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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

- A cautela? 

- Aposto que a vendeu? 

- Não; devo tê-la em casa. 

- Pois à vista dela... Passar bem. 

Despediu-se o Barbosa, e Seixas continuou seu caminho, mas distraído e perplexo. A notícia dada pelo negociante sugeria-lhe várias e encontradas reflexões. 

Aquele privilégio era um póstumo da antiga existência, que findara-se com o seu casamento. Começara a desenvolver-se a febre das empresas; um espertalhão teve a idéia da exploração de umas minas de cobre em São Paulo; e para obter a concessão lembrou-se de associar à especulação um negociante que fornecesse fundos, e um empregado que abrisse os canais administrativos. 

Seixas achava-se em relações com o Fróis, e veio a ser o empregado escolhido. A seu pdeido o requerimento subiu ao ministro, como um balão, cheio de gás de pomposas informações. O despacho não se demorou. O oficil de gabinete o alcançara fumando um charuto com seu ministro, e dando-lhe os mais amplos esclarecimentos, não sobre a projetada empresa, mas sobre uma bela mulher, por quem a excelência se apaixonara. 

Concedido o privilégio, tratou o Fróis de negociá-lo, muito esperançoso de obter pelo menos uns trezentos mil cruzeiros. Mas essas esperanças mofaram, e os três associados chegaram a acreditar que suas minas de cobre em papel não valiam menos de que o tacho velho, pelo qual os carcamanos sempre dão uma meia pataca. 

Seixas não pensou mais nisso, e desde então ficou na ignorância das tentativas do 

Fróis e de seus cálculos de probabilidadem até receber nesse momento a notícia da venda do privilégio, que lhe trazia de repente e inesperadamente um lucro de quinze mil cruzeiros. 

O primeiro e o mais vivo movimento que em Seixas produziu a notícia foi de alegria pelo ganho dessa quantia que tinha para ele um preço incalculável. Assaltou-o porém, certo desgosto, pela origem daquele dinheiro. A intervenção de um empregado público nestes negócios, se outrora lhe parecera lícita, já não era apreciada por ele com a mesma tolerância. 

Quaisquer porém que fossem seus escrúpulos, ele carecia desse dinheiro, e julgava-se com direito de empregá-lo em serviço de tamanho alcance, como era aquele a que o destinava, salva mais tarde a restituição da quantia por um meio indireto, para descargo desses escrúpulos de consciência. 

Tomada esta resolução, sobreveio-lhe um receio acerca da cautela passada pelo negociante como capitalista da empresa. Não recordava-se de ter visto o papel desde muito tempo, talvez três anos. Onde andaria? Na queima que fizera em vésperas de casar-se, teria sido poupada essa inutilidade? 

Grande importância devia Seixas ligar a esse negócio, pois estando já a trabalhar na repartição, interrompeu sua rigosora assiduidade. Meteu-se em um tílburi, e correu à casa, esperando achar-se de volta em uma hora. 

 

VII 

 

Deviam ser onze horas, quando o tílburi chegou a Laranjeiras. 

Seixas embora não pensasse em ocultar-se, desejava para não despertar a curiosidade, que em casa se não apercebessem de sua volta. Mandou parar o tílburi a alguma distância, e subiu sem rumor a escada particular que levava a seus aposentos. 

A porta do gabinete estava fechada interiormente, e ele esquecera essa manhã de levar a chave. Foi obrigado portanto a dar a volta pela saleta. Àquela hora Aurélia e D. 

Firmina costumavam estar no interior; passaria sem que o vissem. 

Estranhou achar a porta da saleta cerrada, embora não fechada com o trinco; supôs que não estando presa ao rodapé pelo ferrolho, o vento a tivesse encostado. 

Empurrou-a devagar e entrou, para estacar na soleira pálido e estupefato. 

No sofá colocado ao longo da parede, que lhe ficava à esquerda, viu Aurélia sentada, e conversando de um modo animado e instante com Eduardo Abreu que ocupava a cadeira próxima, e tinha a cabeça baixa. 

Erguendo os olhos sem animar-se a fitá-los na moça, deu o mancebo com o vulto transtornado de Seixas em pé na porta, a encará-lo; e levantou-se por um impulso irresistível. 

Foi então que Aurélia avistou o marido, cuja presença imprevista e semblante demudado a perturbaram, mas rápido, quase imperceptivelmente. Com a segurança que tinha de si, prontamente recobrou-se. 

- Pode entrar, Fernando! disse ela a sorrir. 

- Não quero perturbá-los, respondeu Seixas desprendendo a custo a voz dos lábios secos. 

- O negócio é urgente, tornou ela, mas pode bem suportar a demora de alguns minutos. Sente-se, sr. Abreu! 

(continua...)

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