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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

— O amante, prosseguiu a madrasta, também não satisfaz, porque não nos pode dar o que constitui a nossa melhor felicidade em questões de amor. O marido velho está em uma extremidade, o amante está na outra; não podem atingir ao meio termo, o centro calmo de um amor legitimo, digno e completo, que é onde encontramos a verdadeira ventura, o gozo plácido e duradouro da existência. Só um marido moço, amigo, com o seu destino ligado ao nosso, a sua dignidade entrelaçada com a nossa dignidade, pode colocar-se nesse meio termo ideal. É preciso que os dois caminhem de mãos dadas para a velhice, unidos, seguros; o seu amor deve ir custodiado, como um perfume sutil e precioso que se pode derramar pelo caminho. E isso só se consegue com o casamento proporcionado. Ao contrário, no melhor da viagem, um deixará o Outro no meio da estrada. O amante não pode sequer compreender o valor dessa afeição solidária, útil e sem transportes; ele nada arrisca, nada compromete no seu amor, para desejar conservá-lo puro e digno. A idéia de que o marido consiga agradar à mulher com as suas ternuras, é o bastante para levá-lo a imaginar meios e modos de suplantar o rival e, como o jogador que arrisca sobre a mesa os capitais alheios, comete o que o marido nunca teria ânimo de fazer. O que vier é lucro! Por outro lado, as circunstâncias que o trazem afastado da amante, lhe facultam acumular por um mês, dois, e às vezes por mais tempo, a porção de ternura que o marido vai diariamente dispensando à mulher em doses pequenas; de sorte que, na ocasião de se apresentar, gasta brilhantemente, em uma só entrevista, tudo o que o outro consome durante um prazo longo. As mulheres, em geral, deixam-se iludir com isso e supõem o amante muito mais amoroso que o marido; não se lembram, as desmioladas, que só o fogo lento é suscetível de duração. O amante tem chama penódica como os vulcões; o marido conserva constantemente aceso o modesto braseiro do lar, o lume da sua casa.

Teresa acrescentou depois:

— Não te cases com um velho, minha querida Olímpia; mas, se porventura vier a suceder-te tamanha desgraça, nunca procures remediar esse mal com o mal muito maior de adotares um amante. O homem que é capaz de aceitar semelhante papel, não é digno da nossa menor estima, porque o fato de ser amante de uma mulher casada já é prova irrecusável de deslealdade e de falta de caráter...

Nisto foi interrompida pelo Dr. Roberto que vinha visitá-la.

O médico achou-a mais abatida e gravemente pior, segundo o que disse depois Olímpia.

O comendador recebeu essa noticia sem lhe dar a menor importância. E quando, à noite, Olímpia insistiu com ele para que fosse fazer uma visita à Teresa, o velho respondeu asperamente que não, esquecendo-se por um instante do modo carinhoso por que costumava tratar a filha.

Dois dias depois o Dr. Roberto declarou que Teresa precisava mudar de ares; e a enferma mudou-se para um hotel que se acabava de abrir no morro da santa de seu nome. Foi só; o marido não a quis acompanhar.

Olímpia iria ter com ela de vez em quando.

O comendador mostrava-se cada vez mais diferente; todavia não pôde esconder o abalo que lhe causou a figura transformada da mulher, quando a viu aparecer, pelo braço de Olímpia e de uma escrava, para tomar o carro.

Ele não a teria reconhecido em outro lugar. Estava completamente desfeita; os olhos mortos, a pele de uma palidez cadavérica, o ar cansado e aflito, os cabelos embaraçados e ressequidos pela febre. Não podia quase andar, arrastava os pés inchados, e gemia, a tomar respiração com muita dificuldade.

Ao passar perto do marido, ela o cumprimentou, procurando dificilmente transformar a expressão agoniada do rosto em um sorriso de amabilidade, mas teve logo de cortar o sorriso com um gemido doloroso.

O comendador avançou automaticamente dois passos e procurou ajudá-la.

— Não se incomode! murmurou ela. Eu vou bem!...

E continuou a manquejar, gemendo ofegante.

Nessa ocasião chegava um caixeiro da casa do Figueiredo, que o comendador mandara pedir para acompanhar Teresa ao hotel.

Era o João Rosa; teria nesse tempo uns quatorze ou quinze anos. Já denunciava porém o que havia de ser para o futuro; cintilava-lhe nos olhos de criança a cobiça adquirida em contato com os companheiros de trabalho. Era amarelo, seco, com a cabeça grande demais para o corpo, a boca apertada, o nariz grosso, o cabelo cortado à escovinha, unhas e dentes sujos. Passava por muito esperto e aproveitável: os patrões gostavam dele.

— Acompanhe essa senhora ao lugar aí indicado, disse-lhe o comendador, passando-lhe um cartão com o número e o nome do hotel.

E acrescentou-lhe em voz baixa, de modo que a mulher o não ouvisse:

— Demore-se um pouco às ordens dela; pergunte-lhe se precisa de alguma coisa e, dado este caso, comunique-me o que for. Não despeça o carro; se houver qualquer novidade, meta-se nele e venha logo falar comigo. Tome lá para alguma despesa imprevista.

Entregou-lhe uma nota de cinqüenta mil réis.

João Rosa guardou o dinheiro e despediu-se do comendador com uma mesura humilde.

— Viva! respondeu este; e recolheu-se ao quarto, inalteravelmente, como sempre, teso, limpo, bem penteado.

(continua...)

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