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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

Foi essa, como já vimos, a única razão que moveu aquele a consentir na união de Olímpia com o Gonçalves. Não é que desdenhasse das qualidades do pretendente, mas o Gonçalves estava longe de ser o ideal que o comendador sonhava para genro. Preferia um homem mais distinto, mais cultivado no trato e nas coisas do espírito; mais brilhante, em suma. E Gonçalves era ao contrário um sujeito modesto e chão; homem de bom senso, mas de ambições estreitas. O que o puxava mais insistentemente para Olímpia, não foi a beleza da rapariga, que ela nessa ocasião ate estava quase feia; nem também o dote, porque Gonçalves não seria capaz de casar por especulação, mas foi justamente aquela indiferença pela vida exterior, aquele desquerer das coisas ruidosas que ele, à primeira vista, descobriu logo na filha do comendador.

Pobre homem! como se havia enganado! O que supunha congênito e natural em Olímpia, não passava de uma crise, de um estado mórbido, que desapareceria prontamente com o matrimônio.

Para qualquer outro seria isso um motivo de felicidade, para ele era um transtorno.

Com efeito, pouco depois do casamento, a menina insociável e bisonha foi desaparecendo, e Olímpia, a verdadeira Olímpia, a mulher formosa, de ombros torneados e peito colombino, surgia entre os braços do marido.

Nela tudo se transformou, como por encanto: a pele fez-se tranca e macia; encheu-se-lhe o colo e encorparam-se-lhe os braços; as linhas dos quadris serpentearam com mais arrojo; os olhos esparsaram-se, rociados de ternura, e a boca desabrochou em belos sorrisos ao toque dos primeiros beijos sensuais.

E, se por um lado o corpo se aformoseava, por outro o espírito se desapertava e distendia. Quatro meses depois de casada, Olímpia principiou a sentir-se atrair para as salas, seus encantos pediam a admiração e o aplauso dos homens de bom gosto; precisava de aparecer, precisava de luzir.

Reclamou jornais de moda, freqüentou as modistas do tom, exigiu um cabeleireiro, comprou jóias, tomou carruagem, escolheu cavalos, e dentro em pouco foi ela a ordem do dia na rua do Ouvidor e nos salões de Botafogo.

Os folhetins do Otaviano Rosa, no Correio Mercantil falavam de Olímpia; descreviam-lhe a toilette, endeusavam-lhe as graças. Suas frases foram repetidas, seus gostos imitados.

O comendador não se podia furtar à influência de todas as transformações e com o que essas refletiam. Era com orgulho que agora acompanhava ele a filha ao Cassino, ao Lírico e à Campesina.

Já ninguém o via triste e apoquentado. Os alegres hábitos do outro tempo foram ressurgindo simultaneamente. À casa retornou o ar feliz que havia perdido. Bastou que Olímpia se casasse, se fizesse verdadeira dona de casa, para encontrar facilidade em governar os criados, em dirigir tudo o que estava sujeito à sua vontade. Os fornecedores deixaram de roubar, os fâmulos já não esbanjavam como dantes, a chácara voltou ao que era primitivamente. Tudo endireitou, tudo entrou nos eixos. Reapareceram as visitas, iluminaram-se as salas, distribuíram-se chávenas de chá, desarrolharam-se garrafas de vinho caro.

O único descontente era Gonçalves; aquela mulher, que a todos deslumbrava com os seus encantos pessoais, aquela adorável Olímpia de quem se falava com tanto entusiasmo por toda a parte, não lhe convinha a ele para esposa.

Não era essa a mulher que havia sonhado.

Imaginara ter descoberto na singela filha do comendador uma companheira sossegada e amiga do lar; quando de repente lhe surgiu aquela doidejana, a reclamar sedas, carruagens, bailes, e o diabo a quatro!

— Fui lesado! dizia ele consigo, plenamente arrependido do casamento. Se adivinhasse semelhante coisa, nunca a teria tomado para mulher!... Mas também quem poderia desconfiar que em tal songamonga estivesse escondida a Olímpia de hoje?...

E o pior é que o pobre Gonçalves não tinha ânimo de contrariar a esposa. Esta o arrastava para Petrópolis, para Nova Friburgo; obrigava-o a perder noites, a bocejar, assentado em uma cadeira na sala de jogo, enquanto ela dançava pelo braço dos melhores valsistas do tempo.

— Isso não pode continuar assim!... resmungava o pobre homem, entre bocejos. Pois eu tenho lá jeito para essas cousas...

Além disso era um gastar sem conta. Ora, ele que se casara justamente para metodizar a vida e ver se conseguia assegurar o futuro com algum pecúlio, não podia suportar de cara alegre semelhantes imposições de Olímpia. Para deixá-la sozinha, também era o diabo; havia tantos olhos assestados sobre ela; havia tanta cobiça a lhe farejar aqueles ombros nus, que o marido não se animava a arredar pé.

— Antes me ficasse ela feiazita e magra como era dantes... suspirava o infeliz; ao menos não gostaria tanto de aparecer!...

E, apesar de ninguém até aí ter ousado arriscar a menor palavra contra o procedimento de Olímpia, o triste marido sentia zelos cruéis apertarem-lhe silenciosamente o coração.

Um dia, não mais se pôde ter, e procurou o comendador para desabafar.

— Não é possível, seu Ferreira! dizia ele muito desgostoso; não é possível continuarem as coisas como vão!... Eu não me casei para perder as noites em pagodes e andar por aí em correrias altas!... Não sou nenhum nababo! não posso com semelhante vida!

E passeava agitado pelo gabinete do sogro.

(continua...)

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