Por Aluísio Azevedo (1882)
Teresa ficou só, à espera, com o chapéu na cabeça, a capa nas costas, imóvel, como se estivesse muito empenhada em observar os objetos que tinha defronte dos olhos. E, sem querer, começou a calcular o efeito da sua aparição ao lado do marido; via-se toda confusa a fazer-lhe festinhas, a consolá-lo do que havia sucedido, a adulá-lo. E, ainda sem querer, começou a considerar como devia entrar, se depressa ou vagarosamente; se devia deixar embaixo o chapéu e apresentar-se inalterável, como se não houvesse a menor novidade; ou se deveria entrar com espalhafato, fingindo indignação por qualquer coisa; se devia não dar palavra ao marido e esperar que tudo voltasse por si mesmo aos seus eixos, ou se devia lançar-se-lhe aos pés e pedir-lhe perdão com palavras ardentes, com soluços e gestos teatrais.
Mas antes de chegar a qualquer conclusão, já a criada voltava a dizer-lhe apressadamente da porta:
— Agora! Agora! Passe agora. Ande! Não há ninguém na varanda! Suba e vá para o seu quarto!
Teresa cumpriu aquela ordem, como se a recebesse de um superior.
Ligeiro! gritou-lhe Rosa, assim que ela atravessou a cozinha e ganhou a escada. E logo que a viu desaparecer, espocou uma risada surda e soltou entre dentes uma exclamação injuriosa.
Depois, muito satisfeita com aquele episódio que humilhava a senhora, entrou no seu quarto, donde acabava de sair Teresa, e principiou por desfastio a arrumar os objetos sobre os móveis e a cantar em voz alta, com desembaraço, uma chula sua favorita.
Quando saiu do quarto, disse "Ai ai!" e subiu a escada lentamente, com maneiras de dona de casa.
Teresa não apareceu à mesa, almoçou nos seus aposentos, esperando que Olímpia deixasse a cabeceira do pai, para então apresentar-se ela.
Mal, porém, havia feito a refeição, soaram duas pancadinhas à porta. A leviana retraiu-se.
— Sou eu, abra, disse de fora uma voz amiga. Era Olímpia.
Teresa corou; a outra, porém, passando-lhe um braço na cintura, beijou-a na face.
A madrasta estranhou muito aquela inesperada amabilidade. A enteada fora sempre muito seca para com ela; e a sua surpresa cresceu, quando a filha do marido começou a declarar que estava muito aflita, receando que mãezinha não voltasse, e que desejava ser a primeira a dar ao pai a boa notícia da sua chegada.
— Não! disse Teresa; ele deve estar muito zangado comigo... o melhor é esperarmos que...
— Qual! eu obtenho de papai o que bem quero... Hei de falar-lhe por tal modo a seu respeito, mãezinha, que ele nem só a receberá de braços abertos, como ainda me ficará reconhecido.
— Não; é melhor esperar. Talvez que a minha presença agora lhe faça mal...
— Nesse caso vou consultar primeiro o Dr. Roberto! lembrou a outra com um repente de menina esperta.
— Está doida! Meter nisto um estranho?!...
Mas Olímpia afiançava que havia de arranjar tudo. E, com crescente surpresa da outra mostrava-se cada vez mais interessada pela madrasta. Não parecia a mesma; aquela falta ridícula e censurável de Teresa, longe de lhe produzir indignações, como era de esperar, despertava nela estranhas simpatias e inexplicáveis condolências.
Entretanto, Olímpia fazia tudo isso sem compreender bem por quê. Teresa ganhava a seus olhos certa auréola de poesia e sofrimento; a sua penosa situação dava-lhe, aos olhos da romântica menina, uns tons sedutores de heroína de romance; sem prever a pobre criança que, toda essa desordem moral e toda essa desorganização doméstica, haviam fatalmente de influir na sua própria educação e determinar, mais tarde, os lamentáveis sucessos de que já o leitor tem notícia desde as primeiras cenas da Avenida Estrela.
Nenhuma lição é tão poderosa como a do exemplo. Filtra-se ela pelo nosso espírito sem que o sintamos; e ela nos invade, nos conquista, nos possui totalmente, sem que possamos determinar ao certo qual foi o fato, o acontecimento que em nós estabeleceu este ou aquele sintoma, esta ou aquela inclinação, sem que possamos dizer o que foi que nos trouxe tal vício, tal idiossincrasia, tal propensão boa ou má. Tudo mais, que aprendemos de ouvido ou que aprendemos nos livros, se evapora com o tempo e desaparece; só essas lições, que nos entraram pelos olhos e nos espalharam na alma as suas raízes, só essas conservaremos por toda a vida e levaremos conosco para a sepultura.
Teresa, sem que ela fosse responsável por isso, não por maldade, mas unicamente em conseqüência das circunstâncias especiais do seu temperamento, da sua má educação e da desproporção de sua idade com a do marido, havia fatalmente de ser um elemento de corrupção ao lado de Olímpia.
A filha do comendador beijou ainda uma vez a madrasta, e saiu, com destino ao quarto do pai. Ia sondar em que disposição de espírito se achava ele para receber a mulher.
O pobre homem permanecia estendido na cama. Tinha os olhos cerrados, mas não dormia, porque os abriu logo que a filha pisou na alcova com o seu andar sutil de ave impúbere.
CAPÍTULO XXV
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.