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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

Sabia que a atenção do marido nunca a deixava de todo, embora a solicitassem assuntos da maior importância, ou pessoas de consideração. Na sociedade, como em família, ela descobria através dos disfarces o olhar que a buscava, muitas vezes no reflexo do espelho, ou por entre uma fresta de cortina; e quando não era o olhar, o ouvido preso à sua voz. 

As flores que Seixas regava, eram hortências, suas prediletas, dela Aurélia. Quando aproximava-se do viveiro, os canários mimosos da senhora, mereciam todas as suas carícias. No jardim, como em casa, os sítios favoritos, fora ela quem os escolhera. Aurélia não gostava de Byron, embora o admirasse. Seu poeta querido era 

Shakespeare, em quem achava não o simples cantor, mas o sublime escultor da paixão. 

Muitas vezes aconteceu-lhe pensar que ela podia ser uma heroína dessa grande epopéia da mulher, escrita pelo imortal poeta. No dia do casamento, sua imaginaçào exaltada chegou a sonhar uma morte semelhante à de Desdêmona. 

Seixas renegara o poeta de seus antigos devaneios, para afeiçoar-se ao trágico inglês, que ele outrora achava monstruoso e ridículo. Lia os mesmo livros que el; os pensamentos de ambos encontravam-se nas páginas que um já tinha percorrido, e confundiam-se. 

Aplaudiam reciprocamente ou censuravam. 

Poucas mulheres possuiam como Aurélia, esposo tão preso à sua vida. Seixas não estava ausente senão o tempo do emprego; o resto do dia passava-o em sua companhia, na intimidade doméstica, ou nas visitas e reuniões. 

Desde os primeiros dias, no seu propósito de passiva obediência, o marido se impusera a tarefa de lhe dar uma conta minuciosa das horas passadas fora de casa, dos acidentes da viagem, dos encontros que fizera, e até dos trabalhos da secretaria. 

Aquilo que não passava de uma ironia do marido, veio a tornar-se um costume; e ela que a princípio incomodara-se com a fingida subserviência, não pode mais tarde dispensar essa confidência, que lhe restituía a pequena fração da existência de Seixas, vivida longe de si. 

Mas não era unicamente possessão dela pelo amor, que se operara em Seixas; era também a assimilação do caráter. 

Como todas as almas que se regeneram, a de Seixas exercia sobre si mesma uma disciplina rigorosa. Tinha severidades que em outras circunstâncias haviam de parecer ridículas. A desculpa, o inofensivo pretexto tomavam para ele proporções de mentira. A amabilidade constante e geral era a hipocrisia; os indiferentes não tinham direito senão à polidez, e não podiam usurpar os privilégios da amizade. 

Algumas vezes, Aurélia de parte o ouvira conversando acerca de outros reprovar essa existência de negaças e galanteios, em que ele consumira os primeiros anos da mocidade. Em qualquer ocasião revelara-se o seu modo grave e austero de considerar agora a sociedade, e de resolver as questões práticas da vida. 

Como uma cera branda, o homem de coração e de honra se formara aos toques da mão de Aurélia. Se o artista que cinzela o mármore enche-se de entusiasmos ao ver a sua concepção, que surge-lhe do buril, imagine-se quais seriam os júbilos da moá, sentindo plasmar-se de sua alma, a estátua de seu ideal, a encarnação de seu amor. 

Assim, apesar da esquivança que sucedera ao baile, o drama dessa paixão encaminhava-se a um desenlace feliz, quando um incidente veio complicá-lo, perturbando seu desenvolvimento e precipitando o desfecho. 

Já tinha se desvanecido a impressão da cena violenta, voltava aos poucos a calma intimidade. 

Fernando saíra para a repartição. Ao chegar à cidade avistou-se com um negociante seu antigo conhecido. 

- Estimo muito encontrá-lo. Tenho uma boa notícia que lhe dar. Aquele privilégio afinal desencantou-se. 

- Qual privilégio? Perguntou Seixas surpreso. 

- Ora! Já esqueceu? Não faz mais caso dessas ninharias? O nosso privilégio de minas de cobre... 

- Ah! Já sei! Atalhou o moço um tanto perturbado. 

- Pois o Fróis sempre conseguiu vendê-lo em Londres. Deram uma bagatela; cinqüenta mil cruzeiros. Em todo o caso é melhor do que nada, porque o tal cobre das minas, meu caro, eu já não esperava nem um tacho. Veio-me a notícia pelo último paquete; fazia tenção de procurá-lo todos os dias, e faltou-me o tempo. Felizmente encontrei-o. 

Desculpe. 

- Não há de que, sr. Barbosa. 

- Deduzidas as despesas que se fizeram, toca-nos a cada um coisa de quinze mil cruzeiros e pouco. Quando quiser receber sua parte, é mandar-me a cautela que lhe passei.

(continua...)

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