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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

- Eu caí na sala?... murmurou Aurélia sem abrir os olhos, e corando de leve.

- Não, respondeu Seixas. 

- Quem segurou-me? 

- Podia eu confiá-la a outro? disse Fernando. 

Os dedos da moça responderam apertando a mão do marido. 

- Quando vi que tinha desmaiado, tomei-a nos braços e trouxe-a para aqui. 

- Para onde? 

- Para seu toucador. Não conhece? 

- Não me lembro. 

Seixas calou-se. Aurélia permaneceu na mesma imobilidade, com a mão do marido presa na sua, que às vezes recebendo uma ligenria vibração contraía-se. 

Nisto bateram discretamente à porta. Seixas fez movimento de erguer-se para ver quem era; mas aAurélia ao fugir-lhe a mão que tinha na sua, ergueu-se em pé de um jato, e lançando os dois braços ao colo do marido, curvou-o sob esse jugo irresistível. 

Seixas foi obrigado a sentar-se outra vez; e Aurélia deixando-se cair também sentada sobre o sofá, o retinha fechado na mimosa cadeia, enquanto dardejava à porta o olhar colérico, erigindo o busto com a retração da serpe que enrista-se para o bote. 

Que se passava nesse momento no espírito da moça exaltada pelas comoções dessa noite? 

Afigurava-se a Aurélia que achara enfim a encarnação de seu ideal, o homem a quem adorava, e cuja sombra a tinha cruelmente escarnecido até aquele instante, esvanecendo-se quando ela julgava tê-lo diante dos olhos. 

Agora que o achara, que ele aí estava perto dela, que tomara posse de sua vida, parecia-lhe no desvario de sua alucinação que o queriam disputar-lhe, arrancando-o de seus braços, e deixando-a outra vez na viuvez em que se estava consumindo. 

- Não!... Não quero!... exclamou com veemência. 

Continuavam a bater. 

- Podem abrir, Aurélia, e surpreender-nos! 

Estas palavras do marido, ou antes o receio que as ditava, provocaram em Aurélia um assomo ainda mais impetuoso. 

- Que me importa a mim a opinião dessa gente?... Que me importa esse mundo, que separou-nos! Eu o desprezo. Mas não consentirei que me roube meu marido, não? Tu me pertences, Fernando; és meu, meo só, comprei-te, oh! Sim, comprei-te muito caro... 

Fernando erguera-se como impelido por violenta distensão de uma mola e tão alheio a si que não ouviu o fim da frase: 

- Pois foi ao preço de minhas lágrimas e das ilusões de minha vida, concluiu a moça, que ao movimento de Seixas soerguera-se também suspensa pela cadeia com que lhe cingia o pescoço. 

Seixas dominara o ímpeto que o precipitava, e conseguiu afogá-lo no escárneo, que é uma válvula para essas grandes comoções da alma. Sentou-se de novo, e murmurou ao ouvido da mulher, que o inundava com seu olhar:

- O lenço? 

- O lenço?... repetiu a moça maquinalmente. 

E apanhando seu lenço de rendas que jazia sobre o sofá, olhou-o como se buscasse nele explicação daquela singular pergunta do marido. 

Súbito estremeceu com abalo tão forte, que a levantou em pé, soberba de ira e indignação. 

Não se desmanchava um só anel de seus cabelos, que se cacheavam em torno da cerviz com a mesma correção, não se amarrotara nenhum dos folhos de seu traje vaporoso e todavia quem contemplasse Aurélia nesse momento, acreditaria na desordem do lindo vestuário, tal era a exacerbação que perspirava de toda sua pessoa. 

A aurora serena dessa beleza, ainda há pouco dourada dos níveos raios de luz coada pelo cristal fosco, transformara-se de repente na tarde incediada pelos sinistros clarões da borrasca. A estrela fizera-se relâmpago; o anjo despira as asas celestes, e vestira o fulgor lucífero. Aurélia soltou uma gargalhada: 

- Tem razão!... É o único amor que pode haver entre nós! 

A mão da moça que machucava convulsivamente o lenço, ergueu-se para arremessálo a Seixas, com as palavras de desprezo que acabava de proferir. Mas foi apenas um simulacro; a meio do gesto a mão retraíra-se com energia. 

Se fosse possível que eu decaísse de minha virtude, e até da minha altivez, havia um homem a quem não me rebaixasse jamais! De todas as indignidades, a maior seria a profanação do único amor de minha vida! 

(continua...)

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