Por Aluísio Azevedo (1884)
E o fato é que o Coqueiro acabou por concordar com a mulher. “Amélia, desde que se convertesse numa necessidade para a vida de Amâncio, este, com certeza, seria o mais interessado em fazer dela sua esposa; por conseguinte, agora o que convinha era que a rapariga também ajudasse de sua parte, empregando todo o jeito e boa vontade de que pudesse dispor; devia mostrar-se cordata, simples nos seus gostos, bem arranjadinha, amiga do asseio, honesta, digna, enfim, de um marido!”
E dominado por esta idéia, aconselhou logo à irmã que se fizesse meiga com o “noivo”, dócil, boa companheira e fiel principalmente, fiel quanto possível, que todo o futuro dela, bom ou mau, só disso dependia!
Mas a rapariga, com um a pontinha de desânimo, contrapunha-lhe o feio procedimento de Amâncio para com ela naqueles últimos tempos. Apontou as cenas de altercação que mais a humilharam; disse as frases grosseiras que ouvira do amante, as ameaças que recebera, as palavras que lhe escaparam, a ele, na febre das contendas; palavras, onde se enxergavam claramente o fastio e a má vontade!
— Não faças caso! Discreteou o irmão. — Isto não vale nada!...Fecha por enquanto os olhos a todas essas coisas! Não convém o menor espalhafato antes que o tenhas seguro de pés e mãos! Nada de espantar a caça!... Lembra-te, minha rica, de que, no estado em que te achas, só ele te poderá proporcionar uma posição legítima e definida!
Depois desta conferência, o Coqueiro ficou mais tranqüilo. Agora, a sua maior preocupação era o sobrado da Rua do Resende. — Já lá se iam meses, sem que o conseguisse alugar; o diabo do prédio era grande demais para a família e, na disposição em que estavam os quartos, só mesmo podia servir para casa de pensão.
Nesta conjuntura, resolveu alugá-lo a varias pessoas; mas, para isso, tinha de fazer obras e faltava-lhe um homem de confiança, que estivesse disposto a ir para lá e tomar conta de tudo. — Ah! Se não fora a família!...ninguém mais se encarregava disso senão o próprio Coqueiro! E fá-lo-ia até por gosto!
Encontrou, porém, o seu homem num velho conhecido, empregado no correio e que, já em algum tempo, tomara a seu cargo, nas mesmas condições, a casa de um outro amigo. Chamava-se Damião — bom rapaz, ativo e zeloso. Estava talhado para a coisa.
O Damião, mediante a faculdade de não pagar a parte que ocupasse na casa, comprometia-se a cobrar o aluguel dos outros inquilinos e entregá-lo pontualmente ao senhorio; ite, obrigava-se a fiscalizar a conservação do prédio a pregar escritos quando houvesse cômodos desabitados e administraria enfim o serviço da pessoa que se encarregasse de fazer a limpeza dos quartos, de varrer os corredores, encher os jarros e moringues, tomar conta da chavaria e ter olho sobre quem entrasse e que saísse.
Para estes últimos cuidados arranjou-se um homenzinho meio corcunda, português, esperto e rafeiro como um rato um pouco falador, mas muito experimentado naqueles serviços. Coqueiro dar-lhe-ia alguma coisa por mês e um canto da casa para dormir. “Uma pechincha!”
Fechado o negócio, tratou o proprietário de dividir a sala de visitas e a varanda do sobrado em pequenos repartimentos de tabique, forrados de papel nacional. É inútil dizer que neste ponto foi indispensável a intervenção pecuniária de Amâncio, que ficou por conseguinte com direito sobre uma parte dos rendimentos do prédio.
E também não é menos inútil declarar que o provinciano, nem de longe, sentiu jamais o cheiro da tais rendimentos.
* * *
Mas o certo é que as obras se fizeram, e a célebre casa de pensão de Mme. Brizard, outrora tão animada e concorrida, transformou-se num desses melancólicos sobradões de alugar quartos, que se observam a cada canto do Rio de Janeiro e onde, promiscuamente, se aninha toda a sorte de indivíduos, mas de indivíduos que já foram alguma coisa ou de indivíduos que ainda não são nada.
Aí, as mais belas e atrevidas ilusões vivem paredes-meias com o mais denso a absoluto ceticismo. Velhos boêmios, curtidos nos venenos e todos os vícios e no segredo de todas as misérias, encontram-se diariamente, ombro a ombro, com os visionários estudantes de preparatórios.
É nessas praias desamparadas à ventania da sorte que a sociedade costuma arrevessar o destroço dos que naufragaram nas suas sua águas, mas é daí também que ela pesca às vezes novas pérolas para p o seu diadema. Há de tu — homens de todas as nacionalidades, sujeitos devida misteriosa, solteirões libertinos e neutralizados pelo venéreo, artistas completamente desconhecidos que se imaginam vítimas do meio, e supostos talentos que vivem para amaldiçoar a fortuna dos que conseguiram vencer na vida.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.