Por Aluísio Azevedo (1884)
Melhor, bem certo para o descanso do corpo e repouso do espírito; não, porém, para garantia do amor, essa estranha função psicológica que só alimenta asa suas raízes nos sobressaltos e no perigo. Tamanha segurança e tamanha liberdade de ação deviam fatalmente levantar a pontas do tédio, cujo novelo existe, mais ou menos escondido, no fundo de todas as coisas.
Não vinha longe a saciedade; Amâncio já lhe ouvia o bocejar. Iam-se-lhe pouco a pouco amornecendo os primitivos arrebatamentos do desejo; os dois tinham-se já frouxamente, sem lumes de entusiasmo, sem os esforçadores auxílios da imaginação. Assuntos práticos, positivos, agora se lhes intercalavam nas carícias, puxando-os grosseiramente à calma realidade da vida.
Amelinha já lhe não surgia no quarto com aquele trêfego ruçar-se de pomba assustada, o que lhe enchia as feições e os movimentos de uma graça tão maliciosa e provocadora; agora se apresentava com um ar muito tranqüilo, de casada, a arrastar os chinelos, o roupão desabotoado e solto, num farto abandono de alcova.
Despia-se defronte de Amâncio, coçando negligentemente as partes do corpo que estiveram comprimidas durante o dia, como a cinta, o lugar das ligas e dos canos das botinas. Despenteava-se ali mesmo, alado da cama do rapaz, sacudindo o cabelo com ambas as mãos, num movimento de braços erguidos que lhe mostrava a grenha das axilas; ele, também, parecia não dar por isso, eras todo do livro que lia à luz de uma vela pousada no criado-mudo.
E os assuntos de suas conversas materializavam-se completamente. Já só discutiam interesses práticos, arranjos de vida e conveniências domésticas: “Era preciso arranjar um jardineiro, que viesse uma vez por semana cuidar das plantas e limpar os tanques. — Era preciso chamar o homem do gás para consertar tal candeeiro que não dava boa luz. — Era conveniente alugar uma criada que soubesse lavar; porque a ladra da lavadeira trocava as camisas e encardia a roupa, que fazia lástima!”
E, à vezes, na intimidade dessas conversas, criticavam os atos de Mme. Brizard e do Coqueiro; censuravam-lhes umas tantas coisas, como, por exemplo: a negligência destes para com o César. “O pequeno ia por um tal caminho, que, se não abrissem os olhos, havia de amargar mais tarde! — Que diabo custava ao Janjão arranjá-lo aí em qualquer casa de comércio ou, pelo menos, fazê-lo aprender um ofício?...Em casa mesmo já lhe podiam ter metido nas unhas a carta do ABC e já lhe podiam ter ensinado alguma coisa...Mas Loló não se queria incomodar! E senão, vissem o que se passava a respeito de Nini; outra fosse a boa da mãe, que as pobre rapariga não levaria semanas e semanas lá na casa de saúde, sem ter uma pessoa que olhasse por ela.”
Eram sempre deste teor os motivos de sua conversa. Amélia, não obstante, fazia-se muito ligada aos menores interesses do amigo: queria saber o que ele gastava por fora, com quem estivera; reprovava-lhe certas relações, certas companhias “que não punham ninguém pra diante”, e aconselhava-o a que se não descuidasse de outras que lhe podiam ainda vir a servir; pregava-lhe sermões a respeito de economias. “O mundo estava cheio de espertos: ele que desconfiasse de todos; cada um só procurava chamar a brasa para a sua sardinha!” Queria estar a par de como iam os negócios do amante na província. “Se o dinheiro ficara em boas mãos; se não havia risco de uma quebra ou de alguma ladroeira”. E muito egoísta, muito mulher, muito agarrada ao que lhe pertencia, desde Amâncio até ao pó de suas gavetas, fazia justamente como fazem os sócios comerciais que parecendo tratar dos interesses abstratos de uma firma, estão mas é tratando dos próprios interesses.
Outras vezes boquejavam sobre os conhecidos, sobre as pessoas de amizade. Uma noite, em que , durante o serão da varanda, se conversou muito a respeito de Hortênsia, Amélia, já no quarto, em fralda, com um joelho dobrado em cima da cama, enquanto tirava grampos da cabeça e os arremessava para o velador, disse, como se continuasse um pensamento:
— Ela, fim de contas, não passa de uma mulher como as outras!...Loló e Janjão. É que, quando gostam de uma pessoa tiram tudo dos outros para enfeitá-la!
— Quem? D. Maria Hortênsia? Perguntou Amâncio, procurando num livro o lugar em que na véspera deixara a leitura. E, depois de um movimento afirmativo da rapariga:
— Não, o Coqueiro tem razão — a mulher do Campos é uma excelente senhora. Muito honesta!
— Ora! É uma mulher como as outras...sustentou Amélia, galgando a cama por cima do amante, para se aninhar ao lado da parede.
— Como as outras, como? Em que sentido?
— Não é lá essas purezas que a querem fazer! Não é nenhuma santa!
— Estás enganada, filha! A Hortênsia é uma mulher muito séria!...
— Quando não se ri...
— Pelo menos até aqui, que me conste, ninguém ainda se animou a dizer nada de sua conduta!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.