Por Martins Pena (1845)
Mariquinha, Cecília, João do Amaral, Júlia, o menino, a preta e o moleque.)
CENA VII
FELÍCIO E GAINER
FELÍCIO – Estou admirado! Excelente idéia! Bela e admirável máquina!
GAINER, contente – Admirável, sim.
FELÍCIO – Deve dar muito interesse.
GAINER – Muita interesse o fabricante. Quando este máquina tiver acabada, não precisa mais de cozinheiro, de sapateira e de outras muitas ofícias.
FELÍCIO – Então a máquina supre todos estes ofícios?
GAINER – Oh, sim! Eu bota a máquina aqui no meio da sala, manda vir um boi, bota a boi na buraco da maquine e depois de meia hora sai por outra banda da maquine tudo já feita.
FELÍCIO – Mas explique-me bem isto.
GAINER – Olha. A carne do boi sai feita em beef, em roast-beef, em fricandó e outras muitas; do couro sai sapatas, botas...
FELÍCIO, com muita seriedade – Envernizadas?
GAINER – Sim, também pode ser. Das chifres sai bocetas, pentes e cabo de faca; das ossas sai marcas...
FELÍCIO, no mesmo – Boa ocasião para aproveitar os ossos para o seu açúcar.
GAINER – Sim, sim, também sai açúcar, balas da Porto e amêndoas.
FELÍCIO – Que prodígio! Estou maravilhado! Quando pretende fazer trabalhar a máquina?
GAINER – Conforme; falta ainda alguma dinheira. Eu queria fazer uma empréstima. Se o senhor quer fazer seu capital render cinqüenta por cento dá a mim para acabar a maquina, que trabalha depois por nossa conta.
FELÍCIO, à parte – Assim era eu tolo... (Para [Gainer:]) Não sabe quanto sinto não ter dinheiro disponível. Que bela ocasião de triplicar, quadruplicar, quintuplicar, que digo, centuplicar o meu capital em pouco! Ah!
GAINER, à parte – Destes tolas eu quero muito.
FELÍCIO – Mas veja como os homens são maus. Chamarem ao senhor, que é o homem o mais filantrópico e desinteressado e amicíssimo do Brasil, especulador de dinheiros alheios e outros nomes mais.
GAINER —A mim chama especuladora? A mim? By God! Quem é a atrevido que me dá esta nome?
FELÍCIO – É preciso, na verdade, muita paciência. Dizerem que o senhor está rico com espertezas!
GAINER – Eu rica! Que calúnia! Eu rica? Eu está pobre com minhas projetos pra bem do Brasil.
FELÍCIO, à parte – O bem do brasileiro é o estribilho destes malandros... (Para Gainer:) Pois não é isto que dizem. Muitos crêem que o senhor tem um grosso capital no Banco de Londres; e além disto, chamam-lhe de velhaco.
GAINER, desesperado – Velhaca, velhaca! Eu quero mete uma bala nos miolos deste patifa. Quem é estes que me chama velhaca?
FELÍCIO – Quem? Eu lho digo: ainda não há muito que o Negreiro assim disse.
GAINER – Negreira disse? Oh, que patifa de meia-cara... Vai ensina ele... Ele me paga. Goddam!
FELÍCIO – Se lhe dissesse tudo quanto ele tem dito...
GAINER – Não precisa dize; basta chama velhaca a mim pra eu mata ele. Oh, que patifa de meia-cara! Eu vai dize a commander do brigue Wizart que este patifa é meia-cara; pra segura nos navios dele. Velhaca! Velhaca! Goddam! Eu vai mata ele! Oh! (Sai desesperado.)
CENA VIII
FELÍCIO, só – Lá vai ele como um raio! Se encontra o Negreiro, temos salsada.
Que furor mostrou por lhe dizer eu que o chamavam velhaco! Dei-lhe na balda! Vejamos no que dá tudo isto. Segui-lo-ei de longe até que se encontre com Negreiro; deve ser famoso o encontro. Ah, ah, ah! (Toma o chapéu e sai.)
CENA IX Entra CECÍLIA e MARIQUINHA.
MARIQUINHA, entrando – É como eu te digo.
CECÍLIA – Tu não gostas nada dele?
MARIQUINHA – Aborreço-o.
CECÍLIA – Ora, deixa-te disso. Ele não é rico?
MARIQUINHA – Dizem que muito.
CECÍLIA – Pois então? Casa-te com ele, tola.
MARIQUINHA – Mas, Cecília, tu sabes que eu amo o meu primo.
CECÍLIA – E o que tem isso? Estou eu que amo a mais de um, e não perderia um tão bom casamento como o que agora tens. É tão belo ter um marido que nos dê carruagens, chácara, vestidos novos pra todos os bailes... Oh, que fortuna! Já ia sendo feliz uma ocasião. Um negociante, destes pé-de-boi, quis casar comigo, a ponto de escrever-me uma carta, fazendo a promessa; porém logo que soube que eu não tinha dote como ele pensava, sumiu-se e nunca mais o vi.
MARIQUINHA – E nesse tempo amavas a alguém?
CECÍLIA – Oh, se amava! Não faço outra coisa todos os dias. Olha, amava ao filho de dª. Joana, aquele tenente, amava aquele que passava sempre por lá, de casaca verde; amava...
MARIQUINHA – Com efeito! E amavas a todos?
CECÍLIA – Pois então?
MARIQUINHA – Tens belo coração de estalagem!
CECÍLIA – Ora, isto não é nada!
MARIQUINHA – Não é nada?
CECÍLIA – Não. Agora tenho mais namorados que nunca; tenho dois militares, um empregado do Tesouro, o cavalo rabão...
MARIQUINHA – Cavalo rabão?
(continua...)
PENA, Martins. Os dois ou o Inglês Maquinista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2164 . Acesso em: 29 jan. 2026.