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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Uma ocasião, deitado ao pé da janela de seu quarto, pensava em “Graziella”.

A tarde precipitava-se no crepúsculo e enchia a natureza de tons plangentes e doloridos. A um canto da rua um italiano tocava uma peça no seu realejo. Era a Marselhesa.

Amâncio conhecia algumas passagens da revolução de França :lera os Girondinos de Lamartine. E a reminiscência do sentimentalismo enfático dessa obra, coada pela retórica poderosa da música de Lisle, trouxe-lhe aos nervos um sobressalto muito mais veemente que das outras vezes.

Julgou-se infeliz, sacrificado nas suas aspirações, no seu ideal. Precisava viver, gozar sem limites!...Não ali, perto da família, estudando miseráveis lições do Liceu, mas além, muito além, onde não fosse conhecido, onde tudo para ele apresentasse surpresas de que sua imaginação mal podia delinear.

Por isto estimou deveras ter de seguir para o Rio de Janeiro. A Corte era “um Paris”, diziam na província, e ele, por conseguinte, havia de lá encontrar boas aventuras, cenas imprevistas, impressões novas, e amores, — oh! amores principalmente!

E, com efeito, desde que pôs o pé a bordo, principiou a gozar de novidade, produzida no seu espírito pela viagem.

A circunstância de achar-se em um paquete, sozinho, ouvindo o ronrom monótono da máquina e sentindo, como nos romances, as vozes misteriosa dos elementos sussurrarem à volta de seus ouvidos — encantava-o .Prestava muita atenção aos mais pequeninos episódios de bordo: olhava interessado para a grossa figura dos marinheiros que baldeavam pela manhã o tombadilho, a dançar com a vassoura aos pés; estudava o tipo dos outros passageiros, procurando descobrir em cada qual um personagem de seus livros favoritos; ao abrir e fechar das portas dos camarotes, espiava sempre, e às vezes lobrigava de relance, ao fundo do beliche, uma figura pálida , ofegante, toda descomposta na imprudência do enjôo.

Ele é que nunca enjoava. À noite ia fumar para a tolda, estendido sobre um banco, as pernas cruzadas, os olhos perdidos pelo oceano.

Vinham-lhe então as nostalgias da província; o coração dilatava-se por um sentimento morno de saudade. Via defronte de si o vulto carinhoso de sua mãe, a chorar, com o rosto escondido no lenço, o corpo sacudido pelos soluços.

Quanto não custou à pobre mulher separar-se do filho?...Que violência não foi preciso para lho arrancarem dos braços!foi como se pela Segunda vez lho tirassem a ferro das entranhas.

Antes mesmo da partida de Amâncio, muito sofrera a mísera com a idéia daquela separação. Pensava nisso a todo instante, sem se poder capacitar de que ele devia ir, atirado a bordo de um vapor, tão sozinho, tão em risco de perigos. “Oh! era muito duro! Era muito duro!... ”Mas Vasconcelos opunha-lhe argumentos terríveis: — O rapaz precisava fazer carreira, Ter uma posição! Não seria agarrado às saias da mãe que iria pra diante! Há muito mais tempo devia Ter seguido — o filho de fulano fora aos quinze anos; o de beltrano com vinte e três, e Amâncio já tinha vinte. Ia tarde! Ângela que se deixasse de pieguices. Justamente por estimálo é que devia ser a primeira a querer que ele fosse, que se instruísse, que se fizesse homem! Além disso o rapaz a poderia visitar pelas férias, nem sempre, mas de doeis em dois anos.

Ângela parecia resignar-se com as palavras de Vasconcelos; fazia-se forte jurava que “não era egoísta “ que “não seria capaz de cortar a carreira de seu filho”; mal, porém o marido lhe dava as costas, voltava-lhe a fraqueza: vinham-lhe as lágrimas, tornavam as agonias. Por vezes, no meio do jantar, enquanto os outros riam e conversavam, ela, que até aí estivera a pensar, abria numa explosão de soluços e retirava-se para o quarto, aflita, envergonhada de não poder dominar aquele desespero. Outras vezes acordava por alta noite, a gritar, a debater-se, a reclamar o filho, a disputá-lo contra os fantasmas do pesadelo.

No dia da viagem não se pôde levantar da cama, tinha febre, vertigens; a cabeça andava-lhe à roda. E não queria mais ninguém perto de si, além do filho, só ele! “Não a privassem de Amâncio ao menos naquele dia! “E tomava-o nos braços, procurava agasalhá-lo ao colo, como fazia dantes, quando ele era pequenino. Afagava-lhe a cabeça beijava-lhe de novo as mãos, os olhos, o pescoço, envolvia-o todo em mimos, como, se, na santa loucura de seu amor, imaginasse que eles lhe preservariam o filho contra os escolhos da jornada e contra os futuros perigos que o ameaçavam.

— Minha pobre mãe!...suspirava Amâncio no tombadilho, derramando o olhar lacrimoso pela inconstante planície das águas. — Minha pobre mãe!...

(continua...)

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