Por Aluísio Azevedo (1882)
O coração daquele homem era com efeito um cano de esgoto, por onde lhe desfilavam todas as imundícies da alma. Não se teria demorado ele um instante ao lado de Teresa, se não precisasse dela para alguma coisa que diretamente o interessava. O triste espetáculo daquela ruína revoltava o seu egoísmo; Portela sentia-se impaciente por conseguir o que desejava da mulher do comendador e pôrse a caminho para longe, para bem longe, onde não chegasse o inquietante cheiro daquela desgraça e daquela miséria. Sentia-se tão apressado que não esperou pelo fim das divagações de Teresa; interrompeu-a, declarando francamente que ia ali levado pela necessidade de alcançar das mãos do comendador um papel assinado por ele.
— Que papel? perguntou a mísera.
— Pois não te lembras que deixei um documento em poder de teu marido, declarando os obséquios que recebi dele, as relações que tive contigo, aquele projeto de envenená-lo e ainda outras coisas de que já não me recordo?!...
Essas tais coisas de que ele já se não recordava, não lhe fazia conta declarar quais fossem, porque implicava diretamente com o futuro de Teresa.
— Mas afinal, perguntou ela, que desejas de mim?...
— Desejo em primeiro lugar saber se esse papel não está em teu poder, respondeu ele.
— Pois se eu até ignorava da existência de semelhante coisa...
— Bem, pois então o que eu desejo é que o obtenhas de teu marido, que o subtraias a todo o transe do lugar em que está. Preciso apoderar-me desse documento! Não poderei dar um passo aqui no Rio de Janeiro, enquanto ele existir nas mãos do comendador...
— Mas eu não vou à casa do Ferreira. Além disso...
— Bom. Nesse caso, adeus.
— Já te queres ir?... perguntou Teresa.
— Desculpa; tenho alguma pressa. Eu te aparecerei mais vezes.
— Espera ao menos que venha tia Agueda para fazer café...
— Não! não! Tenho de estar cedo na cidade. Adeus!
— Visto isso, adeus. Olha, espera! vou dar-te uma flor; leva-a para te lembrares de mim...
E foi buscar ao oratório uma rosa, que murchava aos pés de um santo.
— Está benta! disse ela.
Portela sentia-se cada vez mais impaciente. Na ocasião de sair, já no corredor, voltou-se e deu com Teresa a fazer-lhe momices por detrás dele. Só então desconfiou que a desgraçada sofria de qualquer desarranjo cerebral.
Pôs-se a caminho com vontade. Iria dali à casa de um conhecido; talvez lhe desse este informações a respeito do comendador e lhe fizesse encontrar alguém capaz de subtrair os documentos de que ele tanto precisava.
Portela, nas suas viagens, arranjara algumas economias e vinha estabelecer-se na Corte com um sócio bastante endinheirado. Tinha em vista um casamento; o futuro sorria-lhe como nunca auspicioso: fora com Leão Vermelho mais feliz do que contava. O compadre facilitou-lhe os meios pecuniários para especular em compras de vinho no Porto, e recolheu-se, sequioso de descanso, à sua província natal, onde tencionava acabar a existência.
Com este, pouco mais temos que ver. Quanto ao Portela, podemos afiançar que andou com lisura nas suas especulações e que se despediu limpamente do protetor, retirando-se com um forte carregamento de vinhos para o Brasil, em cuja capital pretendia agora estabelecer uma casa especial daquele gênero.
O bom desempenho de suas transações granjeara-lhe crédito na península, de sorte que, com muita facilidade e pouco capital, poderia sortir o seu estabelecimento, sem encontrar competidor no Rio de Janeiro.
Por esse tempo contava ele uns trinta e tantos anos, e sentia-se vigorosamente disposto a fazer carreira. Estava moço e fortalecido de esperanças. Com os elementos materiais de que dispunha, podia ir muito longe; sonhava já com a comenda. O diabo era aquele documento em poder do marido de Teresa!... Se o demônio do velho saísse dos seus cuidados e mandasse publicá-lo no Jornal do Comércio, Portela estaria perdido. O comendador, apesar de retirado da vida ativa, gozava de muito crédito na praça e era sumamente considerado pelos negociantes de mais peso; qualquer acusação que viesse dele teria, fatalmente, um curso vertiginoso entre os seus colegas.
Convinha, por conseguinte, que Portela, antes de assentar os alicerces das suas especulações no Rio de Janeiro, tratasse prontamente de desarmar o inimigo, sob pena de mais tarde ser precipitado no chão no melhor do vôo. Mas de que modo havia ele de alcançar semelhante coisa?... A questão era tão delicada que, sem dúvida, daria volta ao espírito mais audacioso e mais fino. Principiou a sondar, de longe, o comendador.
— O homem, pensou ele, talvez já se não lembrasse do passado, nem dos seus planos de vingança. Mas qual! Portela conhecia perfeitamente o gênio rancoroso do seu antigo patrão, para se não iludir por esse lado. O único expediente a tomar era apoderar-se do tal documento, fosse como fosse, custasse o que custasse!
Em todo caso, nada disso o incomodaria tanto, se Portela não tivesse em vista mudar de estado, casando-se com uma rapariga de bons recursos, que encontrou em casa de D. Januária, quando aí foi visitar a afilhada, pela primeira vez, depois da sua volta.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.