Por Martins Pena (1845)
ALBERTO – Minha mulher e minha filha ainda se lembrarão de mim? Serão elas felizes, ou como eu experimentarão os rigores do infortúnio? Há apenas duas horas que desembarquei, chegando dessa malfadada província aonde dois anos estive prisioneiro. Lá os rebeldes me detiveram, porque julgavam que eu era um espião; minhas cartas para minha família foram interceptadas e minha mulher talvez me julgue morto... Dois anos, que mudanças terão trazido consigo? Cruel ansiedade! Nada indaguei, quis tudo ver com meus próprios olhos... É esta a minha casa, mas estes móveis não conheço... Mais ricos e suntuosos são do que aqueles que deixei. Oh, terá também minha mulher mudado? Sinto passos... Ocultemo-nos... Sinto-me ansioso de temor e alegria... meu Deus! (Encaminha-se para a janela aonde está escondido
Negreiro.) NEGREIRO, à parte – Oh, diabo! Ei-lo comigo! (Alberto querendo esconder-sena janela, dá com Negreiro e recua espantado.) ALBERTO – Um homem! Um homem escondido em minha casa!
NEGREIRO, saindo da janela – Senhor!
ALBERTO – Quem és tu? Responde! (Agarra-o.)
NEGREIRO – Eu? Pois não me conhece, sr. Alberto? Sou Negreiro, seu amigo... Não me conhece?
ALBERTO – Negreiro... sim... Mas meu amigo, e escondido em casa de minha mulher!
NEGREIRO – Sim senhor, sim senhor, por ser seu amigo é que estava escondido em casa de sua mulher.
ALBERTO, agarrando Negreiro pelo pescoço – Infame!
NEGREIRO – Não me afogue! Olhe que eu grito!
ALBERTO – Dize, por que te escondias?
NEGREIRO – Já lhe disse que por ser seu verdadeiro amigo... Não aperte que não posso, e então também dou como um cego, em suma.
ALBERTO, deixando-o – Desculpa-te se podes, ou treme...
NEGREIRO – Agora sim... Vá ouvindo. (À parte:) Assim safo-me da arriosca e vingo-me, em suma, do inglesinho. (Para Alberto:) Sua mulher é uma traidora!
ALBERTO – Traidora?
NEGREIRO – Traidora, sim, pois não tendo certeza de sua morte, tratava já de casar-se.
ALBERTO – Ela casar-se? Tu mentes! (Agarra-o com força.)
NEGREIRO – Olhe que perco a paciência... Que diabo! Por ser seu amigo e vigiar sua mulher agarra-me deste modo? Tenha propósito, ou eu... Cuida que é mentira? Pois esconda-se um instante comigo e verá. (Alberto esconde o rosto nas mãos e fica pensativo. Negreiro, à parte:) Não está má a ressurreição! Que surpresa para a mulher! Ah, inglesinho, agora me pagarás!
ALBERTO, tomando-o pelo braço – Vinde... Tremei porém, se sois um caluniador. Vinde! (Escondem-se ambos na janela e observam durante toda a seguinte cena.)
NEGREIRO, da janela – A tempo nos escondemos, que alguém se aproxima!
CENA XXI Entra FELÍCIO e MARIQUINHA.
FELÍCIO – É preciso que te resolvas o quanto antes.
ALBERTO, da janela – Minha filha!
MARIQUINHA – Mas...
FELÍCIO – Que irresolução é a tua? A desavença entre os dois fará que a tia apresse o teu casamento – com qual deles não sei. O certo é que de um estamos livres; resta-nos outro. Só com coragem e resolução nos podemos tirar deste passo. O que disse o Negreiro à tua mãe não sei, porém, o que quer que seja, a tem perturbado muito, e meu plano vai-se desarranjando.
MARIQUINHA – Oh, é verdade, a mamãe tem ralhado tanto comigo depois desse momento, e me tem dito mil vezes que eu serei a causa da sua morte...
FELÍCIO – Se tivesses coragem de dizer a tua mãe que nunca te casarás com o Gainer ou com o Negreiro...
NEGREIRO, da janela – Obrigado!
MARIQUINHA – Jamais o ousarei!
FELÍCIO – Pois bem, se o não ousas dizer, fujamos.
MARIQUINHA – Oh, não, não!
CLEMÊNCIA, dentro – Mariquinha?
MARIQUINHA – Adeus! Nunca pensei que você me fizesse semelhante proposição!
FELÍCIO, segurando-a pela mão – Perdoa, perdoa ao meu amor! Estás mal comigo? Pois bem, já não falarei em fugida, em planos, em entregas; apareça só a força e coragem. Aquele que sobre ti lançar vistas de amor ou de cobiça comigo se haverá.
Que me importa a vida sem ti? E um homem que despreza a vida...
MARIQUINHA, suplicante – Felício!
CLEMÊNCIA, dentro – Mariquinha?
MARIQUINHA – Senhora? Eu te rogo, não me faças mais desgraçada!
CLEMÊNCIA, dentro – Mariquinha, não ouves?
MARIQUINHA, – Já vou, minha mãe. Não é verdade que estavas brincando?
FELÍCIO – Sim, sim, estava; vai descansada.
MARIQUINHA – Eu creio em tua palavra. (Sai apressada.)
CENA XXII
FELÍCIO, só – Crê na minha palavra, porque eu disse que serás minha. Com aquele dos dois que te ficar pertencendo irei ter, e será teu esposo aquele que a morte poupar. São dez horas, os amigos me esperam. Amanhã se decidirá minha sorte. (Toma o chapéu que está sobre a mesa e sai.)
CENA XXIII
ALBERTO e NEGREIRO, sempre na janela.
ALBERTO – Oh, minha ausência, minha ausência!
NEGREIRO – A mim não me matarás! Safa, em suma.
ALBERTO – A que cenas vim eu assistir em minha casa!
NEGREIRO – E que direi eu? Que tal o menino?
ALBERTO – Clemência, Clemência, assim conservavas tu a honra da nossa família? Mas o senhor pretendia casar-se com minha filha?
NEGREIRO – Sim senhor, e creio que não sou um mau partido; porém já desisto, em suma, e... Caluda, caluda!
CENA XXIV
Entra CLEMÊNCIA muito bem vestida.
(continua...)
PENA, Martins. Os dois ou o Inglês Maquinista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2164 . Acesso em: 29 jan. 2026.