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#Comédias#Literatura Brasileira

Os Dois ou o Inglês Maquinista

Por Martins Pena (1845)

Os dois ou o Inglês Maquinista é uma comédia teatral que retrata, de forma bem-humorada, os costumes da sociedade brasileira do século XIX. A trama gira em torno de confusões familiares, interesses amorosos e enganos provocados pela presença de um estrangeiro, revelando críticas à hipocrisia social e ao comportamento da elite. Com diálogos ágeis e situações cômicas, a obra diverte ao mesmo tempo em que satiriza a vida urbana da época.

[Comédia em 1 ato]

PERSONAGENS

CLEMÊNCIA

MARIQUINHA, sua filha

JÚLIA, irmã de Mariquinha (10 anos)

FELÍCIO, sobrinho de Clemência

GAINER, inglês

NEGREIRO, negociante de negros novos

[EUFRÁSIA]

[CECÍLIA, sua filha]

[JUCA, irmão de Cecília]

[JOÃO DO AMARAL, marido de Eufrásia]

ALBERTO, marido de Clemência

Moços e moças

A cena passa-se no Rio de Janeiro, no ano de 1842.

TRAJOS PARA AS PERSONAGENS

CLEMÊNCIA – Vestido de chita rosa, lenço de seda preto, sapatos pretos e penteado de tranças.

MARIQUINHA – Vestido branco de escócia, de mangas justas, sapatos pretos, penteado de bandó e uma rosa natural no cabelo.

JÚLIA – Vestido branco de mangas compridas e afogado, avental verde e os cabelos caídos em cachos pelas costas.

NEGREIRO – Calças brancas sem presilhas, um pouco curtas, colete preto, casaca azul com botões amarelos lisos, chapéu de castor branco, guarda-sol encarnado, cabelos arrepiados e suíças pelas faces até junto dos olhos.

FELÍCIO – Calças de casimira cor de flor de alecrim, colete branco, sobrecasaca, botins envernizados, chapéu preto, luvas brancas, gravata de seda de cor, alfinete de peito, cabelos compridos e suíças inteiras.

GAINER – Calças de casimira de cor, casaca, colete, gravata preta, chapéu branco de copa baixa e abas largas, luvas brancas, cabelos louros e suíças até o meio das faces.

ATO ÚNICO

O teatro representa uma sala. No fundo, porta de entrada; à esquerda, duas janelas de sacadas, e à direita, duas portas que dão para o interior. Todas as portas e janelas terão cortinas de cassa branca. À direita, entre as duas portas, um sofá, cadeiras, uma mesa redonda com um candeeiro francês aceso, duas jarras com flores naturais, alguns bonecos de porcelana; à esquerda, entre as janelas, mesas pequenas com castiçais de mangas de vidro e jarras com flores. Cadeiras pelos vazios das paredes. Todos estes móveis devem ser ricos.

CENA I

CLEMÊNCIA, NEGREIRO, MARIQUINHA, FELÍCIO. Ao levantar o pano, ver-se-á CLEMÊNCIA e MARIQUINHA sentadas no sofá; em uma cadeira junto destas NEGREIRO, e recostado sobre a mesa FELÍCIO que lê o Jornal do Comércio e levanta às vezes os olhos, como observando a NEGREIRO.

CLEMÊNCIA – Muito custa viver-se no Rio de Janeiro! É tudo tão caro!

NEGREIRO – Mas o que quer a senhora em suma? Os direitos são tão sobrecarregados! Veja só os gêneros de primeira necessidade. Quanto pagam? O vinho, por exemplo, cinqüenta por cento!

CLEMÊNCIA – Boto as mãos na cabeça todas as] vezes que recebo as contas do armazém e da loja de fazendas.

NEGREIRO – Porém as mais puxadinhas são as das modistas, não é assim?

CLEMÊNCIA —Nisto não se fala! Na última que recebi vieram dois vestidos que já tinha pago, um que não tinha mandado fazer, e uma quantidade tal de linhas, colchetes, cadarços e retroses, que fazia horror.

FELÍCIO, largando o Jornal sobre a mesa com impaciência – Irra, já aborrece!

CLEMÊNCIA – [O que é?]

[FELÍCIO – Todas as vezes] que pego neste jornal, a primeira coisa que vejo é:

“Chapas medicinais e Ungüento Durand”. Que embirração!

NEGREIRO, rindo-se – Oh, oh, oh!

CLEMÊNCIA – Tens razão, eu mesmo já fiz este reparo.

NEGREIRO – As pílulas vegetais não ficam atrás, oh, oh, oh!

CLEMÊNCIA – Por mim, se não fossem os folhetins, não lia o Jornal. O último era bem bonito; o senhor não leu?

NEGREIRO – Eu? Nada. Não gasto o meu tempo com essas ninharias, que são só boas para as moças.

VOZ na rua – Manuê quentinho! (Entra Júlia pela direita, correndo.)

CLEMÊNCIA – Aonde vai, aonde vai?

JÚLIA, parando no meio da sala – Vou chamar o preto dos manuês.

CLEMÊNCIA – E pra isso precisa correr? Vá, mas não caia. (Júlia vai para janela e chama para rua dando psius.)

NEGREIRO – A pecurrucha gosta dos doces.2

JÚLIA, da janela – Sim, aí mesmo. (Sai da janela e vai para a porta, aonde momentos depois chega um preto com um tabuleiro com manuês, e descansando-o no chão, vende-os a Júlia. Os demais continuam a conversar.)

FELÍCIO – Sr. Negreiro, a quem pertence o brigue Veloz Espadarte, aprisionado ontem junto quase da Fortaleza de Santa Cruz pelo cruzeiro inglês, por ter a seu bordo trezentos africanos?

NEGREIRO – A um pobre diabo que está quase maluco... Mas é bem feito, para não ser tolo. Quem é que neste tempo manda entrar pela barra um navio com semelhante carregação? Só um pedaço de asno. Há por aí além uma costa tão longa e algumas autoridades tão condescendentes!...

FELÍCIO – Condescendentes porque se esquecem de seu dever!

(continua...)

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