Por Martins Pena (1845)
Quem casa, quer casa apresenta uma comédia leve e crítica sobre o casamento e a vida familiar no século XIX. A trama gira em torno de um jovem casal que, ao se casar, enfrenta dificuldades para conquistar independência e um lar próprio. Por meio de situações cômicas e diálogos ágeis, o texto satiriza costumes sociais, interesses financeiros e conflitos entre gerações, oferecendo um retrato bem-humorado da sociedade da época.
Provérbio em 1 ato
PERSONAGENS
NICOLAU, marido de
FABIANA, mãe de
OLAIA e
SABINO
ANSELMO, pai de
EDUARDO, irmão de
PAULINA
Dois meninos e um homem
A cena passa-se no Rio do Janeiro, no ano de 1845.
ATO ÚNICO
Sala com uma porta no fundo, duas à direita e duas à esquerda; uma mesa com o que é necessário para escrever-se, cadeiras, etc.
CENA I
PAULINA e FABIANA. PAULINA junto à porta da esquerda e FABIANA no meio da sala mostram-se enfurecidas.
PAULINA, batendo o pé – Hei de mandar!...
FABIANA, no mesmo – Não há de mandar!
PAULINA, no mesmo – Hei de e hei de mandar!...
FABIANA – Não há de e não há de mandar!...
PAULINA – Eu lhe mostrarei. (Sai.)
FABIANA – Ai, que estalo! Isto assim não vai longe....... Duas senhoras a mandarem em uma casa.... é o inferno! Duas senhoras? A senhora aqui sou eu; esta casa é de meu marido, e ela deve obedecer-me, porque é minha nora. Quer também dar ordens; isso veremos...
PAULINA, aparecendo à porta – Hei de mandar e hei de mandar,
tenho dito! (Sai.)
FABIANA, arrepelando-se de raiva - Hum! Ora, eis aí está para que se casou meu filho, e trouxe a mulher para a minha casa. É isto constantemente. Não sabe o senhor meu filho que quem casa quer casa... Já não posso, não posso, não posso! (Batendo com o pé:) Um dia arrebento, e então veremos! (Tocam dentro rabeca.) Ai, que lá está o outro com a maldita rabeca... É o que se vê: casa-se meu filho e traz a mulher para minha casa.... É uma desavergonhada, que se não pode aturar. Casa-se minha filha, e vem seu marido da mesma sorte morar comigo... É um preguiçoso, um indolente, que para nada serve. Depois que ouviu no teatro tocar rabeca, deu-lhe a mania para aí, e leva todo o santo dia – vum, vum, vim, vim! Já tenho a alma esfalfada. (Gritando para a direita:) Ó homem, não deixarás essa maldita sanfona? Nada! (Chamando:) Olaia! (Gritando:) Olaia!
CENA II
OLAIA e FABIANA
OLAIA, entrando pela direita - Minha mãe?
FABIANA – Não dirás a teu marido que deixe de atormentar-me os ouvidos com essa infernal rabecada?
OLAIA – Deixar ele a rabeca? A mamãe bem sabe que é impossível!
FABIANA – Impossível? Muito bem!..
OLAIA – Apenas levantou-se hoje da cama, enfiou as calças e pegou na rabeca – nem penteou os cabelos. Pôs uma folha de música diante de si, a que ele chama seu Trêmolo de Bériot, e agora verás – zás, zás! (Fazendo o movimento com os braços.) Com os olhos esbugalhados sobre a música, os cabelos arrepiados, o suor a correr em bagas pela testa e o braço num vaivém que causa vertigens!
FABIANA – Que casa de Orates é esta minha, que casa de Gonçalo!
OLAIA – Ainda não almoçou, e creio que também não jantará. Não ouve como toca?
FABIANA – Olaia, minha filha, tua mãe não resiste muito tempo a este modo de viver...
OLAIA – Se estivesse em minhas mãos remediá-lo...
FABIANA – Que podes tu? Teu irmão casou-se, e como não teve posses para botar uma casa, trouxe a mulher para a minha. (Apontando:) Ali está ela para meu tormento. O irmão dessa desavergonhada vinha visitá-la freqüentemente; tu o viste, namoricaste-o, e por fim de contas casaste-te com ele... E caiu tudo em minhas costas! Irra, que arreio com a carga! Faço como os camelos...
OLAIA – Minha mãe!
FABIANA – Ela, (apontando) uma atrevida que quer mandar tanto ou mais do que eu; ele, (apontando) um mandrião romano, que só cuida em tocar rabeca, e nada de ganhar a vida; tu, uma pateta, incapaz de dares um conselho à boa jóia de teu marido.
OLAIA. – Ele gritaria comigo...
FABIANA – Pois grita tu mais do que ele, que é o meio das mulheres se fazerem ouvir. Qual histórias! É que tu és uma maricas. Teu irmão, casado com aquele demônio, não tem forças para resistir à sua língua e gênio; meu marido, que como dono da casa podia pôr cobro nestas coisas, não cuida senão na carolice: sermões, terços, procissões, festas, e o mais disse, e sua casa que ande ao Deus dará... E eu que pague as favas! Nada, nada, isto assim não vai bem; há de ter um termo... Ah!
CENA III
EDUARDO e as ditas. EDUARDO, na direita baixa, entra em mangas de camisa, cabelos grandes muito embaraçados, chinelas, trazendo a rabeca.
[EDUARDO, da porta] – Olaia, vem voltar a música.
(continua...)
PENA, Martins. Quem casa, quer casa. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2156 . Acesso em: 30 jan. 2026