de morte; e minha mãe quando os vê, fica tão fora de si que faz desatinos. Ora, quem havia dizer que o Sr.
Tibúrcio era também da panelinha!
LUÍSA – Eu seria tão feliz com ele, se não fosse isso!...
EUFRÁSIA – Também... Perdes um marido; pouco perdes... Para que serve um marido?
LUÍSA – Para que serve um marido? Boa pergunta! Para muitas coisas.
EUFRÁSIA – Sim, para muitas coisas más.
LUÍSA – Dizes isso porque já estás casada.
EUFRÁSIA – Essa é que é a desgraça: não termos medo ao burro, senão depois do couce. Um marido! Sabes tu o que é um marido? É um animal exigente, impertinente e insuportável... A mulher que quiser viver bem com o seu, faça o que eu faço: bata o pé, grite mais do que ele, caia em desmaio, ralhe e quebre os trastes. Humilhar-se?
(continua...)
PENA, Martins. Os Irmãos das Almas. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2161 . Acesso em: 30 jan. 2026.