Por Aluísio Azevedo (1882)
— Mas que quer você, homem de Deus?!...
— Quero endireitar a minha vida! está aí o que eu quero! Pois meu sogro acha que não tenho razão para estar aborrecido?!...
— Mas que é que lhe falta?!
— Falta-me a paciência para andar todas as noites de casaca, a fazer mesuras pelas salas e a aturar massadas consecutivas. Sua filha, ao que parece, não desejava um marido; desejava ter um pajem, um criado às ordens dos seus caprichos!... Ora, eu estou lá disposto a semelhante coisa!
— Você fala de boca cheia, meu genro, respondeu o comendador, a sacudir a cabeça. Sabe lá você a mulher que tem!... Renda graças a Deus, meu amigo, porque principio a acreditar que você nunca a mereceu.
— Antes mesmo nunca a tivesse merecido! Dou-lhe a minha palavra de honra que preferia isso!
O outro mordeu os beiços e conteve a impaciência.
— É melhor pararmos aqui, disse ele; nada lucramos em estar a trocar palavras. O senhor, meu genro, me falará quando estiver mais tranqüilo!...
— Já não tenho momentos de tranqüilidade! exclamou desabridamente o Gonçalves. Apre! preciso desabafar! Há cinco meses que estou cheio até aqui! (E mostrava a garganta com a mão aberta). Ou entramos em um acordo ou vai cada um para seu lado! Safa! Não posso mais!
— Pois então vá plantar batatas! gritou o comendador, perdendo de todo a paciência. Quer fazer reclamações, faça-as à sua mulher. Que diabo!
— Ela faz mesmo muito caso do que lhe digo!...
— Pois então queixe-se de si próprio, meu caro senhor! Quando o marido não se sente com forças para governar a mulher, não pode exigir que o sogro a governe! O que lhe afianço é haver por ai muito homem casado que não se queixa como o senhor, tendo muito mais razão para isso! Você ao menos não pode dizer que sua mulher o ilude!...
— Sei cá! respondeu o marido de Olímpia, sacudindo os ombros.
— Hein?! exclamou o comendador, furioso. Não sabe?! Pois o senhor se atreve a duvidar da conduta de minha filha?... Insolente! bradou o velho, trêmulo de cólera. Não sei onde estou que...
Olímpia estava nessa ocasião a passeio. Quando voltou, soube logo da contenda entre o pai e o marido.
— O senhor foi então queixar-se de mim a meu pai?!... perguntou ela a Gonçalves quando o viu.
— Não! é que a senhora...
— Não seja idiota! bradou-lhe a mulher, franzindo o nariz. Quando quiser pode-se ir embora!
— E sou muito capaz de o fazer!... Não sei o que parece andar agora uma criatura a correr seca e meca, para ver danças e ouvir tocar piano!...
— Eu é que não estou para aturá-lo! Tenha a bondade de me não aborrecer!
disse Olímpia friamente e recolheu-se ao quarto, sem querer ouvir a réplica do marido.
Jacó assistia a toda esta cena, encostado ao aparador com uma toalha no braço.
— Não te parece que eu tenho razão, Jacó?... perguntou-lhe Gonçalves, aproximando-se dele.
— Não me envolva nessas histórias... respondeu o velho doméstico, fugindo por sua vez para outro lado.
Gonçalves cruzou os braços e sacudiu a cabeça sozinho, no meio da sala.
— Então?! que me dizem a isto?! exclamou ele.
CAPÍTULO XXVI
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E, desde então, não se passava um dia em que não houvesse alguma nova rezinga entre o casal; mas o marido, por muito que protestasse contra os costumes da mulher, nada conseguira. O comendador tomou abertamente o partido da filha e principiou a tratar o genro com frieza.
— Logo vi que este homem não poderia convir a Olímpia, dizia e repetia ele consigo. Grande parvo! em vez de agradecer a Deus o presente que lhe fez, ainda tem o desplante de lamentar-se! Idiota.
E, quando se achava a sós com a filha e vinha a pêlo falarem de Gonçalves, repisava o comendador com o seu ar aprumado:
— Não faças caso, minha flor! diverte-te, brinca, dança à vontade, que és moça! Brilha, minha Olímpia; brilha, que és bonita, espirituosa e rica! Deixa falar o tolo de teu marido; ele o que tem é ciúmes! Não faças caso! Preza o teu nome, defende a tua reputação, cumpre com os teus deveres de senhora honesta, mas continua a ofuscar! Mata de inveja essas presumidas que estão todos os dias a descobrir defeitos em ti!
E o velho sentia-se cada vez mais satisfeito com ela. Para ele não havia em todo o mundo outro ente tão completo, tão belo, tão agradável como a filha. Olímpia, depois que mudara de gênio e que se alindara de corpo, era o seu enlevo e a sua vaidade. Quando a via, decotada no rico vestido de seda, a chamar a atenção de todos, a jogar com muita graça o leque, a responder sorrindo às palavras que choviam da direita e da esquerda, o feliz pai ficava embevecido, a acompanhar-lhe com a fisionomia os menores gestos e os mais ligeiros movimentos.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.