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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

Girândola de Amores, de Aluísio Azevedo, reúne histórias marcadas por paixões, encontros e desencontros amorosos. A narrativa acompanha personagens envolvidos em relações complexas, nas quais sentimentos, interesses e ilusões se entrelaçam. Com olhar crítico e irônico, a obra explora os costumes e as contradições das relações afetivas na sociedade de seu tempo.

CAPÍTULO I

O RAPTO

Clorinda acabava de pôr o seu véu de noiva e, de costas para o espelho, olhava por sobre o ombro a cauda do vestido.

A velha Januária pregava-lhe com muita solicitude o último alfinete dourado, e, como representasse para ela o papel de mãe, repetia-lhe baixinho, com a voz comovida e os óculos embaçados pelas lágrimas, os invariáveis conselhos adequados à situação.

Aos pés de Clorinda, ajoelhada no tapete, uma mucama arranjava-lhe cuidadosamente a barra do vestido, compunha e ordenava os folhos e desfazia e ajeitava as pregas do cetim.

E a noiva, toda enlevada na cerimônia daquela roupa, sorria sem saber de quê e sentia enrubescerem-se-lhe as faces por uma delicada previsão do seu pudor.

Estava linda assim toda de branco, com o seu longo véu de filó, que lhe envolvia o busto gracioso, deixando todavia perceber o doce relevo da cabeça, engrinaldada de pálidas flores de laranjeira.

Tinha os olhos azuis, muito transparentes, a tez de uma brancura imaculada, os cabelos entre louro e castanho, os dentes adoráveis e a boca um mimo cor-derosa.

Terminado o vestuário, a mucama saiu da alcova para saber se o noivo já tinha chegado. E a velhinha, a sós com a pupila, cruzou as mãos na cintura e ficou a olhar para ela, longamente, com a expressão carinhosa de quem se revê num filho.

Ah! a pobre velha Januária também fora bem bonita e também fora noiva no seu tempo! Aquele corpinho vergado de existência e deformado pela velhice, provocara outrora desejos desenfreados e acendera em mais de um peito paixões tempestuosas.

Triste viagem é a da vida, que termina sempre por um naufrágio; ou da qual ainda ninguém saiu sem levar a mastreação partida, o farol apagado, e as velas estraçalhadas pelos terríveis vendavais que se encontram no caminho. Um por um, vamos deixando esparsos pelas correntes revoltosas da existência todos os dotes com que nos amaram, e todos os bens com que íamos avassalando os corações alheios. E ao cabo da viagem, sem dentes, sem cabelos, sem brilho nos olhos, com a pele encarquilhada e as pernas trôpegas, ficamos a esperar o túmulo, esquecidos e desprezados no mundo, como o casco inútil do navio que naufragou na costa e vai aos poucos despindo as cavernas e mostrando a quilha.

O contraste entre as duas mulheres que estavam na alcova — uma tão fresca e bela, outra tão fraca e decrépita, levava o espírito àquelas considerações.

As duas quedaram-se a cismar por algum tempo; a velha embevecida a olhar para o passado; a moça a sonhar-se nas felicidades futuras. E como dois viajantes que. se encontram no mesmo porto, um a partir, outro a voltar, as duas sorriam; mas o sorriso da que ia era todo de esperanças, enquanto o da outra só transpirava desilusão e cansaço.

— Por que está tão triste, máezinha? perguntou a moça, tomando as mãos da velha.

— Nem eu sei... respondeu esta, procurando disfarçar o constrangimento. Talvez seja nervoso, mas sinto alguma coisa no coração, alguma coisa que me oprime!

— Não se deixe levar por essas cismas!... Lembre-se de que hoje é o dia do meu casamento...

— É por isso mesmo... E acrescentou, mudando de tom: E verdade! E o noivo, já teria chegado?

A mucama entrou na alcova para dizer que ainda não.

Esta demora ia sendo já comentada na sala de jantar pela madrinha de Clorinda e algumas amigas de D. Januária.

— Não fora bonito da parte do noivo fazer-se esperar daquele modo! Eram já quatro horas da tarde e o casamento estava marcado para as cinco!...

Parou uma carruagem à porta, e quase todos correram a ver quem chegava.

— Deve ser ele, considerou a madrinha, armando um sorriso. Mas teve logo de desarmá-lo, vendo entrar o comendador Portela, velho amigo da casa.

O comendador entrou apressado, a pedir mil perdões pela demora.

— Queria vir antes, mas um negócio de alta importância exigira a sua presença.

E, segundo o seu costume, pôs-se logo a falar de si, das suas grandes preocupações comerciais, do dinheiro que tinha naquele momento arriscado em várias transações perigosíssimas, e, afinal, da prosperidade da sua casa, do bom trato que dava aos seus empregados, do projeto de desenvolver certas indústrias e de criar certos estabelecimentos importantes.

— Bons desejos não me faltam! afirmava ele a rir imodestamente.

E, como se achasse ali em um meio relativamente acanhado, empertigava ainda mais a cabeça, remetia para a frente a barriga e com o polegar levantava pretensiosamente a gola condecorada de sua casaca.

— Vai-se fazendo pela vida! vai-se fazendo! repisava ele, sempre com o mesmo riso.

Deram cinco horas, e o noivo nada de aparecer!

— E de mais! exclamou a madrinha, que afinal perdera a paciência e abrira a falar abertamente contra aquela demora grosseira e imperdoável.

(continua...)

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