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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

Filomena Borges, de Aluísio Azevedo, apresenta a história de uma jovem envolvida em relações marcadas por interesses, paixões e conflitos sociais. A narrativa acompanha os desafios enfrentados pela protagonista em meio às expectativas e pressões da sociedade. Com olhar crítico, a obra revela costumes e valores do período, explorando as tensões entre sentimentos, ambição e reputação.

CAPÍTULO I

FLORES DE LARANJEIRA

O Borges não cabia em si de contente no dia de seu consórcio com a filha de D. Clementina.

Estava a perder a cabeça — ia e vinha por toda a casa, radiante, cheio, abraçando os convidados, forçando-os a participarem daquela felicidade que marcava a melhor e a mais extraordinária época de sua vida.

Era homem de meia idade, quarenta a quarenta e cinco anos, robusto, socado, fisionomia franca e extremamente bondoso, movimentos acanhados de quem não convive em alta sociedade, e um perene sorriso de dentes puros e perfeitos.

Usava o bigode rapado e uma barbinha de orelha a orelha, por baixo do queixo, o que o fazia parecer mais feio e mais velho. Nunca saía de suas calças de brim mineiro, do seu invariável paletó de alpaca, dos seus sapatões de bezerro e do seu chapéu do Chile. Um enorme guarda-chuva sempre debaixo do braço.

Todo ele estava a revelar a sua infância no campo, descalço, o corpo à vontade, as madrugadas feitas de pé, ao primeiro sol.

Nascera em Paquetá, onde se criou à larga com leite de jumenta, e onde residiu até à ocasião de perder o pai, um afamado e rico mestre de obras, português, antigo, econômico e ríspido, que, ao morrer, lhe legou uma dúzia de prédios bem edificados, alguns terrenos, que mais tarde valeriam muito, e o inestimável hábito de ganhar a vida.

Borges sucedeu ao pai no trabalho, fez-se construtor como ele, e, em poucos anos, tornou-se um dos proprietários mais ricos da Corte. Todavia, o muito dinheiro, se não conseguiu fazer dele um extravagante, muito menos logrou precipitá-lo no orgulho e na avareza — o coração do bom homem continuou tão franqueado às virtudes, quanto sua bolsa fechada às loucuras e às vaidades.

Além desses dotes, tinha uma saúde de ferro e dispunha de urna força física de tal ordem, que se tornou lendária entre as pessoas que o conheciam de perto.

Citavam anedotas a esse respeito: Um dia, estando a administrar umas obras, escapara dos andaimes um dos pedreiros, e o Borges apanhou-o no ar, como quem apanha um chapéu de palha; outra vez, tratando-se de safar um pobre diabo, que ficara entalado entre uma andorinha e uma parede — o nosso Borges arranjou um ponto de apoio, meteu os ombros contra a andorinha, e esta virou e caiu imediatamente para o lado oposto.

E, como estes, muitos outros fatos, verdadeiros ou não, corriam de boca em boca; a respeito do possante mestre de obras.

Verdade é que bastava observar aquela carne transpirante e sadia, aqueles pulsos rijos e cabeludos, aquele peito largo, aquele pescoço nervoso e duro, para que a gente fizesse logo uma idéia justa do que seria capaz o Borges em matéria de forca muscular.

Contudo, ninguém era menos amigo de questões. Nunca se metia em barulho; às vezes até, coitado, suportava em silêncio certos desaforos: mas também, quando lhe chegasse a mostarda ao nariz, o contendor podia entregar o seu ao boticário, porque o esborrachamento havia de ser memorável.

Devido a essa pujança excepcional, davam-lhe a alcunha significativa de João Touro.

João Touro era geralmente tido e havido pelo mais completo modelo de bondade e de bom senso. Ninguém lhe fosse pedir manifestações brilhantes de talento, concepções artísticas, descobertas científicas; ele, coitado! não era "homem de estudos" e nunca também lhe "puxaram muito pela memória". Aos doze anos, saíra da aula de primeiras letras para se meter logo no trabalho; mas tinha muito "bom pensar" e um tino admirável para os negócios. Seu único vício consistia no rapézinho Paulo Cordeiro — nada de charutos! — nada de bebidas! — e grande aversão às mulheres que não fossem tão puras como ele.

Antes do casamento, ninguém lhe conheceu uma inclinação amorosa, uma fraqueza; e nunca ninguém lhe descobriu outra preocupação que não fosse a do seu trabalho e a do seu "Urso".

Urso vinha a ser um enorme cão de São Bernardo, que o acompanhava, havia muitos anos. Animal bonito, todo negro, e de uma aparência tão feroz, que lhe dava inteiro direito de usar do nome.

Todavia, o mestre de obras fora algumas vezes requestado pelas mulheres. Várias trintonas lhe lançaram a rede, mas ele sempre se desviara — sorrindo... e corando...

Entre essas, distinguia-se D. Chiquinha Perdigão, mulher de firma comercial; negociante, muito rica, com um bonito nome na praça — Viúva Perdigão & Cia.

O Borges, porém, não queria outros negócios com ela, além dos de puro interesse pecuniário, e embalde o demônio da viúva empregava todos os meios para obrigá-lo a desistir de tal resolução.

Uma vez, chegou a tomar-lhe as mãos, confessar que o amava, que só ele a podia fazer feliz; e o bom homem, sem ter uma resposta, pôs-se a suar, a suar, até que fugiu. atônito e espavorido, como se levasse uma fera atrás de si.

(continua...)

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