Por José de Alencar (1875)
- Veja a Lísia como está saboreando o meu vexame de não saber valsar, e o fiasco que me espera? Demais...
Sua voz teve uma note vibrante.
- Demais, o senhor pode pensar que tenho medo.
Aurélia pousara a mão no ombro do marido, e imprimindo ao talhe um movimento gracioso e ondulado, como o arfar da borboleta que palpita no seio do cacto, colocou-se diante de seu cavalheiro e entregou-lhe a cintura mimosa.
Era a primeira vez, e já tinham mais de seis meses de casados; era a primeira vez que o braço de Seixas enlaçava a cintura de Aurélia. Explica-se pois o estremecimento que ambos sofreram ao mútuo contato, quando essa cadeia viva os prendeu.
Balançava-se o airoso par à cadência da música arrebatadora; e todos os admiravam, menos Lísia Soares que ralava-se de despeito ao ver a silfidez e graça com que Aurélia valsava, triunfando, quando ela esperava humilhá-la.
Aurélia tinha nessa noite um vestido de tule cor de ouro, que a vestia como uma gaze de luz. Com o voltear da valsa, as ondas vaporosas da saia e a manga roçagante do braço que erguera para apoiar-se em seu par, flutuavam como nuvens diáfanas embebidas de sol, e envolviam a ela e ao cavalheiro como um brilhante arrebol.
Parecia que voavam ambos arrebatados ao céu por uma assunção radiosa.
A cabeça de Aurélia afrontara-se, atirada para o ombro com um gesto sobranceiro e
uma expressão provocadora, que por certo havia de desairar outro semblante, mas tonha no seu uma sedução irresistível e uma beleza fatal e deslumbrante.
Nunca se fixou na tela, nem se lavrou no mármore, tão sublime imagem da tentação, como aí estava encarnada na altivez fascinante da formosa mulher.
Aos primeiros compassos principiou este rápido diálogo, cortado pelas evoluções da dança:
- Não sei valsar devagar.
- Pois apressemos o passo.
- Não lhe tonteia?
- Não; a cabeça é forte.
- E o coração?
- Este já calejou.
- Pois eu sou o contrário.
- O coração?
- Nunca vacilou.
A moça continuara soltando frases intermitentes.
- A cabeça é que é fraca. – Mas que singularidade! – Em tudo sou esquisita! – Devagar é que tonteio. – A casa roda em torno de mim. – Depressa não. – Quanto tudo desaparece... – Quando não vejo mais nada... – Então sim! – Então gosto de valsar! – E posso valsar muito tempo!
Passavam perto da música. Seixas disse ao regente da orquestra:
- Apresse o compasso!
O arco do regente deu o sinal.
- Mais! disse Aurélia.
Amiudaram-se as pancadas do arco.
- Ainda mais! ordenou a moça.
O arco sibilou. Os instrumentos estrepitara,; as notas despenhavam-se não em escalas, mas em borbotões.Não era mais valsa de Strauss; era um turbilhão musical, um pampeiro como saía das mãos inspiradas de Liszt.
O lindo par arrojou-se, deixando a trotar classicamente os outros que não podiam acompanhar aquela torrente impetuosa. Obscurecia-se a vista que buscava acompanhá-lo; ele passava nublado por aquela espécie de atmosfera oscilante, que a velocidade da rotação estabelecia em torno de si.
Aurélia cerrara a meio as pálpebras; seus longos cílios franjados, que roçavam o cetim das faces, sombrearam o fogo intenso do olhar, que escapava-se agora em chispas sutis, e feriam o semblante de Seixas com os rútilos de uma estrela.
A valsa é filha das brumas da Alemanha, e irmã das louras valquírias do norte. Talvez sobre essas regiões do gelo, com os doces esplendores da neve, o céu derrame alguma da serenidade e inocência que fruem os bem-aventurados; talvez que os povos da fecunda Germânia, quando vão ao baile, mudem o temperamento com que marcham à guerra, e façam correr nas veias cerveja em vez de sangue.
A ser assim, pode a valsa ter naqueles países as honras de uma dança de sala. Em outra latitude, deve ser desterrada para os bailes públicos, onde os homens gastos vão buscar sensações fortes, que o ébrio pede ao álcool.
(continua...)
ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.