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#Contos#Literatura Brasileira

O passado, passado

Por Machado de Assis (1866)

Machado de Assis (1839–1908), expoente do Realismo brasileiro, publicou “O pai” originalmente no periódico Jornal das Famílias, no Rio de Janeiro, em 1866. O conto retrata, em tom moral e sentimental, a queda e redenção de uma jovem seduzida, exaltando o amor paterno, o trabalho e a reparação como caminhos de honra.

Acabara o jantar às seis horas e meia. Era dia; a mor parte dos convivas descera à chácara. Um destes, o capitão-tenente Luís Pinto, ficou na sala a conversar com o dono da casa, o comendador Valadares, homem gordo e pacato, para quem a digestão era coisa séria, e tanto ou quanto científica.

— E pretende fazer outra viagem? perguntou o comendador continuando a conversa interrompida pela sobremesa.

— Agora, não. Salvo se embarcar por ordem do governo. Não é provável que precise de outra licença; em todo caso, não iria à Europa, a não ser por moléstia.

— Mas gostou tanto que...

— Que preciso descansar. Estou com quarenta e dois anos, sr. comendador, não é velhice; mas também não é idade de travessuras; e uma segunda viagem era verdadeira travessura.

O comendador não aprovou nem contestou a observação do hóspede; abriu a caixa de rapé. Tomou uma pitada e interrogou o oficial de marinha a respeito de algumas particularidades da viagem. O oficial satisfez-lhe a curiosidade narrando-lhe uma página das suas memórias de turista.

Luís Pinto, que sabemos ser capitão-tenente e contar quarenta e dois anos, era um homem alto, bem-feito, elegante, daquela elegância grave, própria de seus anos. Tinha os olhos negros e rasgados, o olhar inteligente e bom, maneiras distintas e certo ar de superioridade natural. Era isto o físico. O moral não era diferente. Não tinha más qualidades, ou se as tinha eram de pequena monta. Viúvo há dez anos, ficara-lhe do matrimônio uma filha, que mandara educar em um colégio. Essa criança era todos os seus amores na terra.

Algum tempo antes por motivos de moléstia, obtivera licença por um ano e empreendera uma viagem à Europa, de onde viera cerca de quinze dias antes.

A noite caíra de todo; os convivas recolheram-se à casa, onde uns foram jogar, outros conversar ou ouvir tocar. O sarau acabaria para o oficial como outro qualquer se não fora a entrada de uma visita inesperada para todas as pessoas da casa e muito mais para ele. A visita de que se trata era uma senhora. A mulher do comendador apressou-se a recebê la. D. Madalena Soares entrou na sala, com um passo de deusa e com ar tranqüilo e austero que lhe não ficava mal. Das pessoas que a não conheciam houve um notável silêncio de curiosidade. Trajava roupas escuras, de feição com a sua viuvez recente; era formosa, e contava trinta anos de idade.

Como todas as atenções estiveram voltadas para a recém-chegada ninguém reparou na impressão que esta produzira em Luís Pinto. A impressão foi de surpresa e gosto, uma comoção que o fez ficar pregado alguns instantes na cadeira em que estava sentado. Alguns minutos depois ergueu-se e dirigiu-se a D. Madalena Soares.

— Estarei tão velho que já me não conheça? disse ele.

Madalena estremeceu e olhou para ele.

— Ah! exclamou ela.

— Não se viam há muito tempo? perguntou a mulher do comendador.

— Um século, respondeu Madalena.

— Seis anos pelo menos, acrescentou Luís Pinto.

— Talvez mais. Chegou há pouco da Europa, ouvi dizer.

— Há poucos dias. Seu marido?

— Estou viúva.

— Ah!

Interrompeu-se a conversa neste ponto; aproveitamos a interrupção para dizer que Madalena, tendo casado com vinte anos, retirara-se daí a quatro para uma das províncias do Norte, de onde voltara dez meses antes, depois da morte do marido. Luís Pinto ignorava a morte deste.

Poucas palavras disseram mais os dois antigos conhecidos. A conversa tornou-se geral, e a noite passou-se, como se passaram as outras, sem nenhum incidente novo. Madalena, ao despedir-se, declarou ao capitão-tenente que a sua residência era na Rua das Mangueiras.

— Irei cumprimentá-la um dia destes.

— Aturar uma velha.

— Oh!

A exclamação de Luís Pinto foi repetida mentalmente pelos demais circunstantes; e a viúva retirou-se levando a admiração de todos. Houve um concerto de louvores à graça de suas maneiras, à beleza de seus olhos. Um só, entre tantos, ficara calado e pensativo: o oficial de marinha.

Por quê? Vamos sabê-lo.

Luís Pinto saiu da casa do comendador um pouco diferente do que lá entrara. Ia absorto e pensativo. O que ele dizia consigo mesmo era:

— Que é isto? Tantos anos depois! Viúva... estava longe de supô-lo. Viúva e formosa, tão formosa como era naquele tempo.

O monólogo continuou ainda por algumas horas, sobre o mesmo tema; as idéias bailaram-lhe no espírito durante o sono. Na manhã seguinte, a segunda ou terceira pessoa de quem se lembrou foi Madalena.

(continua...)

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