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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

Fechada a porta por dentro, a moça em um instante operou a sua metamorfose. O traje de baile ficou sobre o tapete, defronte do espelho, como as asas da borboleta que finou-se no seio da flor; surgiu dali, daquele desmoronamento de sedas, a casta menina envolta em seu alvo roupão de cambraia. 

Sentou-se no sofá onde estivera poucas horas antes com Seixas, e ficou pensativa. 

Até que levantou-se para ir correr a cortina ao quadro e acender a arandela próxima. 

Esteve contemplando o retrato e falou-lhe, como se estivesse diante de si o homem, de que via a imagem. 

- Tu me amas!... exclamou cheia de júbilo. Negues embora, eu o conheço; eu o vejo em ti, e sinto-o em mim! Um homem de fina educação, como és, só insulta a mulher quando a ama e com paixão! Tu me insultaste, porque meu amor era mais forte que tu, porque aniquilava a tua natureza, e fez do cavalheiro que és, um déspota feroz! Não te desculpes, não! Não foste tu, foi o ciúme, que é um sentimento grosseiro e brutal. Eu bem o conheço!... Tu me amas!...  Ainda podemos ser felizes! Oh! Então havemos de viver o dobro, para descontar esses dias que desvivemos! 

A gentil senhora apoiou-se à moldura do quadro, e outra vez ficou pensativa. 

- E por que não podemos ser felizes desde este momento? Ele está ali, pensando em mim; talvez em espera! Basta-me abrir aquela porta. Virá suplicar-me seu perdão, eu o receberei em meus braços; e estaremos para sempre unidos! 

Um sorriso divino iluminou a formosa mulher. Ela desceu do estrado e atravessou a câmara de dormir, com o passo trêmulo, mas afouto, e as faces a arderem. 

Chegou à porta; afastou o reposteiro azul; aplicou o ouvido; sorriu; murmurou baixinho o nome do marido, recordou as notas apaixonadas com que a Stolz cantava a ária da Favorita: Oh! Mio Fernando! 

Afinal procurou a chave. Não estava na fechadura. Ela própria a havia tirado, e guardara na sua escrivaninha de araribá rosa. Voltou impaciente para procurá-la. Quando sua mão tocou o aço, a impressão fria do metal produziu-lhe um arrepio. Rejeitou a chave, e fechou a gaveta. 

- Não! É cedo! É preciso que ele me ame bastante para vencer-me a mim, e não só para se deixar vencer. Eu posso, não o duvido mais, eu posso, no momento em que me aprouver, trazê-lo aqui, a meus pés, suplicante, ébrio de amor, subjugado ao meu aceno. Eu posso obrigá-lo a sacrificar-me tudo, a sua dignidade, os seus brios, os últimos escrúpulos de sua sua consciência. Mas no outro dia ambos acordaríamos desse horrível pesadelo, eu para desprezá-lo, ele para odiar-me. Então é que nunca mais nos perdoaríamos, eu a ele, e o meu amor profanado, ele a mim, o seu caráter abatido. Então é que principiaria a eterna separação. 

Depois de breve pausa, continuou falando outra vez ao retrato: 

- Quando ele convencer-me do seu amor e arrancar de meu coração a última raiz desta dúvida atroz, que o dilacera; quando nele encontrar-te a ti, o meu ideal, o soberano de meu amor; quanto tu e ele fores um, e que eu não vos possa distinguir nem no meu afeto, nem nas minhas recordações; nesse dia, eu lhe pertenço... Não, que já lhe pertenço agora e sempre, desde que o amei!... Nesse dia tomará posse de minha alma e a fará sua! 

Afastando-se, a moça levava ainda o pensamento de seu amor que subiu ao céu na 

primeira frase da prece da noite. 

- Concedei, meu Deus, que seja breve! Dizia ela cruzando as mãos, de joelhos no escabelo, e com os olhos em um crucifixo de prata e ébano. 

Terminada a prece, Aurélia fechou o gás, deixando apenas no toucador uma lamparina, cujos frouxos vislumbres esclareciam o rosto do retrato. 

De sua cama, onde se acabava de aninhar como uma rola, entre os finos lençóis de irlanda, com a cabeça no travesseiro, ela via pela porta aberta, lá no toucador, a imagem querida; e com os olhos nela adormeceu, passando, como costumava, de um sonho a outro, ou antes continuando o mesmo e único sonho, que era toda sua vida. 

Os choques dessas duas almas, que uma fatalidade prendera, para arrojá-las uma conta outra, produziam sempre afastamento e frieza durante algum tempo. A remissão foi mais sensível e duradoura depois da noite do baile, porque também a crise fora mais violenta. 

Durante estas pausas, Aurélia observava o marido, e assistia comovida à transformação que se fora operando naquele caráter, outrora frágil, mundano e volúbil, a quem uma salutar influência restituía gradualmente à sua natureza generosa. 

Ela adivinhava ou antes via, que sua lembrança enchia a vida do marido e a ocupava toda. A cada instante, na menor circunstância revelava-se essa possessão absoluta que tomara aquela alma. Havia em Fernando uma como repercussão dela. 

(continua...)

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