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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

E gritou para fora:

— Ó Sabino! Olha essas botas, moleque!

Amélia, ao lado, metia-lhe os botões numa camisa engomada.

E depois , a escovar-lhe o paletó no corpo, quando o estudante já estava pronto:

— E a carta, de quem era?...

— Do Campos, respondeu ele, sem hesitar.

E saiu. Amélia acompanhou-o pelas costas com um riso de asco.

* * *

E logo que se viu só, tirou do seio o seu furto e releu-o mais uma vez.

— Que devia fazer daquela carta?...como se devia servir daquela arma?...Denunciar o infame? — atirar-lhe à cara a prova de sua vilania e nunca mais o procurar para nada, ou devia simplesmente fingir que não sabia de coisa alguma, e, em segredo, tomar a vingança que lhe parecesse melhor?

Despedi-lo por uma vez — não convinha! Isso nem por sonhos! Ficar, porém, eternamente resignada e submissa, também seria asneira!

Seu amor-próprio estava mordido e sangrava. O procedimento desleal de Amâncio assumia no tribunal egoístico de seu espírito ignorante e mal-educado as proporções jurídicas de um crime, de um monstruoso abuso de confiança, um estelionato. Não podia conformar com a idéia daquela tremenda injúria, lançada contra os seus direitos de mulher nova e bonita.

— Canalha! Murmurava consigo, a esmoer o fato. — Bem me dizia o

coração!...Agora, o que precisavas que te fizesse, sei eu! Ah! Mas descansa que hás de pagar com língua de palmo! Para não seres cão, meu safardana!

Foi-se porém, todo o dia, sem que Amélia deliberasse o destino que deveria dar à carta. Só na manhã seguinte apareceu-lhe uma resolução. Foi ter com o mano, chamou-o de parte e entregou-lha.

— Vê isto, disse.

Coqueiro abismou-se logo desde as primeiras palavras: “Minha adorada e incompreensível Hortênsia”.

— Que vem a ser isto?...Perguntou ele intrigado. — Lê! Respondeu ela.

E, enquanto o irmão devorava o que vinha escrito:

— Vê tu só a hipocrisia daquele sonso!...

— Ele já sabe que esta carta está em teu poder? Interrogou Coqueiro depois da leitura.

— Qual! Nem pode descobrir!

— Ainda não deu pela falta?

— Já. Zangou-se um bocado, arrepelou-se, mas afinal creio que se convenceu de que a tinha perdido.

— E agora o que tencionas fazer disto?

— Não sei...Que achas tu?...

— Acho que por ora não convém fazer nada!

— Calar-me?!

— Por ora, decerto! Esta carta pode vir a servir-te de muito , mas é preciso que, em primeiro lugar, apareça a ocasião. Se quiseres, deixa-a comigo, que eu sei o destino que lhe devo dar.

E guardou-a no bolso, depois de um gesto aprobativo da irmã:

— Ele a teria escrito de novo e feito chegar às mãos de Hortênsia, sabes?...

— Não sei, mas posso ver.

— Bem. Em todo o caso, não te dês por achada! Nem uma palavra a este respeito! Precisamos dar tempo ao tempo...podes, todavia, ficar desde já tranqüila, que o que tem de ser — traz força! A justiça não se fez para os cães!...

— É por isso mesmo que eu não confio muito na tal justiça! Observou a rapariga.

CAPÍTULO XVIII

Mas, no fundo, João Coqueiro principiava a “cismar com o negócio”. Segundo os seus cálculos, a irmã, por aquela época, já deveria estar pejada: circunstância esta que daria oportunidade a um escândalo, de antemão, preparado, forçando Amâncio a “reparar sua falta”.

E, no entanto, Amelinha “nada de aviar”! O bom irmão sentia até como um peso na consciência por haver contribuído diretamente para aquela situação.

— Era sempre assim!...pensava ele enraivecido. — Se não precisássemos de um filho, é que os pestinhas haviam de aparecer aí de enfiada!

E o receio amargo de ter sacrificado a menina, talvez sem os belos resultados que esperava para si e para ela, invadia-lhe o coração e punha-lhe momentos maus na vida.

Mme. Brizard já não pensava do mesmo modo. Aquela existência pronta, inteiramente desocupada, lhe viera muito a propósito. “Ela, coitada de si! Bem precisava de um bocado de descanso!”

As coisas, de fato, iam-lhe agora admiravelmente: Tinha a sua mesa boa e farta, um bom quarto de dormir, a mucama para lavar-lhe e engomar-lhe a roupa, um camarote no teatro de quando em quando, aos domingos um passeio à cidade, e lá uma vez por outra uma soirée em casa de alguma amiga. “Ah! Não se podia comparar a existência que levava agora com a peste de vida que curtira na Rua do

Resende!”

(continua...)

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