Por Gregório de Matos (1694)
Poema encomiástico atribuído a Gregório de Matos, composto a pedido de um amigo de frei Tomás da Apresentação para elogiar um de seus sermões. Desenvolvido em glosa sobre um mote, o texto sustenta que apenas o próprio pregador seria capaz de avaliar plenamente sua eloquência. Com referências à retórica, à filosofia e à pintura, o autor justifica sua dificuldade em louvar uma pregação considerada superior aos elogios que poderia fazer.
MOTE
Louvar vossas orações é próprio do Pregador,
e a mim me dá mais temor
o Pregador, que os sermões.
Só o vosso
entendimento vos pode
Tomás louvar, e eu se
pudera imitar
qualquer vosso pensamento: para
mostrar seu talento
fez um círculo em borrões
Apeles com dous carvões;
quem vira uma risca vossa?
Riscai vós, para que eu possa
Louvar vossas orações.
A causa é melhor, que o efeito na
boa filosofia,
e assim é vossa energia
menor, que o vosso sujeito:
logo se no humano peito
não há alcançar o primor
nas obras de tal autor,
mal a causa alcançarão,
pois o pregar do sermão
É próprio do Pregador.
Se louvo vossa alta idéia,
sou culpado em me
atrever, e sou culpado em
meter, a fouce em seara
alheia:
nesta empresa, em que
receia entrar o engenho
major,
entra o néscio sem pavor,
porque a louca valentia
dá ao néscio a ousadia,
E a mim me dá mais temor.
Ou cobarde, ou atrevido,
ou ousado, ou não
ousado hei de dizer
empenhado, o que calava
entendido: um amigo a
vós rendido pede a
vossas orações as
]minhas aprovações,
e eu calando lhe obedeço,
porque fique em maior preço
O Pregador, que os sermões.