Por Martins Pena (1845)
CECÍLIA – Sim, um que anda num cavalo rabão.
MARIQUINHA – Ah!
CECÍLIA – Tenho mais outros dois que eu não conheço.
MARIQUINHA – Pois também namoras a quem não conheces?
CECÍLIA – Pra namorar não é preciso conhecer. Você quer ver a carta que um destes dois mandou-me mesmo quando estava me vestindo para sair?
MARIQUINHA – Sim, quero.
CECÍLIA, procurando no seio a carta – Não tive tempo de deixá-la na gaveta; minha mãe estava no meu quarto. (Abrindo a carta, que estava muito dobrada:) Foi o moleque que me entregou. Escute. (Lendo:) “Minha adorada e crepitante estrela. . .“ (Deixando de ler:) Hem?
MARIQUINHA – Continua.
CECÍLIA, lendo – “Os astros, que brilham nas chamejantes esferas de teus sedutores e atrativos olhos, ofuscaram em tão subido e sublimado ponto o meu amatório discernimento, que por ti me enlouqueceu. Sim, meu bem, um general quando vence uma batalha não é mais feliz do que eu! Se receberes os meus sinceros sofrimentos, serei ditoso; se não, ficarei louco e irei viver na Hircânia, no Japão, nos sertões de Minas, enfim, em toda parte aonde possa encontrar desuma[na]s feras, e lá morrerei. Adeu[s] deste que jura ser teu, apesar da negra e fria morte. O mesmo”. (Deixando de ler:) Não está tão bem escrita? Que estilo! Que paixão, bem? Como estas, ou melhores ainda, tenho lá em casa muitas!
MARIQUINHA – Que te faça muito bom proveito, pois eu não tenho nem uma.
CECÍLIA – Ora veja só! Qual é a moça que não recebe sua cartinha? Sim, também não admira; vocês dois moram em casa.
MARIQUINHA – Mas dize-me, Cecília, para que tem você tantos namorados?
CECÍLIA – Para quê? Eu te digo; para duas coisas: primeira, para divertir-me; segunda, para ver se de tantos, algum cai.
MARIQUINHA – Mau cálculo. Quando se sabe que uma moça dá corda a todos, todos brincam, e todos...
CECÍLIA – Acaba.
MARIQUINHA – E todos a desprezam.
CECÍLIA – Desprezam! Pois não. Só se se é alguma tola e dá logo a perceber que tem muitos namorados. Cada um dos meus supõe-se único na minha afeição.
MARIQUINHA – Tens habilidade.
CECÍLIA – É tão bom estar-se à janela, vendo-os passar um atrás do outro como os soldados que passam em continência. Um aceno para um, uma t[os]sezinha para outro, um sorriso, um escárnio, e vão eles tão contentezinhos...
CENA X
Entra FELÍCIO.
FELÍCIO, entrando – Perdi-o de vista.
CECÍLIA, assustando-se – Ai, que susto me meteu o sr. Felício!
FELÍCIO – Muito sinto que...
CECÍLIA – Não faz mal. (Com ternura:) Se todos os meus sustos fossem como este, não se me dava de estar sempre assustada.
FELÍCIO – E eu não me daria de causar, não digo susto, mas surpresa a pessoas tão amáveis e bela[s] como a senhora dªona Cecília.
CECÍLIA – Não mangue comigo; ora veja!
MARIQUINHA., à parte – Já ela está a namorar o primo. É insuportável.
Primo?
FELÍCIO – Priminha?
MARIQUINHA – Aquilo?
FELÍCIO – Vai bem.
CECÍLIA – O que é?
MARIQUINHA – Uma coisa.
CENA XI
Entram CLEMÊNCIA, EUFRÁSIA, JOÃO, JÚLIA, o menino, a preta com a criança e o moleque.
CLEMÊNCIA – Mostra que tem habilidade.
EUFRÁSIA – Assim é bom, pois o meu nem por isso. Quem também já vai adiantado é o Juca; ainda [ontem (?)] o João comprou-lhe um livro de fábula.
CLEMÊNCIA – As mestras da Júlia estão muito contentes com ela. Está muito adiantada. Fala francês e daqui a dois dias não sabe mais falar português.
FELÍCIO, à parte – Belo adiantamento!
CLEMÊNCIA – É muito bom colégio. Júlia, cumprimenta aqui o senhor em francês.
JÚLIA – Ora, mamã.
CLEMÊNCIA – Faça-se de tola!
JÚLIA – Bon jour, Monsieur, comment vous portez-vous? Je suis votre serviteur.
JOÃO – Oui. Está muito adiantada.
EUFRÁSIA – É verdade.
CLEMÊNCIA, para Júlia – Como é mesa em francês?
JÚLIA – Table.
CLEMÊNCIA – Braço?
JÚLIA – Bras.
CLEMÊNCIA – Pescoço?
JÚLIA – Cou.
CLEMÊNCIA – Menina!
JÚLIA – É cou mesmo, mamã; não é primo? Não é cou que significa?
CLEMÊNCIA – Está bom, basta.
EUFRÁSIA – Estes franceses são muito porcos. Ora veja, chamar o pescoço, que está ao pé da cara, com este nome tão feio.
JOÃO, para Eufrásia – Senhora, são horas de nos irmos.
CLEMÊNCIA – Já?
JOÃO – É tarde.
EUFRÁSIA – Adeus, comadre, qualquer destes dias cá virei. dª. Mariquinha, adeus. (Dá um abraço e um beijo.)
MARIQUINHA – Passe bem. Cecília, até quando?
CECÍLIA – Até nos encontrarmos. Adeus. (Dá abraço e muitos beijos.)
EUFRÁSIA, para Clemência – Não se esqueça daquilo.
CLEMÊNCIA – Não.
JOÃO, para Clemência – Comadre, boas noites.
CLEMÊNCIA – Boas noites, compadre.
(continua...)
PENA, Martins. Os dois ou o Inglês Maquinista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2164 . Acesso em: 29 jan. 2026.