Por José de Alencar (1878)
— Ao jantar reproduziram-se todas estas circunstâncias que referi. A cadeira continuou vazia, sem a menor observação do dono da casa, e o talher de estado foi ainda servido duas ou três vezes. Cresceu, porém, a minha surpresa, quando na ocasião de tomarmos café, Carlos, continuando a conversa, proferiu o nome da mulher, mas de modo que parecia indicar a sua presença.
Amália deu uma risada.
— Não é romance, então. É um conto fantástico!...
— Estou referindo fatos de vida real. A senhora lhes dará o título que for mais do seu agrado.
— Bem; vamos ao resto. Eu gosto mais deste gênero. Tem sua novidade.
— Como lhe disse, passei algum tempo na companhia de Carlos; e do que observei depois, assim como de umas revelações a custo obtidas do Abreu, compreendi o que a princípio me pareceu estranho.
— Ou por outra, compreendeu o incompreensível.
— Para aquele marido, a mulher que ele amou estremecidamente ainda habita a casa, que ela enchia de sua graça e de sua ternura. Ele a sente perto de si, a seu lado, nas horas em que trocavam suas mútuas expansões, e nos lugares que ela preferia.
— É poético e sublime, não se pode negar.
— Os aposentos particulares de D. Julieta estão da mesma forma por que ela os deixou. Não há ali a menor mudança; os mesmos trastes, os mesmos objetos, e cada um como ela os colocara. Ninguém ali penetra senão Carlos e o Abreu. Esse criado velho adorava a menina, que ele trouxe nos braços desde o dia de seu nascimento. Também para ele, a dona da casa ainda vive, e governa o interior.
— Temos, pois, aqui na vizinhança um hospital de doidos! atalhou Amália.
—Não me entendeu.
— Ora, seriamente, doutor, o senhor comprometeu-se a si e ao seu sexo. Obrigou-se a apresentar um modelo de fidelidade conjugal, e só o pôde encontrar como enfermidade. Confesse: a constância de seu amigo é apenas uma mania, e o senhor não foi sincero quando, há pouco, pretendeu convencer ao Borges.
—Tão sincero como agora. Carlos não tem o menor eclipse na sua razão calma e forte.
— Mas como se chama essa alucinação?
— É uma superstição a que estão sujeitos todos os que vivem pelo espírito.
— Não sabia.
—Só não as têm os materialistas, aqueles para quem Deus é um absurdo, a pátria e a família uma comandita; gente que reduz a inteligência a um pouco de fósforo, e a virtude a uma convenção. Esses vivem fisicamente; são corpos que se transformam. Nós, porém, que nos remontamos à nossa origem divina, todos temos nossas abusões.
— Eu não as tenho.
— Tem, afirmo-lhe. Mas as suas abusões são risonhas e brilhantes; chamam-se esperanças. As suas orações também... Quantas vezes não acreditou a senhora, que Deus, o Criador do infinito, comovido por sua prece, alterava as leis do universo para enxugar-lhe uma lágrima, ou dar-lhe um sorriso? O que é isto senão uma superstição?
— Bem diversa da que tem seu amigo.
— A senhora nunca perdeu uma pessoa a quem amasse. Aqueles que já sofreram esse golpe, quando visitam o túmulo que encerra as cinzas do ente querido, acreditar que ali está alguma coisa deles, a sua sombra, a sua alma quando ali não há senão pó. É o mesmo que acontece a Carlos, com uma diferença: nos outros são os vestígios materiais, é o despojo mortal, que produz aquele efeito; nele é o espírito unicamente. O que ele sente, o que vê, é a alma da mulher.
— Chega a vê-la? disse Amália, cuja ironia nada perdoava.
— Com os olhos d'alma. O corpo nada é e nada era para ele. Desde o momento em que D. Julieta morreu, ele a abandonou como um objeto indiferente, e não teve o menor desejo de vê-la. Isso observei eu.
— Em todo caso, doutor, para fazer-lhe a vontade, convenho em que seu amigo será um homem de muito juízo, mas não aqui neste mundo; no da lua talvez.
(continua...)
ALENCAR, José de. Encarnação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2031 . Acesso em: 30 jan. 2026.