Por Aluísio Azevedo (1884)
Amélia, então, possuída de um rancor instintivo de classe, de uma surda antipatia de mulher suspeita por mulher honesta, desencadeou os seus argumentos e as suas razões. Trouxe a lume conversas inteiras, que bispara na tal noite do exame. “Amâncio via caras e não via corações!...Aquele — meu bem pra cá, meu bem pra lá, — que todos notavam entre o Campos e a mulher, era só dos dentes para fora! No íntimo, Hortênsia detestava o marido! Achava-o muito bom homem, é verdade, muito generoso, não podia se queixar de que lhe faltasse nada, — boa mesa, boa casa, criados pra servir, teatros, bailes, seu bom carro, seu vestido de preço, — sim senhor! Mas só! Quanto a carinhos — nicles! A respeito de certos confortos de que uma mulher precisas, — era uma miséria! Às vezes, passavam-se meses e meses sem que o marido a procurasse! O pobre homem andava lá com os seus negócios, coitado! E a doida, em lugar de conformar-se com a sorte, punha a boca no mundo e eram queixas e mais queixas pra frente! Que ela, Amélia, não soubera de tudo isso, por parte deste ou daquele — escutara com seus próprios ouvidos!”
— Pois bem, ainda me ajudas!...volveu Amâncio, tomando extremo interesse pela conversa, — ainda me ajudas, porque, se é como dizes, o bom comportamento de D. Hortênsia torna-se muito mais digno de admiração!...
— Sim!...Retrucou a rapariga ironicamente. — Também acho bom, mas moro longe! — De um, quando mais não seja, sei eu, por quem o tal “anjo de pureza” seria capaz de dar uma perna ao diabo! E olha que, se ainda não a deu, foi porque ainda não teve ocasião para isso! Vontade não lhe falta! Ele que se apresentasse e veríamos!
Amâncio quis logo saber quem era o sujeito.
— Um tipo! Não o conheces.
— Mas como se chama?
Amélia, depois de alguma hesitação, confessou. — Era o Sousa Antunes...Aí tinha!
— Que Antunes? Interrogou Amâncio, já mordido.
— O Antunes, homem! Aquele sujeito da Câmara. Alto, de cavanhaque, aquele de castor branco, que uma vez encontramos nas regatas, em Botafogo. — Ah!...Já sei, já sei...
E Amâncio procurou disfarçar a sua contrariedade, fingindo que se abismava na leitura. E parecia muito preso à página, enquanto aliás o seu pensamento buscava descobrir no tipo de Sousa Antunes os atrativos que cativaram a mulher do Campos. — Impossível! O tal Antunes era um viúvo talvez de quarenta anos, pai de filhos, e vulgar, sem talento de espécie alguma, vivendo de um ordenado oficial de secretaria, nem tendo, ao menos, qualidades físicas que inspirassem paixão a qualquer mulher, quanto mais àquela! aquela que não pôs dúvida em lhe atirar com uma recusa pelas ventas!...
— Não! Isso deve ser história!...considerou ele em voz alta.
— Qual história, o quê! Retorquiu logo Amélia. — É louca por ele! Quando o avista, fica tonta! Eu vi! ( e arregalou um dos olhos com o dedo). Ainda outro dia, no São Pedro- que escândalo! Não lhe tirava o binóculo de cima! O que a cegou, sei eu...
— Mas como viste tu a saber disto?...
— Ora! Loló é toda das Fonsecas, que estão agora de cama e mesa com a Hortênsia!...
— Fonsecas?...
— Aquelas moças esquisitas, aquelas que foram à soirée!... Lembras-te?...Ó homem! as Fonsecas...as de Catumbi!...
A Amâncio pouco lhe importavam as Fonsecas, o quer ele desejava eram mais algumas informações a respeito do escândalo. Não podia suportar a idéia de que Hortênsia, a mesma Hortênsia que lhe repelira os beijos, tivesse um fraco pelo Antunes, o Antunes do cavanhaque! — Que horror!
* * *
E, depois dessa conversa, principiou a freqüentar a casa do Campos com mais assiduidade. Aparecia regularmente duas vezes por semana e quase sempre se demorava até as horas do chá.
— Mas Hortênsia — qual! Não atava, nem desatava. Era sempre a mesma criatura incompreensível; sempre aquela mesma ambigüidade, a mesma dúvida, o mesmo querer e não querer! Hoje — Um sorriso de esperanças; amanhã — uma frieza esmagadora; depois — ora muito coloridos de ternura, ora lulados de orgulho; tão depressa altiva e sobranceira, como suplicante e humilde; tão depressa risonha como triste, generosa como sovina, dando com uma das mãos para tomar logo com a outra.
O rapaz impacientava-se: — Fossem lá compreender semelhante mulher! Um dia — toda condescendência, toda interesse por ele, no outro — gestos desabridos, ameaças, palavras duras . — Sebo! — Já passava a debique! No fim de contas não valia a pena!
Mas o ladrão da mulher tinha uns olhos tão doces, uns decentes tão brancos, uma pele tão viçosa!...”Não senhor! Era preciso acabar com aquilo! Ele estava fazendo um papel ridículo!...”
E deliberava não pensar mais na mulher do Campos. “Que diabo! Se queria divertir, comprasse um boneco de engonços!...” Quando , porém , dava por si no dia imediato, já os passos o tinham conduzido para a casa do negociante.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.