Por Aluísio Azevedo (1884)
Mas a abelha não se deixava prender. Ia e revinha no ar, zumbindo, a sacudir as sua trêmulas asas de escumilha; até que o sol, por uma frincha do telhado, veio buscá-la numa aresta de luz, ainda mais dourada do que ela.
* * *
Nessa ocasião, Amâncio, no quarto, perdia a cabeça, à procura da carta.
— Pois se eu a guardei aqui, com estas minutas!...resmungava ele sozinho, depois de ter já desarrumado toda a gaveta.
Imaginar que Amélia desse com ela, não! não era possível! Não descobriria o lugar, onde Amâncio, tão previdentemente, sepultara a maldita carta; além disso, quando ele se meteu na cama, já a pequena dormia a bom dormir e, pela manhã bem a viu acordar e escafeder-se para banho...Que diabo teria então mexido ali?...As portas ficavam sempre fechadas por dentro!...Supor que tivesse guardado o demônio da carta em outra parte...mas como? Se a deixara justamente dentro das minutas, e as minutas lá estavam?...
Mas Amélia vinha de entrar no quarto ao pé.
— Ó Amelinha! Viste por acaso por aí alguma carta?...perguntou o rapaz indo ao seu encontro.
— Que carta? Fez ela com o ar mais calmo e mais natural deste mundo.
— Uma carta que nem é minha!...Guardei-a naquela gaveta, — desapareceu!...agora não sei que contas preste ao dono! É uma entalação! Uma verdadeira entalação! Queixava-se o rapaz convictamente.
— Mas , onde a puseste?
— Na gaveta da secretária; estou-te a dizer!
— Então deve estar lá. Procura bem.
— Já vi. Não está!
— Pois aqui não entra mais ninguém...Eu cá por mim, não mexo nunca nos teus papéis, e ainda nem abri, uma vez sequer, qualquer dessas gavetas...Se puseste a carta aí, aí deve estar por força!
— Qual está o quê! Já despejei a gaveta! Já remexi tudo.
E a desordem em que se achava o quarto dizia isso mesmo.
— Então não sei...concluiu Amélia, sacudindo os ombros. E continuou tranqüilamente a enxugar os cabelos, cujo serviço havia interrompido para atender às perguntas do amante.
— Mas a carta também não podia voar! Declarou este em tom áspero.
— Sei lá! Replicou a outra. — Comigo que não a tenho...isso afianço! Diabo! Praguejou Amâncio, sem se poder dominar. Pois, nem uma miserável carta posso ter nessa casa?! Arre! Que inferno!
— Inferno são esses modos que tens ultimamente! De certo tempo para cá é esta boniteza! Parece que falas ao Sabino! Outra que sabe!...quem sabe se tenho aqui algum senhor?!...
— Está bom! Basta!
— Basta vá ele! Seu atrevido! Quero saber que culpa têm os mais com os sumiços que levam as cartas, para ouvir impropérios destra ordem!
— Eu não me dirigi a ninguém! Sebo! Falo cá comigo! Creio que ao menos tenho o direito de zangar-me quando entender!
— Sim, mas é que os outros também não estão dispostos a aturar esses repelões a todo o instante!
— Pois que não aturem!
— Malcriado! Agora, por qualquer coisinha é isso que se vê!
— Qualquer coisinha, não! berrou Amâncio. — É que ontem pus aqui uma carta (soltou um murro na secretária) e a carta desapareceu! Irra!
— Mas quem é que te podia vir aqui tirara a carta, criatura de Deus?! Perguntou Amélia mais branda, encaminhado-se para o amante, a modos de querer chamá-lo à razão.
— Não sei! O fato é que a pus aqui, e ela cá não está!
— Há de estar, homem! Não a encontras agora porque já não tens cabeça, mas, logo que te acalmes, hás de descobri-la...
— Mas onde?! Já corri tudo!
— Deixas estar; eu me encarrego de procurá-la assim que saíres. — Mas é quer eu precisava levá-la comigo! É negócio urgente!
Amélia, como em resposta à última frase do rapaz, abaixou-se sobre os papéis espalhados no chão e começou a examiná-los, um por um.
— Não está aí! Observou Amâncio zangado, a passear de um lado para outro. — Já revistei tudo isso mais de cem vezes! Furtaram a carta, não tem que ver! Amélia já não respondia e continuava, muito afoita, a esquadrinhar o que havia pelo quarto.
— Se me lembro perfeitamente que a meti naquela gaveta, ao fundo, dentro destas minutas!...Acrescentou Amâncio, depois de um silêncio colérico.
— Mas quando a trouxeste?...disse Amélia, sem tirara os olhos do que rebuscava.
— Ontem à noite.
— Mas eu não te vi com ela...
— Já estavas dormindo, quando a pus na gaveta. — Quem sabe se ficou naquela algibeira?...
E a manhosa, com um vislumbre, largou tudo de mão para correr a examinar a roupa do cabide.
— Ó filha! Eu não estrava bêbado quando me recolhi! observou Amâncio.
E saiu para se lavar, traçando furioso lençol em volta do corpo, num gesto melodramático.
Quando tornou ao quarto, Amélia já havia arrumado as gavetas e dispunha sobre a cama a roupa que o rapaz devia vestir à volta do banho.
— Então?...perguntou ele , ao entrar.
— Nada! volveu elas, com admiração na voz.
— Com efeito! Isto contado não se acredita!...Rosnou Amâncio, enfiando as meias.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.