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#Contos#Literatura Brasileira

Longe dos olhos

Por Machado de Assis (1876)

Machado de Assis (1839–1908) é um dos maiores nomes da literatura brasileira. No conto “Longe dos olhos...”, publicado originalmente no Jornal das Famílias, em 1876, o autor explora os conflitos entre amor, convenções sociais e interesses familiares. Com ironia sutil e análise psicológica fina, o texto revela como sentimentos reprimidos e escolhas impostas podem conduzir a desfechos inesperados, convidando o leitor à reflexão sobre desejo e moral social.


Na verdade, era pena que uma moça tão prendada de qualidades morais e físicas, como a filha do desembargador, nenhum sentimento inspirasse ao bacharel Aguiar. Mas não a lastime a leitora, porque o bacharel Aguiar nada dizia ao coração de Serafina, apesar dos seus talentos, da rara elegância das suas maneiras, de todos quantos dotes costumam adornar um herói de romance. 

E não é romance isto, senão história verídica e real, pelo que, vai esta narrativa com as exíguas proporções de uma notícia, sem enfeites de estilo nem recheio de reflexões. O caso conto como o caso foi. 

Sabido que os dois se não amavam nem pendiam para lá, convém saber mais que o gosto, o plano e não sei se também o interesse dos pais é que eles se amassem e casassem. Os pais punham uma coisa, e Deus dispunha outra. O comendador Aguiar, pai do bacharel, insistia ainda mais no casamento, pelo desejo que tinha de o meter na política, o que lhe parecia fácil desde que o filho se tornasse genro do desembargador, membro ativíssimo de um dos partidos e por agora deputado à Assembléia Geral. O desembargador pela sua parte achava que lhe não fazia mal nenhum a filha participar da pingue herança que devia receber o filho do comendador, por morte deste. Pena era que os dois jovens, esperanças de seus pais, derrubassem todos estes planos olhando um para o outro com a máxima indiferença. As famílias visitavam-se freqüentemente, as reuniões e as festas sucediam-se, mas nem Aguiar nem Serafina pareciam dar um passo para o outro. Tão grave caso exigia pronto remédio, e foi o comendador quem tomou a resolução de lho dar sondando o espírito do bacharel. — João, disse o velho pai certa noite de domingo, depois do chá, achando-se com o filho a sós no gabinete: Acaso nunca pensaste em ser homem político? 

— Oh! nunca! respondeu o bacharel espantado com a pergunta. Por que razão pensaria eu na política? 

— Pela mesma razão porque outros pensam... 

— Mas eu não tenho vocação. 

— A vocação faz-se. 

João sorriu. 

O pai continuou. 

— Não te faço esta pergunta à toa. Já houve quem me perguntasse a mesma coisa a teu respeito, eu não tive que responder porque a falar verdade as razões que me davam eram de peso. 

— Quais eram? 

— Diziam-me que tu andavas em colóquios e conferências com o desembargador. 

— Eu? Mas naturalmente converso com ele; é pessoa da nossa amizade. 

— Foi o que eu disse. A pessoa pareceu convencer-se da razão que eu lhe dava, e então imaginou outra coisa... 

O bacharel arregalou os olhos à espera de ouvir outra coisa, enquanto o comendador acendia um charuto. 

— Imaginou então, continuou o comendador puxando uma fumaça, que tu andavas... quero dizer... que pretendias... em suma, um namoro!

— Um namoro! 

— É verdade. 

— Com o desembargador? 

— Velhaco! com a filha. 

João Aguiar deu uma gargalhada. O pai pareceu rir também, mas reparando bem não era um riso, era uma careta. 

Depois de um silêncio: 

— Mas não vejo que houvesse alguma coisa de admirar, disse o comendador; tem-se visto namorar muito rapaz e muita moça. Tu estás na idade do casamento, ela também; nossas famílias visitam-se com freqüência; vocês falam-se com intimidade. Que admira que um estranho supusesse alguma coisa? 

— Tem razão; mas não é verdade. 

— Pois tanto melhor... ou tanto pior. 

— Pior? 

— Maganão! disse o velho pai afetando um ar galhofeiro, parece-te que a moça é algum peixe podre? Pela minha parte, entre as moças com que temos relações de família, nenhuma acho que se lhe compare. 

— Oh! 

— Oh! quê! 

— Protesto. 

— Protestas? Achas então que ela... 

— Acho que é muito formosa e prendada, mas não acho que seja a mais formosa e prendada de todas as que conhecemos... 

— Mostra-me alguma... 

— Ora, há tantas! 

— Mostra-me uma. 

— A Cecília por exemplo, a Cecília Rodrigues, para o meu gosto é muito mais bonita que a filha do desembargador. 

— Não digas isso; uma lambisgóia! 

— Meu pai! disse João Aguiar com um tom de ressentimento que fez pasmar o comendador. 

— Que é? perguntou este. 

João Aguiar não respondeu. O comendador arrugou a testa e interrogou o rosto mudo do filho. Não leu, mas adivinhou alguma coisa desastrosa; — desastrosa, entenda-se, para os seus cálculos cônjugo-políticos ou político-conjugais, como melhor nome haja. — Dar-se-á caso que... começou a dizer o comendador. 

— Que eu a namore? interrompeu galhofeiramente o filho. 

(continua...)

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