Por Aluísio Azevedo (1884)
Entraria, mas lá dentro havia de ser forte, inabalável! E trepava pelas escadas, imaginando o improvisar um namoro com a Carlotinha, estudando os assuntos de que teria de usar na conversa, calculando os efeitos que a sua afetada indiferença devia produzir no espírito da caprichosa. Bastava, porém, um sorriso de Hortênsia, uma palavra mais terna, um gesto mais amoroso, para o fazer ficar caído, desarmado, seguro como nunca.
— Era o diabo!
Voltava para casa furioso, atirando com as portas, respondendo de má vontade às perguntas que lhe dirigiam.
Amélia o estranhava, sem dar contudo, a perceber coisa alguma. Apenas lhe perguntava, aliás como sempre, onde estivera e, quando o rapaz dizia secamente “Com o Campos”, ela fazia:
— Ah!...
E não tocava mais em semelhante coisa.
Uma noite ele entrou ainda pior que das outras. Não quis ir à varanda, meteuse no quarto, abriu um livro e aí ficou, junto à secretária, com a fisionomia fechada sobre a página.
Todavia, seu pensamento trabalhava: “Era preciso acabar com aquilo, custasse o que custasse! Era preciso definir as posições! — Ou a mulher do
Campos se explicava, ou ele não poria lá mais os pés!”
E resolveu que o melhor seria escrever-lhe uma carta enérgica, decisiva, exigindo um “sim” ou um “não”. Fosse a resposta qual fosse, contanto que viesse, contanto quer Hortênsia desembuchasse por uma vez!
Mas não queria escrever enquanto Amélia não pegasse no sono. — Ele bem sabia o quanto era a rapariga desconfiada e fina. Só quando a pilhou quieta e presumiu que já estivesse dormindo, foi que se animou a minutar a carta.
Frases e frases desesperadas e cheias de fogo acavalavam-se umas pelas outras, falando em martírios infernais, em suplícios dantescos e terríveis aniquilamentos. E Amâncio, no seu epicurismo estrepitoso e brutal, declarava que “já não podia suportar as meias promessas, os dúbios sorrisos e as lentas torturas que ao sangue recalcado lhe impunham as atitudes perplexas de Hortênsia. Preferia a dor por inteiro, completa, de um só golpe. Ela que tomasse uma resolução, que despachasse! Se lhe não convinha o amor que ele propunha, declarasse-o com franqueza: — ficaria o dito por não dito! E, assim, escusavam de prosseguir naquele encarniçamento desabrido, de cujo oscilante resultado as dúvidas e incertezas o acabrunhavam e consumiam, mais dolorosamente do que tudo que pudesse haver de terrível e cruel em uma solução desfavorável!”
Quando deu por coreto e limado o que escrevera, tirou a limpo uma cópia, sobrescritou-a e, para que Amélia não descobrisse nada, escondeu todos os corpos de delito no fundo de uma das gavetas da secretária. Depois, como se tivesse alijado um novelo da garganta, respirou desafrontadamente, amorteceu o bico da gás e, abafando os passos e desfazendo-se em cautelas, foi meter-se nos lençóis, muito empenhado em não acordar a amante.
Não levou dez minutos a cair no sono.
Então, Amélia, ergueu-se, ainda com mais cuidado do que ele se recolhera, foi pé ante pé à secretária, tirou a carta e, depois de guardá-la em lugar seguro, tornou de novo à cama, e desta vez adormeceu deveras.
* * *
Leu-a precatadamente no banho, às oito horas da manhã, enquanto esperava que o tanque de mármore se enchesse.
Amâncio ainda ficara no quarto.
Ela, já despida, encostada ao rebordo da banheira, os ombros curvos, uma perna sobre a outra, a cabeça descaída molemente para os combros polposos do seio, tinha em uma das mãos a pequena folha de papel e, de tal modo a fitava, que parecia disposta a consumi-la com o brilho de seu olhos.
Aquela carta a revoltava muito; não por ele, mas por si mesma; não pelo afeto que teria ao estudante, mas pelo ressentimento de seu amor-próprio ofendido. Não lhe podia sofrer a vaidade que um homem, a quem, por merecer, ele fizera tudo que estava em suas mãos; um homem por quem lançar em juízo jogo todos os recursos de sua feminilidade; um homem por quem barateara todo o valimento do seu corpo, tivesse ânimo de desprezá-la por outra mulher!
E, com o olhar imóvel sobre a nudez oriental de seus membros, a boca entreaberta, o colo palpitante, Amélia se concentrava toda na idéia de uma vingança completa, tão completa, tão grande que lhe atulhasse o rombo cavado no seu orgulho e mulher traída.
A água, que escorria da torneira com um trapejar monótono, punha no ambiente desagasalhado do banheiro uma impressão ainda mais fria de umidade e desconforto; e aquele nu destacava-se ali como uma bela estátua desprezada. Sua carne tersa e maciça contraía-se, empinando os lóbulos do peito e enrijando a vermicular protuberância dos quadris.
Nisto, uma abelha voejou à roda da cabeça de Amélia, tentando pousar-lhe nos cabelos; ela agachou-se toda, fugindo logo num movimento medroso de caça que se assusta. Em seguida, puxou a toalha do cabide e pôs-se a dardejá-la contra o dourado importuno.
Foi uma luta. O inseto fugia; ela trepava-se à borda do tanque, equilibrandose, ora num pé , ora no outro, segurando-se à parede, vindo, recuando, a despedir para todos os lados golpes perdidos da toalha.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.