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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Amâncio sorriu.

— Ora Deus queira que não tenhamos de nos arrepender!... acrescentou o outro.- E, àquela roupa, podes rezar-lhe por alma... o ali cai, fica!

O provinciano afastou-se sem responder e lamentando interiormente que, logo nessa tarde, não estivesse em casa o eloqüente Dr. Tavares, que seria uma excelente perna dos brindes da sobremesa.

Mandaram-se vir dois carros. Num iria o Coqueiro mais a família e no outro Amâncio com os dois amigos.

Partiram às oito horas, alegremente, num alvoroço gárrulo de festa. Mme Brizard dera toda força à sua elegância: atirou-se ao decote, pôs a pedraria ainda do tempo do primeiro marido, e exibiu aquele rico pescoço, “que ela não trocava pelo de ninguém”!

Amelinha estreou um belo vestido de escumilha azul que lhe dera o amante. No seu colo, cor de camélia fanada, assentavam muito bem as pérolas e os rubis; seus braços, levemente dourados de penugem, sabiam, no meio da confusão caprichosa das rendas valencianas, fazer tilintar com graça os braceletes que se enroscavam nas compridas e transparentes luvas de retrós. A cunhada, ao vê-la sair do quarto, dissera:

— Não parece uma brasileira!... Tão linda está!

* * *

Foram recebidos com transportes de júbilo por toda a família do negociante. Campos entregou a casa ao festejado, “que a este competia, naquela noite, obsequiar às pessoas presentes; fazer as honras da copa e da mesa; promover quadrilhas e prender as moças até pela manhã. Era o dono da festa, que se arranjasse!”

Amâncio tomou posse do cargo, sem caber em si de contente. Muito o sensibilizava tudo aquilo que, de qualquer modo, lhe pudesse afagar o amorpróprio.

E em suas mãos a festa tomou um caráter assustador: o pianista não tinha tempo para fumar um cigarro; os convidados eram constrangidos a beber nos intervalos da dança e a dançar nos intervalos das libações. Paiva Rocha e o Salustiano, a despeito de todas as suas garantias de filósofos, intransigentes e péssimos dançadores, tiveram de entrar, por mais de uma vez, nas intermináveis contradanças.

Ao inverso do que pressagiara o Coqueiro a respeito destes dois, tanto um como o outro se houveram admiravelmente. Ninguém melhor que eles para respeitar senhoras; um espesso acanhamento os encascava e tolhia, que nem a concha ao molusco. Salustiano, principalmente, estava mais tenro e inofensivo que uma criança; na quadrilha, mal ousava erguer os olhos para sua dama e, querendo ser muito delicado, apenas lograva, com os exageros da cortesia, trair a sua nenhuma freqüência nas salas.

Para os intimidar bastava as cerimoniosa presença de senhoras de boa sociedade. Aqueles dois pândegos, tão céticos em teoria a respeito da mulher, ali, governados pelo meio, eram os homens mais tolerantes deste mundo; seriam capazes de defender a existência de Deus ou do diabo, se elas o entendessem. Fato é que o dono da casa gostou deles em extremo e pediu-lhes que aparecessem aos domingos, uma vez por outra, para jantar.

A festa correu sempre animada até as três horas da manhã, quando Amâncio convidou as senhoras a tomar lugar na mesa. Ao desrolhar do champanha, ergueuse este resolutamente e exigiu que o acompanhassem num brinde.

Abstiveram-se da bulha, e o estudante grupou em torno do nome inteiro do Campos todo o velho arsenal de retórica aplicável à situação. Em substância nada afirmou, mas a sua palavra sonora e cheia; as frases gorgolhavam-lhe dos lábios com essa verbosidade oca e retumbante que se observa nos filhos do Norte do Brasil, e que, aliás, tem valido a muitos posição eminente na política. Aquela voz, estalada e aberta, ferindo as vogais, tinha um sabor muito picante de ironia, vibrava no ar como uma flecha selvagem e feria os tímpanos como um insulto inverso.

As damas interessaram-se pelo discurso e alguns homens o ouviram sem pestanejar. E todos eram de acordo que Amâncio estava talhado para o Direito e que havia de fazer “uma brilhante figura”, quer na advocacia, quer na política, se por acaso abraçasse uma dessas carreiras.

— É rapaz de talento!... diziam já as senhoras cochichando.

— A mim comoveu tanto o demônio do moço, que chorei!... segredou uma quarentona de chinó, que passava entre os conhecidos por mulher de maus bofes.

E principiaram a olhar com uma certa submissão para o esperançoso Amâncio.

E, com efeito o seu tipo nervoso e moreno de nortista, o seu modo semcerimônia de abrir muito a boca, mostrando num gesto de pasmo a dentadura, o desembaraço de sua gesticulação, sempre que entornava para dentro um pouco mais de vinho, e principalmente o metal daquela voz enfática e encrespada pelo tal sotaque da província; tudo isso, sem dúvida alguma agradava depois de uma boa ceia, quando cada um não exige de ninguém senão que lhe deixem tomar me paz o seu café e lhe permita acender o seu charuto.

(continua...)

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