Por Aluísio Azevedo (1884)
‘E que então não havia a menor folga; não se podia arredar pé do serviço! E todo o dia reclamações! E todo o dia - o banho morno de fulano! O chocolate de beltrano! Este queria ir sem pagar a conta ; o outro se entendia no direito de dizer desaforos porque pagava! Apre! Assim também não era viver! Seu corpo há muito tempo pedia aquele repouso! Se continuasse a labutar como dantes, — credo! — estourava por aí um dia, esfalfada!
E, com medo de perder a “pepineira” cercava Amâncio de adulações. Tinha-o na conta de um patrão, de uma amo; com direito a todos os carinhos e desvelos. Assim, jamais o contrariava, nunca lhe opunha censuras. — Aquilo que o rapaz fizesse estava sempre muito bem feito!
No seu entendimento mercantil de locandeira, Amâncio não aparecia “como isto ou com aquilo” representava pura e simplesmente “um bom arranjo”. Ali não havia favores, havia negócio, ninguém ficava a dever obrigações. – Ele despendia tanto em dinheiro, mas recebia em carícias e bom trato um valor correspondente.— Estavam quites!
Apenas, como o negócio era rendoso e agradava a boa mulher, esta fazia o que estava ao seu alcance por agüentá-lo o maior tempo possível, como de resto, qualquer um procederia com referência a um bom emprego. Quanto à posição de Amélia, Mme. Brizard a dava por natural e coerente. Não via na cunhada uma vítima ou coisa que o valha, mas tão-somente um membro solidário naquela empresa, enviando os esforços de sua competência para o comum interesse da associação.
Isto, já de deixa ver, era o que pensava a francesa, mas não o que ela expunha; de sorte que o marido ficou muito espantado, quando, falando sobre a necessidade de tratar do casamento de Amélia com o hóspede, lhe ouviu dizer:
— Homem...para falar com franqueza...acho que o melhor é deixar seguir o barco como vai!...
— Como vai!...
E o Coqueiro engoliu a frase indignado:
— Ora essa! Tu, com certeza, não estás falando sério!
— Às vezes, quem tudo quer, tudo perde!...sentenciou a mulher.
— Mas que diabo quero eu?! Retrucou aquele. — Eu não quero senão o que é de justiça! Quero apenas que eles se casem!
A outra, para quem o casamento de Amélia não trazia vantagens imediatas e podia, aliás, comprometer o estado feliz das coisas, saltou logo com uma bateria de opiniões contrárias:” Coqueiro faria muito mal em precipitar os acontecimentos! Naquela situação o mais razoável e o mais prudente era sem dúvida esperar! A natureza não dava saltos! As coisas haviam de atingir a um bom resultado, sem ser preciso lançar mão de meios violentos!...
— Mas é que ele nos pode escapar!...argumentou Coqueiro.
— Não creias! Retorquiu a velha com um gesto arraigado na experiência.
— Mas filha, vem cá! - Não vês como o Amâncio está ultimamente? Já não é o mesmo! Amelinha já não tem sobre ele domínio de espécie alguma! O maroto já não pensa nela, é todo da Hortênsia!
— E que tem isso! O que tem que ele farisque a Hortênsia?! Está no seu direito! — é moço, tem dinheiro!
— Ora essa!...exclamou de novo o Coqueiro, ainda mais indignado que da outra vez. — O que em isso?!...
E cruzando os braços: — É muito boa!...
Mas tornou logo :
— Tem, que ele deve uma reparação à minha irmã! Tem, que ele, apaixonado pela Hortênsia, pode virar as costas à pobre menina e abandoná-la no estado em que a pôs! — Desonrada, perdida! “Que tem isso?! “Ora faça-me o favor!
— Tolo! Disse a francesa com um riso cheio de filosofia, cuja tranqüilidade contrastava com as irritações do marido. — Tolo! Bem se vê que não conheces os homens!...pois acreditas lá que o Amâncio despreze a rapariga por ter agora um capricho pela outra?...Não sabes que a únicas mulher capaz de prender o homem é aquela com quem ele convive dia e noite; aquela com quem ele se habituou; aquela que já lhe conhece as fraquezas, os ridículos, as pequeninas misérias da intimidade?! Abandoná-la!...Digo-te mais: — Hortênsia é até necessária! Deixa que ele a persiga, que ele a conquiste à força de mil sacrifícios e de mil sofrimentos; deixa que ele a possua, que a tenha inteira na mão! Deixa, porque ele há de voltar, e voltar farto!...Meu amigo, paixão é fogo de palha! — não dura! Nas ocasiões de fadiga e abatimento é com o amorzinho de casa que a gente se acha! E fica então sabendo que, para um homem amar deveras uma mulher, é preciso que ele se tenha já desiludido com muitas outras! Tristes de nós, se assim, não fosse! Há maridos que, ao voltar de suas correrias, apaixonam-se pelas mesmas esposas, a quem dantes só chegavam por obrigação!
E a francesa velha, saboreando o silêncio que cavara no adversário, concluiu depois de tomar fôlego:
—O rapaz quer, por graça, dar cabeçadas?...pois deixe-as dar! Que ele, quando partir a cabeça, há de fazer justiça à tua irmã. Este fato da mulher do Campos, crê tu, foi uma providência, foi um atalho que se abriu nos teus planos!
* * *
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.