Por Aluísio Azevedo (1882)
O MARIDO DE OLIMPIA
O comendador levantou-se da moléstia pelos braços da filha e da esposa. Olímpia havia triunfado: o pobre doente consentira em receber de novo a leviana. Mas, ah! nunca mais lhe dispensou a mesma ternura dos outros tempos; tratava-a agora com cerimoniosa indiferença, quase com desprezo; apenas a suportava convertera na sua única preocupação e no seu único afeto. Não gostava até que lhe falassem da mulher, poucas vezes a via e, quando se encontravam juntos à mesa, não trocavam entre si sequer um olhar.
Ela, entretanto, muito se transformara depois da partida do cúmplice. já não ostentava os mesmos gostos e as mesmas inclinações; parecia indiferente às festas e aos passeios; não caprichava na escolha das roupas e saia poucas vezes de casa. Vivia triste, concentrada; estava muito mais magra, porém aparentemente resignada. Ninguém lhe ouvia uma queixa contra o marido; agora ao contrario, parecia procurar descobrir-lhe as intenções, as mais pequeninas vontades, para correr a satisfazêlas; adivinhava-lhe os desejos, armava-lhe boas surpresas e mostrava-se para com ele de uma solicitude e de uma amabilidade de que nunca dera exemplo em outras épocas.
Mas o comendador afetava não atentar para isso; recebia os obséquios que vinham da mulher com a mesma indiferença com que ouvira falar de qualquer assunto que absolutamente lhe não dissesse respeito. Não a contrariava, não desdizia, não a aconselhava, se ela quisesse sair, que saísse; se quisesse ficar em casa, que ficasse; se quisesse morrer, que morresse! Para ele era tudo a mesma coisa; contanto que lhe deixassem a sua querida, a sua adorada Olímpia.
Para esta, sim, tinha o comendador bons sorrisos, palavras afetuosas e rasgos de amizade. Sempre que entrava em casa perguntava logo por ela e nunca saía sem receber um beijo dos seus lábios finos e perfumados.
Assim se passaram seis meses.
Um dia Olímpia comunicou-lhe que a madrasta estava doente.
— Sim? resmungou o pai. E continuou a falar do assunto de que tratava.
— Oh! disse a menina. Há dois dias!... Pois papai não vê que ela não tem vindo à mesa?...
— Não reparei, afirmou o velho secamente.
— E por que não lhe vai fazer uma visita?... perguntou Olímpia, ameigando-
o. Ela havia de estimar tanto, coitada!...
Sim, sim, eu hei de lá ir, prometeu ele para contentar a filha.
Mas três dias se passaram depois da promessa, sem que o comendador aparecesse no quarto da mulher.
— Antes me castigasse de outro modo! disse esta à enteada em continuação a uma conversa. Nunca pensei que teu pai fosse tão pacificamente mau! Estou arrependida de ter aqui voltado, crê!
Olímpia não se animou a objetar uma palavra em defesa do comendador.
— Sei que mereço censura, acrescentou a enferma, com a voz fraca e infeliz; sei que cometi uma grande falta, mas a minha conduta de então para cá devia obter o seu perdão. Ele vê perfeitamente que estou bem arrependida, por que então nesse caso não me trata de outro modo?... Oh! eu me sinto triste com a idéia da sua vingança, e, todavia, precisava agora, mais que nunca, de desvelos e de amparo... Estou doente, sinto que estou muito mal, por que pois ele me não vem ver?... por que não me vem dar duas palavras de piedade?... Isso não seria também tão grande sacrifício... seria uma simples obra de misericórdia...
E, depois de fitar por algum tempo um mesmo ponto, com as mãos entre as de Olímpia, disse-lhe sem transição:
— Nunca te cases senão com um homem de idade proporcionada à tua... Não cometas nunca semelhante leviandade! Por melhor que seja o teu caráter, por mais perfeito que seja o teu coração, por mais senhora que fores do teu temperamento, dos teus desejos e das tuas aspirações, nunca darás uma esposa perfeita, se ao teu casamento não presidirem, o amor em primeiro lugar, depois a harmonia completa de idades, de espirito, de bens e de educação. Não calculas o inferno em que vive uma mulher moça casada com um velho! Não é simplesmente o fato de lhe não dar o marido o amor de que ela precisa para viver, mas também a desgraçada circunstância de que esse casamento a inutiliza de todo para o amor de qualquer outro homem!
Olímpia ouvia as palavras da madrasta com os olhos muito abertos e a fisionomia transbordante de curiosidade. Era a primeira vez que Teresa se queixava do comendador e deixava transparecer francamente o azedume dos seus desgostos.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.