Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

— E queria o senhor meu genro que este mimo de graças não aparecesse nas salas e ficasse em casa, talvez a jogar a bisca! Tinha que ver...

Por essa época sofreu o comendador um novo desgosto: a morte de seu filho, que estava já nos estudos em S. Paulo. Este fato alterou de alguma forma, e por algum tempo, a vida da família, servindo de paliativo aos desgostos de Gonçalves. Mas, acabado o luto, Olímpia cingiu de novo o seu diadema e reapareceu nas salas.

O pobre homem já não podia suportar semelhante existência. Era preciso que a esposa se decidisse por uma vez a mudar de vida, ou ele pediria a sua demissão de marido.

Olímpia declarou que não estava disposta a alterar de forma alguma os seus hábitos. Se ela, com as suas fantasias, obrigasse o marido a sacrifícios e privações, muito bem! seria a primeira a fugir da sociedade exigente e a submeter-se a uma vida proporcionada à estreiteza dos seus recursos; mas não! o marido nem precisava tocar nos bens que trouxera:

Olímpia era rica, tinha muito com que sustentar o seu luxo e os seus caprichos; Gonçalves, por conseguinte, que deixasse de ser egoísta e não a estivesse contrariando daquele modo, porque isso podia ter lamentáveis conseqüências...

Gonçalves opunha carradas de razão: dizia que se casara para viver com a mulher e não para proporcionar mais um bom par aos dançadores de valsa; que era homem sossegado, amigo dos seus cômodos, gostando de passar os domingos na sua chácara, e que não se achava disposto, por conseguinte, a andar por aí, num torniquete, de casaca, a cochilar, que nem o Imperador; que estava já muito farto de bailes, de jantares e de teatros líricos; que as tais ceias fora de horas, os sorvetes, os ponches; que o obrigavam a ingerir todas as noites, lhe punham o estômago em petições de miséria e lhe haviam de dar com os ossos no Caju, se ele não mudasse quanto antes de regime; e, afinal, quando por mais nada fosse, era porque ele não podia admitir que uma senhora casada tivesse adoradores, e ouvisse galanteios, e se deixasse, nas tais danças, abraçar por uns pelintras que ele nem sequer conhecia; como também não podia tolerar que o nome de sua mulher andasse por aí, de boca em boca, de jornal em jornal, tratado por tu, como se ela fosse alguma dançarina ou alguma cômica! Não! Gonçalves não estava por nenhuma dessas coisas e, se a mulher não pretendesse mudar de sistema de vida, que lhe falasse então com toda a franqueza, porque nesse caso quem disparava era ele!

Olímpia não respondeu uma só palavra e deixou que o marido ainda acrescentasse muitas outras queixas. À noite encarregou o pai de tratar da separação, se é que Gonçalves estava com efeito a isso disposto; mas, caso estivesse, ficasse ele desde logo prevenido de uma coisa, e era que, em nenhuma hipótese, voltaria ela a fazer pazes com o marido. Gonçalves, portanto, que meditasse antes de dar o grande passo. Quanto a ela não alteraria, de forma alguma, o seu modo de viver!

Dai a três dias estavam separados.

Sabe já o leitor o que se seguiu ao rompimento: Olímpia principiou a emagrecer, foi ficando triste e perdendo, pouco a pouco, o gosto pelas festas ruidosas e pelos prazeres opulentos. Ficou nervosa, doente, aborrecida, e dentro de seis meses desertou totalmente da sociedade.

O comendador embalde procurou persuadi-la de voltar aos seus hábitos primitivos; embalde lhe falou do triunfo que outras obtinham já na ausência dela; embalde a cercou de objetos da moda, jornais de figurinos, programas de concertos, camarotes de teatros e provocações de todo o gênero.

Olímpia não se moveu, e em menos de dois anos ninguém mais lhe citava o nome.

Todavia, os seus incômodos recrudesciam; o nervoso tomava proporções muito sérias; o monstro histérico escancarava as fauces.

O Dr. Roberto, como também já sabe o leitor, aconselhou viagens, falou em banhos de mar, lembrou passeios ao campo, mas disse positivamente que o verdadeiro remédio para Olímpia seria fazer, quanto antes, as pazes com o marido.

Não fez. E mais dois anos decorreram, até o dia em que a vimos subir, pelo braço do pai, a escadaria do Papá Falconnet.

Pela confrontação das cenas da Avenida Estrela, com as cenas igualmente mal esboçadas deste capítulo, pode o leitor sem dificuldade calcular os progressos que fez nesses dois anos a moléstia de Olímpia.

Mas saltemos por sobre isso e vamos revê-la no momento em que a deixamos ao lado de Gregório.

Antes, porém, cumpre explicar o que foi feito de Teresa.

O Dr. Roberto fazia-lhe de vez em quando uma visita. Achou-a sempre pior; propensa a sofrer das faculdades mentais. Teresa dera-se ultimamente à devoção e estava muito amiga de rezas e de igrejas. Olímpia já não encontrava nela a mesma amiga e a mesma conselheira; a pobre doente parecia agora estúpida e mostrava-se desconfiada, de mau humor, às vezes impertinente e grosseira.

Rosa, aquela criada que na época dos amores de Portela, lhe protegia as escapulas, fora substituída ao lado dela por tia Agueda.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...9495969798...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →