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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Recebeu no dia seguinte uma carta de Ângela; era a segunda que ela escrevia ao filho depois da morte do marido.

Já na primeira lhe suplicava que a fosse ver, logo ao entrar das férias, pois agora estava muito só e acabrunhada de desgostos; além disso, os seus padecimentos se agravavam. Amâncio que se não demorasse; a infeliz tinha para si que a presença do filho substituiria com vantagem todos os remédios da botica.

Na segunda carta ainda se mostrava mais impaciente e mais aflita pelo rapaz. Falava até no receio de morrer sem abraçá-lo, caso Amâncio não se apressasse a ir em seu socorro.— A presença dele tornava-se precisa , mesmo com referências aos interesses do inventário; por quanto D.Ângela começava a desconfiar do Silveira, que não fazia outra coisa senão lhe pedir dinheiro e mais dinheiro para as tais custas.— Enfim, por todos os motivos, era urgente que Amâncio desse, quanto antes, um pulo ao Maranhão.

Amelinha, que já não ficara muito tranqüila com a primeira carta, assustou-se deveras quando o amante lhe mostrou a segunda .

— Eu não consinto nesta viagem! Disse-lhe terminantemente.

— Mas não vês que se trata de um caso urgente, que se trata de defender meus interesses, que se trata de salvar a vida de minha mãe?...Ou queres tu que eu a mate, hein?...

— Amélia não tinha nada quer ver com isso!...A sua questão resumia-se no seguinte: “Dera-se a um homem, porque o amava e porque se supunha amada por ele; esse homem a possuiu como bem quis, gozou-a como muito bem entendeu, e, um belo dia, talvez por já estar farto, resolvia meter-lhe os pés e pôr-se ao fresco!...” Boas! Não havia de ser com ela! Amâncio que não caísse em semelhante asneira, porque então veria o bom e o bonito! Quem o afiançava era “a Amelinha dos camarões”!

— Mas, filha, que queres tu que eu faça?...Bem vês que esta viagem ao Norte é inevitável!

— Pois então vamos juntos...Casa-te primeiro comigo!

A idéia foi tão intempestiva que o estudante respondeu com uma gargalhada. Mas o demônio da rapariga, tornando às boas de repente, saltou-lhe ao pescoço e disse-lhe, entre beijos:

— E por que não?...Por que não te casa logo comigo, meu amor?...

— Porque era impossível!...explicava ele. “Casar não é casaca” Era muito cedo para cuidar nisso!...Primeiro tinha de formar-se, praticar algum tempo em Paris, e depois então...sim senhor, não dizia o contrário e havia de ser o mais empenhado em que a coisa se realizasse! Mas por ora...”Deus nos acuda!” era até loucura pensar em semelhante história!...

Amélia fez-se logo de mau humor; vieram os remoques e o s reviretes do costume, houve palavras duras de parte a parte e, afinal, como estabelecido imposto de reconciliação, ficou assentado que Amâncio arranjaria mobília nova para o chalezinho das Laranjeiras.

E o rapaz lá foi comprar os trastes.

Dois dias depois, realizava-se a terceira mudança. O Dr. Tavares, o último hóspede da famigerada Mme. Brizard, pagou a sua última conta e recebeu da francesa um abraço de despedida.

— Ah! suspirou elas. — Até que enfim se podia descansar um pouco! Já não era sem tempo!

O chalezinho de Amélia ficou muito catita; parecia um ninho de noivos. Estava a pedir lua-de-mel!

A cachorra da pequena tinha gosto. Exigiu tapetes, espelhos, cortinas de chita indiana para a sala de jantar, cortinas de renda para a salas de visitas; quis moldura dourada nos quadros, estatuetas pelas paredes; não dispensou nos aparadores e nos consolos jarras de porcelana das mais à moda; jardineiras aqui e ali, vasos caprichosos com begônias e tinhorões sobre a mesa de jantar; cestinhas artísticas, com para sitas, para dependurar nas janelas; e ainda fez substituir na cozinha, nos arranjos da comida e no arranjo dos quartos, tudo aquilo que lhe parecia em condições de reformas.

E só com essas coisas e só com a satisfação de tanta exigência é que Amâncio conseguia paliar as revoltas da amante. O desgraçado já não tinha ânimo de contrariá-la, porque bem conhecia o preço das rezingas e, sem achar meio de reagir, via claramente que as reconciliações se tornavam mais caras de dia para dia.

* * *

Entretanto, depois da mudança, o amor dos dois tomou um caráter mais digno e decente. Já não era necessário que a rapariga andasse à noite em ponta de pés pela casa, tateando a escuridão para ir ter com o seu homem. agora dormiam à vontade, com as portas bem fechadas por dentro.

E só se despregavam do lado um do outro, quando tinham que abandonar o quarto. Então, cada um se servia da porta competente: Amélia tomava a da varanda e Amâncio a da sala de visitas!

Não podiam desejar melhor!

(continua...)

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