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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

A infeliz pouco se demorou no hotel; queria um lugar mais obscuro e mais modesto; transferiu-se para Cascadura. O marido mandava-lhe lá, todos os meses, uma pensão de cem mil réis. Estava feia, sumamente feia; a febre crestara-lhe a

pele, empobrecera~lhe o cabelo e desfeiara-lhe as feições. Não dava lá idéia do que fora; magra, encanecida, meio calva, com os olhos sem expressão, a boca desadornada de sorrisos, o pescoço bambo, as costas arqueadas, parecia mais uma freira velha, comida pelos rigores da vida monástica, do que uma simples devota de trinta e oito anos.

Não saía de casa, senão para ir à igreja. Ninguém a via à janela; apenas, em algumas noites de luar, a custo lobrigavam o seu vulto magro, vestido de chita preta, a passear como um espectro por entre as pobres árvores do seu quintal. Duas vezes fora acometida por crises nervosas, que a deixaram prostrada durante muito tempo com todos os sintomas da loucura.

E o comendador recomendava sempre ao Dr. Roberto que a não deixasse de ver de quando em quando, e pedia-lhe constantemente notícias dela.

— Vai naquilo mesmo... dizia o médico. Dali para pior... coitada!

— Mas pode viver?... perguntava o velho, com os olhos iluminados por um sinistro brilho de vingança.

— Ah! lá viver pode, e até muito; mas o que não conseguirá é restabelecerse totalmente. Está perdida!

— Bem! dizia o velho consigo; minha vingança será completa... Aquele miserável há de casar-se com ela logo que eu feche os olhos!

Uma tarde, passeava a mísera, como sempre triste, por entre as solitárias plantas do seu quintal quando um vulto de homem parou às grades do portão.

— Saberá dizer-me onde mora por aqui uma senhora chamada Teresa?... perguntou o sujeito, apoiando-se aos varais da grade.

Pelo seu todo fatigado via-se logo que ele vinha de longe, a fazer até ali a mesma pergunta pelas outras casas daquela rua.

Teresa aproximou-se lentamente sem responder; mas, ao chegar perto da grade, soltou um grito e exclamou:

— Luiz!

— Meu nome?!... disse o outro muito surpreso.

E, sem ter tempo de procurar reconhecer a lastimosa figura que tinha defronte dos olhos, transpôs o portão, para amparar Teresa, prestes a cair desfalecida.

— Já me não conheces?... perguntou ela com um tom de profunda tristeza, logo que pôde falar. É natural! Eu já não sou a mesma.

— Esta voz!... Será possível?! balbuciou Portela, sem querer acreditar no que via. E ficou a olhar, muito aflito, para a pobre mulher.

— Está aqui o que resta daquela tua Teresa dos outros tempos, tão fresca e tão bonita! explicou ela. E acrescentou com os olhos cheios d’água e a voz muito alterada pela comoção: — Contigo, meu Luiz, tudo fugiu! já nada resta do que fui... Estes olhos já não falam de amor; estes lábios esqueceram o riso; este colo não provoca em mais ninguém desejos ardentes e desenfreados... Depois que tu partiste, nunca mais tive um momento de ventura; tudo se converteu em martírio e remorso. Cheguei a amaldiçoar o nosso amor; cheguei a duvidar se a memória dele me causava saudade ou me causava tédio... Principiei a tomar aborrecimento por tudo; meu marido apunhalava-me todos os dias com a sua indiferença e com o seu desprezo... E o meu sofrimento foi crescendo, crescendo, até me reduzir a isto que aqui vês!

Portela escutava, sem desviar os olhos. Tudo aquilo produzia nele uma grande tristeza e um grande constrangimento. Como era possível conceber semelhante transformação?... Como, em doze anos, se podiam extinguir tanta formosura e tanta graça?.. Oh! é terrível, pensava ele, vermos assim de perto os destroços de uma felicidade que, um dia, passou por nós e nos encheu a vida com todos os brilhos da paixão e do amor. Amor? não! instinto. Um pouco de carne palpitante, cabelos, sangue, dentes, olhos, tudo isso disposto de certo modo, ordenado com certo encanto, eis quanto basta para nos enlouquecer, para nos arrastar a todas as loucuras e a todas as degradações! Entretanto, ali estava aquela mesma mulher que o fizera delirar um dia!... Como a nossa matéria é fraca ou como a natureza é hábil! Como esta sabia impor as suas leis de reprodução e da vida! E queriam os homens do rigor e da austeridade que se pudesse fugir despoticamente a todas essas armadilhas tão finamente preparadas, tão sabiamente urdidas debaixo de nossos pés!...

E, depois destas considerações, uma tristeza profunda, um aborrecimento doloroso, negro, úmido, entrou-lhe no coração e começou a inchar lá dentro como um sapo entalado num cano de esgoto.

(continua...)

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