Por Martins Pena (1845)
NEGREIRO – Uma insignificância... Arreia, pai! (Negreiro ajuda ao preto a botar o cesto no chão. Clemência, Mariquinha chegam-se para junto do cesto, de modo porém que este fica à vista dos espectadores. )
CLEMÊNCIA – Descubra. ( Negreiro descobre o cesto e dele levanta-se um moleque de tanga e carapuça encarnada, o qual fica em pé dentro do cesto.) Ó gentes!
MARIQUINHA, ao mesmo tempo – Oh!
FELÍCIO, ao mesmo tempo – Um meia-cara!
NEGREIRO – Então, hem? (Para o moleque:) Quenda, quenda! (Puxa o moleque para fora.)
CLEMÊNCIA – Como é bonitinho!
NEGREIRO – Ah, ah!
CLEMÊNCIA – Pra que o trouxe no cesto?
NEGREIRO – Por causa dos malsins...
CLEMÊNCIA – Boa lembrança. (Examinando o moleque:) Está gordinho... bons dentes...
NEGREIRO, à parte, para Clemência – É dos desembarcados ontem no
Botafogo...
CLEMÊNCIA – Ah! Fico-lhe muito obrigada.
NEGREIRO, para Mariquinha – Há de ser seu pajem.
MARIQUINHA – Não preciso de pajem.
CLEMÊNCIA – Então, Mariquinha?
NEGREIRO – Está bom, trar-lhe-ei uma mucamba.
CLEMÊNCIA – Tantos obséquios... Dá licença que o leve para dentro?
NEGREIRO – Pois não, é seu.
CLEMÊNCIA – Mariquinha, vem cá. Já volto. (Saí Clemência, levando pela mão o moleque, e Mariquinha.)
CENA XIV
NEGREIRO, para o preto de ganho – Toma lá. (Dá-lhe dinheiro; o preto toma o dinheiro e fica algum tempo olhando para ele.) Então, acha pouco?
O NEGRO – Eh, eh, pouco... carga pesado...
NEGREIRO, ameaçando – Salta já daqui, tratante! (Empurra-o.) Pouco, pouco!
Salta! (Empurra-o pela porta afora.)
FELÍCIO, à parte – Sim, empurra o pobre preto, que eu também te empurrarei sobre alguém...
NEGREIRO, voltando – Acha um vintém pouco!
FELÍCIO – Sr. Negreiro...
NEGREIRO – Meu caro senhor?
FELÍCIO – Tenho uma coisa que lhe comunicar, com a condição porém que o senhor se não há de alterar.
NEGREIRO – Vejamos.
FELÍCIO – A simpatia que pelo senhor sinto é que me faz falar...
NEGREIRO – Adiante, adiante...
FELÍCIO, à parte – Espera, que eu te ensino, grosseirão. (Para Negreiro:) O sr. Gainer, que há pouco saiu, disse-me que ia ao juiz de paz denunciar os meias-caras que o senhor tem em casa e ao comandante do brigue inglês Wizart os seus navios que espera todos os dias.
NEGREIRO – Quê? Denunciar-me, aquele patife? Velhaco-mor! Denunciar-me? Oh, não que eu me importe com a denúncia ao juiz de paz; com este eu cá me entendo; mas é patifaria, desaforo!
FELÍCIO – Não sei por que tem ele tanta raiva do senhor.
NEGREIRO – Por quê? Porque eu digo em toda a parte que ele é um especulador velhaco e velhacão! Oh, inglês do diabo, se eu te pilho! Inglês de um dardo!
CENA XV
Entra GAINER apressado.
GAINER, entrando – Darda tu, patifa!
NEGREIRO – Oh!
GAINER, tirando apressado a casaca – Agora me paga!
FELÍCIO, à parte, rindo-se – Temos touros!
NEGREIRO, indo sobre Gainer – Espera, goddam dos quinhentos!
GAINER, indo sobre Negreiro – Meia-cara! (Gainer e Negreiro brigam aos socos. Gainer gritando continuadamente: Meia-cara! Patifa! Goddam! – e Negreiro: Velhaco! Tratante! Felício ri-se, de modo porém que os dois não pressintam. Os dois caem no chão e rolam brigando sempre.)
FELÍCIO, à parte, vendo a briga – Bravo os campeões! Belo soco! Assim, inglesinho! Bravo o Negreiro! Lá caem... Como estão zangados!
CENA XVI
Entra CLEMÊNCIA e MARIQUINHA.
FELÍCIO, vendo-as entrar – Senhores, acomodem-se! (Procura apartá-los.)
CLEMÊNCIA – Então, o que é isto, senhores? Contendas em minha casa?
FELÍCIO – Sr. Negreiro, acomode-se! (Os dois levantam-se e falam ao mesmo tempo.)
NEGREIRO – Este yes do diabo...
GAINER – Negreira atrevida...
NEGREIRO – ... teve a pouca-vergonha...
GAINER – ... chama a mim...
NEGREIRO – ... de denunciar-me...
GAINER – ... velhaca...
FELÍCIO – Senhores!
CLEMÊNCIA – Pelo amor de Deus, sosseguem!
NEGREIRO, animando-se – Ainda não estou em mim...
GAINER, animando-se – Inglês não sofre...
NEGREIRO – Quase que o mato!
GAINER – Goddam! (Quer ir contra Negreiro, Clemência e Felício apartam.)
CLEMÊNCIA – Sr. mister! Sr. Negreiro!
NEGREIRO – Se não fosse a senhora, havia de ensinar-te, yes do diabo!
CLEMÊNCIA – Basta, basta!
GAINER – Eu vai-se embora, não quer ver mais nas minhas olhos este homem.
(Sai arrebatadamente vestindo a casaca.)
NEGREIRO, para Clemência – Faz-me o favor. (Leva-a para um lado.) A senhora sabe quais são minhas intenções nesta casa a respeito de sua filha, mas como creio que este maldito inglês tem as mesmas intenções...
CLEMÊNCIA – As mesmas intenções?
(continua...)
PENA, Martins. Os dois ou o Inglês Maquinista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2164 . Acesso em: 29 jan. 2026.