Por Martins Pena (1845)
Escutai e ouvireis,
Que da parte do Oriente
São chegados os três Reis.
ALBERTO, pára à porta – Oh! (N.B.: Continuam a representar enquanto dentro cantam.)
FELÍCIO, segurando-o – Assim quereis abandonar-nos, meu tio?
MARIQUINHA, indo para Alberto – Meu pai!...
FELÍCIO, conduzindo-o para a frente – Que será de vossa mulher e de vossas filhas? Abandonadas por vós, todos as desprezarão... Que horrível futuro para vossas inocentes filhas! Esta gente que não tarda a entrar espalhará por toda a cidade a notícia do seu desamparo.
MARIQUINHA – Assim nos desprezais?
JÚLIA, abrindo os braços como para abraçá-lo – Papá, papá!
FELÍCIO – Vede-as, vede-as!
ALBERTO, comovido – Minhas filhas! (Abraça-as com transporte.)
GAINER – Mim perde muito com este... E vai embora!
NEGREIRO – Aonde vai? (Quer segurá-lo; Gainer dá-lhe um soco que o lança no chão, deixando a aba da casaca na mão de Negreiro. Clemência, vendo Alberto abraçar as filhas, levanta-se e caminha para ele.)
CLEMÊNCIA , humilde – Alberto!
ALBERTO – Mulher, agradece às tuas filhas... estás perdoada... Longe de minha vista este infame. Onde está ele?
NEGREIRO – Foi-se, mas, em suma, deixou penhor.
ALBERTO – Que nunca mais me apareça! (Para Mariquinha e Felício:) Tudo ouvi junto com aquele senhor, (aponta para Negreiro) e vossa honra exige que de hoje a oito dias estejais casados.
FELÍCIO – Feliz de mim!
NEGREIRO – Em suma, fiquei mamado e sem o dote...
CENA XXVIII
Entram dois moços vestidos de jaqueta e calças brancas.
UM DOS MOÇOS – Em nome de meus companheiros pedimos à senhora dona Clemência a permissão de cantarmos os Reis em sua casa.
CLEMÊNCIA – Pois não, com muito gosto.
O MOÇO – A comissão agradece. (Saem os dois.)
FELÍCIO, para Alberto – Morro de impaciência por saber como pôde meu tio escapar das mãos dos rebeldes para nos fazer tão felizes.
ALBERTO – Satisfarei com vagar a tua impaciência.
CENA XXIX
Entram os moços e moças que vêm cantar os Reis; alguns deles, tocando diferentes instrumentos, precedem o rancho. Cumprimentam quando entram.
O MOÇO – Vamos a esta, rapaziada!
UM MOÇO e UMA MOÇA, cantando:
(Solo)
No céu brilhava uma estrela,
Que a três Magos conduzia
Para o berço onde nascera
Nosso Conforto e Alegria.
(Coro)
Ó de casa, nobre gente,
Acordai e ouvireis,
Que da parte do Oriente
São chegados os três Reis.
(RITORNELO)
(Solo)
Puros votos de amizade,
Boas-festas e bons Reis
Em nome do Rei nascido
Vos pedimos que aceiteis.
(Coro)
Ó de casa, nobre gente,
Acordai e ouvireis,
Que da parte do Oriente
São chegados os três Reis.
TODOS DA CASA – Muito bem!
CLEMÊNCIA – Felício, convida às senhoras e senhores para tomarem algum refresco.
FELÍCIO – Queiram .ter a bondade de entrar, que muito nos obsequiarão.
OS DO RANCHO – Pois não, pois não! Com muito gosto.
CLEMÊNCIA – Queiram entrar. (Clemência e os da casa caminham para dentro e o rancho os segue tocando uma alegre marcha, e desce o pano.)
FIM
Baixar texto completo (.txt)PENA, Martins. Os dois ou o Inglês Maquinista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2164 . Acesso em: 29 jan. 2026.