Por Martins Pena (1845)
NEGREIRO – Dever? Perdoe que lhe diga: ainda está muito moço... Ora, suponha que chega um navio carregado de africanos e deriva em uma dessas praias, e que o capitão vai dar disso parte ao juiz do lugar. O que há de este fazer, se for homem cordato e de juízo? Responder do modo seguinte: Sim senhor, sr. capitão, pode contar com a minha proteção, contanto que V. S.ª... Não sei se me entende? Suponha agora que este juiz é um homem esturrado, destes que não sabem aonde têm a cara e que vivem no mundo por ver os outros viverem, e que ouvindo o capitão, responda-lhe com quatro pedras na mão: Não senhor, não consinto! Isto é uma infame infração da lei e o senhor insulta-me fazendo semelhante proposta! – E que depois deste aranzel de asneiras pega na pena e oficie ao Governo. O que lhe acontece? Responda.
FELÍCIO – Acontece o ficar na conta de íntegro juiz e homem de bem.
NEGREIRO – Engana-se; fica na conta de pobre, que é menos que pouca coisa. E no entanto vão os negrinhos para um depósito, a fim de serem ao depois distribuídos por aqueles de quem mais se depende, ou que têm maiores empenhos. Calemo-nos, porem, que isto vai longe.
FELÍCIO – Tem razão! (Passeia pela sala.)
NEGREIRO, para Clemência – Daqui a alguns anos mais falará de outro modo.
CLEMÊNCIA – Deixe-o falar. A propósito, já lhe mostrei o meu meia-cara , que recebi ontem na Casa da Correção?
NEGREIRO – Pois recebeu um?
CLEMÊNCIA – Recebi, sim. Empenhei-me com minha comadre, minha comadre empenhou-se com a mulher do desembargador, a mulher do desembargador pediu ao marido, este pediu a um deputado, o deputado ao ministro e fui servida.
NEGREIRO – Oh, oh, chama-se isto transação! Oh, oh!
CLEMÊNCIA – Seja lá o que for; agora que tenho em casa, ninguém mo arrancará. Morrendo-me algum outro escravo, digo que foi ele.
FELÍCIO – E minha tia precisava deste escravo, tendo já tantos?
CLEMÊNCIA – Tantos? Quanto mais, melhor. Ainda eu tomei um só. E os que tomam aos vinte e aos trinta? Deixa-te disso, rapaz. Venha vê-lo, sr. Negreiro. [(Saem.)]
CENA II
[FELÍCIO e MARIQUINHA.]
FELÍCIO – Ouviste, prima, como pensa este homem com quem tua mãe pretende casar-te?
MARIQUNHA – Casar-me com ele? Oh, não, morrerei antes!
FELÍCIO – No entanto é um casamento vantajoso. Ele é imensamente rico... Atropelando as leis, é verdade; mas que importa? Quando fores sua mulher...
MARIQUINHA – E é você quem me diz isto? Quem me faz essa injustiça?
Assim são os homens, sempre ingratos!
FELÍCIO – Meu amor, perdoa. O temor de perder-te faz-me injusto.
Bem sabes quanto eu te adoro; mas tu és rica, e eu um pobre empregado público; e tua mãe jamais consentirá em nosso casamento, pois supõe fazer-te feliz dando-te um marido rico.
MARIQUINHA – Meu Deus!
FELÍCIO – Tão bela e tão sensível como és, seres a esposa de um homem para quem o dinheiro é tudo! Ah, não, ele terá ainda que lutar comigo! Se supõe que a fortuna que tem adquirido com o contrabando de africanos há de tudo vencer, enganase! A inteligência e o ardil às vezes podem mais que a riqueza.
MARIQUINHA – O que pode você fazer? Seremos sempre infelizes.
FELÍCIO – Talvez que não. Sei que a empresa é difícil. Se ele te amasse, serme-ia mais fácil afastá-lo de ti; porém ele ama o teu dote, e desta qualidade de gente arrancar um vintém é o mesmo que arrancar a alma do corpo... Mas não importa.
MARIQUINHA – Não vá você fazer alguma coisa com que mamã se zangue e fique mal com você...
FELÍCIO – Não, descansa. A luta há de ser longa, pois que não é este o único inimigo. As assiduidades daquele maldito Gainer já também inquietam-me. Veremos...
E se for preciso... Mas não; eles se entredestruirão ; o meu plano não pode falhar.
MARIQUINHA – Veja o que faz. Eu lhe amo, não me envergonho de o dizer; porém se for preciso para nossa união que você faça alguma ação que... (Hesita.)
FELÍCIO – Compreendo o que queres dizer... Tranqüiliza-te.
JÚLIA, entrando – Mana, mamã chama.
MARIQUINHA – Já vou. Tuas palavras animaram-me.
JÚLIA – Ande, mana.
MARIQUINHA – Que impertinência! (Para Felício, à parte:) Logo conversaremos...
FELÍCIO – Sim, e não te aflijas mais, que tudo se arranjará. (Saem Mariquinha e Júlia.)
CENA III
FELÍCIO, só – Quanto eu a amo! Dois rivais! Um negociante de meia-cara e um especulador... Belo par, na verdade! Ânimo! Comecem-se hoje as hostilidades. Veremos, meus senhores, veremos! Um de vós sairá corrido desta casa pelo outro, e um só ficará para mim - se ficar... (Entra mister Gainer.)
CENA IV
[FELÍCIO e GAINER.]
GAINER – Viva, senhor.
FELÍCIO – Oh, um seu venerador...
GAINER – Passa bem? Estima muito. Senhora dona Clemência foi passear?
FELÍCIO – Não senhor, está lá dentro. Queria alguma coisa?
GAINER – Coisa não; vem fazer minhas cumprimentos.
(continua...)
PENA, Martins. Os dois ou o Inglês Maquinista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2164 . Acesso em: 29 jan. 2026.