Por Aluísio Azevedo (1882)
Mas, depois de fechar a porta por dentro, assentou-se à secretária, fincou os cotovelos na mesa, segurou a cabeça com ambas as mãos, e começou a chorar.
Jacó passeava de um para o outro lado na sala de espera. Estava preocupado. Ouvia-se sobre o tapete o som discreto dos seus grandes sapatos de bezerro, muito engraxados e quase sem salto.
Um gemido mais forte, fizera-o correr para junto dele. Jacó era o único que havia compreendido bem a perturbação do comendador. Para ele o amo não podia dissimular a mais passageira impressão, o velho criado adivinhava-lhe os pensamentos, lia-lhe no rosto tudo o que se passava naquele coração amargurado e cheio de rugas.
Teresa chegou muito fatigada ao hotel, uma enfermeira de contrato trouxelhe um caldo e fê-la recolher-se à cama.
— Que horas são?... perguntou a doente, com ar de fastio.
— Deram duas agora mesmo.
— Bem. Dê-me aquele livro de capa encarnada. Esse que tem uma cruz em cima. Justamente!
— A senhora precisa ainda de mim para alguma coisa?... perguntou o João Rosa, de quem Teresa já se havia esquecido.
— Ah! disse ela. Se voltar lá em casa, diga a Olímpia que apareça o mais depressa possível.
— Sim, senhora.
— Adeus. Obrigado.
O comendador não aparecera à mesa de jantar, e à noite pouco conversou com a filha.
O pobre velho sofria.
Criaram-se então duas existências bem diversas, mas igualmente duras e desconfortadas; a do comendador ao lado da filha, e a de Teresa à mercê dos cuidados mercenários de um hoteleiro.
A esposa faz muita falta ao homem em qualquer situação da vida, mas essa falta só toma um caráter verdadeiramente perigoso e lamentável, quando o homem tem uma filha. E principalmente se a filha for da idade de Olímpia e, como esta, tiver um caráter impressionável e romanesco.
Os pequeninos serviços domésticos, os cuidados do lar, os desvelos para com o dono da casa, os quais exercidos por uma esposa, feitos de mulher a marido, são destinados a prendê-los de parte a parte, a identificá-los cada vez mais e a torná-los indispensáveis um para o outro; tudo isso que, entre um casal, significa virtude e garantia de felicidade, uma vez arrancado das mãos da esposa, para ser confiado às de uma filha, se converte em elemento de efeitos diametralmente opostos.
O que servia para chamar a consciência da mulher aos seus deveres, só serve, no outro caso, para desencaminhar a delicada ingenuidade da filha, chegando até a lhe desvirtuar o pudor.
O comendador Ferreira, à semelhança de muitos pais, viúvos ou separados da mulher, entregou à filha a direção da sua casa.
Foi então que ela viu pela primeira vez o homem a quem veio a esposar: o caixa da casa Paulo Cordeiro, o tal Gonçalves, vítima de Pedro Ruivo no roubo dos vinte contos; homem forte, trabalhador, econômico, senhor de boas economias e apenas com trinta e tantos anos de idade.
Olímpia o encontrou em casa de um velho amigo do pai, um conselheiro dessa época. O Gonçalves ficou logo muito impressionado por ela; Olímpia tocou e cantou. No dia seguinte ele fez uma visita ao comendador. No primeiro domingo voltou e aceitou o convite para jantar. Daí a quinze dias pediu a moça em casamento.
A filha do comendador consentia, sem repugnância, mas também sem o menor entusiasmo. O comendador estava no mesmo caso, permitia por não ter outro remédio; o Dr. Roberto havia declarado que Olímpia, se não tratasse logo de casar, podia vir a padecer muito dos nervos, e então seria mais difícil combater a moléstia.
Todavia esse casamento estava destinado a transformar a casa do comendador e o caráter de Olímpia.
Gonçalves iria morar com o sogro, fazendo assim a vontade ao comendador, que não queria separar-se da filha por coisa alguma deste mundo.
Maior que fosse a família, havia lugar de sobra no preventivo casarão de Botafogo.
O velho, sobre estar muito agarrado ao seu canto, vivia ultimamente aborrecido e enfermiço. A própria filha, de algum tempo àquela parte, não parecia tomar pelo pai o mesmo afetuoso interesse com que dantes lhe arrimava os dissabores e as desilusões. Andava distraída; não tinha as alegrias da sua idade, fugia das amigas, poucas vezes saía de casa, e mesmo assim quase sempre para visitar Teresa. Só os romances franceses e, às vezes, o piano, conseguiam prendêla por mais algum tempo. Não lhe falassem em festas, passeios e ajuntamentos.
O comendador chamou sobre ela a atenção do Dr. Roberto. Esse declarou que tudo aquilo desapareceria com o casamento.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.