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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

Para esse projeto de casamento é que o comendador se tornava verdadeiramente perigoso, porque Portela, na obrigação que assinou, se comprometia, sob palavra de honra, a tomar conta de Teresa e a casar-se com ela, logo que o marido falecesse.

Ora, incontestavelmente, havia em tudo isto uma grande dose de tolice. Não se poderia obrigar um homem a casar, assim sem mais nem mais, só porque, em certa época, declarou por escrito que o faria. Mas o fato é que a sua assinatura lá estava, naturalmente reconhecida já pelo tabelião, e, se o maldito papel aparecesse pela morte do comendador, ligado ao importante testamento deste, podia, pelo menos, cobri-lo de ridículo, e dificultar-lhe a carreira, chamando sobre ele as suspeitas e a desconfiança de pessoas, para as quais lhe convinha passar por homem de vida imaculada.

— Maldito fosse o momento em que se lembrou ele de requestar a mulher do comendador! Antes tivesse quebrado um perna na ocasião em que se aproximou dela pela primeira vez!

Em tais circunstâncias, visitava uma ocasião D. Januária, quando um rapaz magrinho, feio, de vinte e tantos anos, se aproximou dele tratando-o pelo nome.

Portela recordava-se de ter visto já aquela cara, mas não conseguia determinar onde e quando.

— Não se lembra do João Rosa?... perguntou-lhe o rapaz. Aquele que quando o senhor estava em casa do comendador, só chamava o "João Cabeça"?!...

E riu.

— Ah! exclamou Portela. É isso mesmo! Ora senhores! como você mudou! está um homem. Barbado!...

E depois de medir por algum tempo a pequena estatura de João Rosa, perguntou-lhe com amigável interesse:

— Então, que se faz agora?...

— Continuo lá! disse o outro, armando uma careta.

— Ainda está lá?... insistiu Portela, admirado, mas possuído já da idéia de aplicar o João Rosa aos seus projetos.

— Ainda, resmungou o outro.

— Interessado na casa?...

— Qual. Já perdi as esperanças disso. O Figueiredo não me tem querido proteger. Um moço, que entrou muito depois de eu lá estar, faz parte há um ano da sociedade e eu ainda continuo como empregado...

— Você casou-se?...

— Não. Estou ainda solteiro.

— Ah! quem sabe se você tem as suas pretensões cá por casa de D.

Januária!...

— Não. Dou-me com ela há muito tempo, mas não passa disso.

— Pois, seu João Rosa, eu vou estabelecer-me aqui no Rio com uma casa de vinhos. Tome o cartão. Se você quiser, apareça por lá, talvez tenhamos o que conversar. Olhe, amanhã à noite, você está ocupado?

— Não.

— Nesse caso vá amanhã... — Pois bem.

No dia seguinte os dois encontraram-se de novo. Falaram muito sobre o passado. João Rosa fez referências aos escândalos de Teresa. O Portela, sacudiu os ombros com desdém.

— Não! replicou o outro, o senhor andava nesse tempo muito mordido por

ela...

— Tolices!

— Coitada! Está feia, magra ao último ponto, descabelada, meio idiota...

— Sim?... disse Portela, fingindo ignorar essas coisas.

— Se o senhor a visse não reconheceria!...

— Coitada. Era muito doida aquela rapariga!...

— Era da pele do diabo, acrescentou o João Rosa, com o ar de quem tem opinião segura sobre o fato.

Desde então principiaram a encontrar-se com mais freqüência. João Rosa passeava alguns domingos com o Portela e patenteava-lhe, nessas ocasiões, uma como submissão de dependência e amizade. Tinha muito em conta o que lhe dizia o amigo e seguia à risca os conselhos que dele recebia.

João Rosa deu a Portela notícias completas a respeito da casa do comendador; falou do casamento de Olímpia com o Gonçalves; disse a vida desordenada que os dois levaram durante quatro anos; contou os pormenores da separação dos cônjuges; circunstanciou as mudanças de gênio que fizera Olímpia depois do rompimento, os desgostos do velho, a proposta de reconciliação apresentada por Gonçalves, a recusa da mulher, e enfim as tristezas e o recolhimento em que esta por último vivia.

— E o Jacó?... que fim levou? quis saber o Portela.

— Lá está! no mesmo! Não faz a menor mudança!

— O Jacó!... reconsiderou aquele, com um ar cheio de recordações. E disse depois: Deve estar bem velho!

— Mas forte... Parece muito mais moço que o comendador!

— E este? Sempre o mesmo, hem?

— Sempre. Eu vou lá duas vezes por semana fazer-lhe a escrita. Pouca coisa!

— Ah! você é quem faz agora a escrita do comendador?!...

— Sim, por quê? — Por nada...

E Portela ficou a pensar.

Na primeira ocasião em que esteve de novo com o João Rosa, abriu-se francamente com este a respeito do famoso documento que estava em poder do comendador.

— Você sabe o que são estas coisas!... disse em confidência muito amigável. Eu estou no comércio... Aquele velho é muito capaz de cortar-me a carreira... ele é rancoroso!...

(continua...)

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