Por Martins Pena (1845)
EUFRÁSIA e CECÍLIA – Adeus, adeus! Até sempre. (Os de casa acompanham-nos.)
EUFRÁSIA, parando no meio da casa – Mande o vestido pela Joana.
CLEMÊNCIA – Sim. Mas quer um só, ou todos os dois?
EUFRÁSIA – Basta um.
CLEMÊNCIA – Pois sim.
CECÍLIA, para Mariquinha – Você também mande-me o molde das mangas.
Mamã, não era melhor fazer o vestido de mangas justas?
EUFRÁSIA – Faze como quiseres.
JOÃO – Deixem isto para outra ocasião e vamos, que é tarde.
EUFRÁSIA – Já vamos, já vamos. Adeus, minha gente, adeus. (Beijos e abraços.)
CECÍLIA, para Mariquinha – O livro que te prometi mando amanhã.
MARIQUINHA – Sim.
CECÍLIA – Adeus. Boas noites, senhor Felício.
EUFRÁSIA., parando quase junto da porta – Você sabe? Nenhuma das sementes pegou.
CLEMÊNCIA – É que não soube plantar.
EUFRÁSIA —. Qual!
MARIQUINHA – Adeus, Lulu.
EUFRÁSIA – Não eram boas.
CLEMÊNCIA – Eu mesmo as colhi.
MARIQUINHA – Marotinho!
CECÍLIA – Se você ver dª. Luísa, dê lembranças.
EUFRÁSIA – Mande outras.
MARIQUINHA – Mamã, olhe Lulu que está lhe estendendo os braços.
CLEMÊNCIA – Um beijinho.
CECÍLIA – Talvez possa vir amanhã.
CLEMÊNCIA – Eu mando outras, comadre.
JOÃO – Então, vamos ou não vamos? (Desde que Eufrásia diz —Você sabe?
Nenhuma das sementes pegou – falam todos ao mesmo tempo, com algazarra.)
CLEMÊNCIA – Já vão, já vão.
EUFRÁSIA – Espere um bocadinho.
JOÃO, para Felício – Não se pode aturar senhoras.
EUFRÁSIA – Adeus, comadre, o João quer-se ir embora. Talvez venham cá os Reis.
CECÍLIA – É verdade, e...
JOÃO – Ainda não basta?
EUFRÁSIA —. Que impertinência! Adeus, adeus!
CLEMÊNCIA [e] MARIQUINHA – Adeus, adeus!
EUFRÁSIA. chega à porta e pára – Quando quiser, mande a abóbora para fazer o doce.
CLEMÊNCIA – Pois sim, quando estiver madura lá mando, e ...
JOÃO, à parte – Ainda não vai desta, irra!
CECÍLIA, para Mariquinha – Esqueci-me de te mostrar o meu chapéu.
CLEMÊNCIA – Não bota cravo.
CECÍLIA – Manda buscar?
EUFRÁSIA – Pois sim, tenho um receita.
MARIQUINHA – Não, teu pai está zangado.
CLEMÊNCIA – Com flor de laranja.
EUFRÁSIA – Sim.
JOÃO, à parte, batendo com o pé – É de mais!
CECÍLIA – Mande para eu ver.
MARIQUINHA – Sim.
EUFRÁSIA – Que o açúcar seja bom.
CECÍLIA – E outras coisas novas.
CLEMÊNCIA – É muito bom.
EUFRÁSIA – Está bem, adeus. Não se esqueça.
CLEMÊNCIA – Não.
CECÍLIA – Enquanto a Vitorina está lá em casa.
MARIQUINHA – Conta bem.
CECÍLIA – Adeus, Júlia.
JÚLIA – Mande a boneca.
CECÍLIA – Sim.
JÚLIA – Lulu, adeus, bem, adeus!
MARIQUINHA – Não faça ele cair!
JÚLIA – Não.
JOÃO – Eu vou saindo. Boas noites. (À parte:) Irra, irra!
CLEMÊNCIA – Boas noites, sô João.
EUFRÁSIA – Anda, menina. Juca, vem.
TODOS – Adeus, adeus, adeus! (Toda esta cena deve ser como a outra, falada ao mesmo tempo.)
JOÃO – Enfim! (Saem Eufrásia, Cecília, João, o menino e a preta; Clemência, Mariquinha ficam à porta; Felício acompanha as visitas.) CLEMÊNCIA, da porta – Adeus!
EUFRÁSIA, dentro – Toma sentido nos Reis pra me contar.
CLEMÊNCIA, da porta – Hei de tomar bem sentido.
CECÍLIA, de dentro – Adeus, bem! Mariquinha?
MARIQUINHA – Adeus!
CLEMÊNCIA, da porta – Ó comadre, manda o Juca amanhã, que é domingo.
EUFRÁSIA, dentro – Pode ser. Adeus.
CENA XII
CLEMÊNCIA, MARIQUINHA e FELÍCIO.
CLEMÊNCIA – Menina, são horas de mandar arranjar a mesa pra ceia dos Reis.
MARIQUINHA – Sim, mamã.
CLEMÊNCIA – Viste a Cecília como vinha? Não sei aquela comadre aonde quer ir parar. Tanto luxo e o marido ganha tão pouco! São milagres que estas gentes sabem fazer.
MARIQUINHA – Mas elas cosem pra fora.
CLEMÊNCIA – Ora, o que dá a costura? Não sei, não sei! Há coisas que se não podem explicar... Donde lhes vem o dinheiro não posso dizer. Elas que o digam. (Entra Felício.) Felício, você também não acompanha os Reis?
FELÍCIO – Hei de acompanhar, minha tia.
CLEMÊNCIA – E ainda é cedo?
FELÍCIO, tirando o relógio – Ainda; apenas são nove horas.
CLEMÊNCIA – Ah, meu tempo!
CENA XIII
Entra NEGREIRO acompanhado de um preto de ganho com um cesto à cabeça coberto com um cobertor de baeta encarnada.
NEGREIRO – Boas noites.
CLEMÊNCIA —Oh, pois voltou? O que traz com este preto?
NEGREIRO – Um presente que lhe ofereço.
CLEMÊNCIA – Vejamos o que é.
(continua...)
PENA, Martins. Os dois ou o Inglês Maquinista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2164 . Acesso em: 29 jan. 2026.