Por Martins Pena (1848)
MARIANA – Olá!
LUÍSA – Tibúrcio!...
EUFRÁSIA – Tibúrcio! É ele mesmo! Fuja, minha mãe!... (Recua.)
MARIANA – O que é?
EUFRÁSIA – Fuja, que é um pedreiro-livre! (Deita a correr para dentro.)
MARIANA, aterrorizada – Santa Bárbara, São Jerônimo, acudam-me! (Sai correndo.)
TIBÚRCIO, admirado – E esta!...
CENA XIX
JORGE, que da porta tem observado tudo, logo que MARIANA sai, corre e abraça-se com TIBÚRCIO.
JORGE – Meu Salvador! Meu libertador!
TIBÚRCIO – O que é lá isso? Temos outra?
JORGE – Homem incomparável!
LUÍSA – Mano!
TIBÚRCIO – O senhor está doido?
JORGE, abraçando-se com os pés de Tibúrcio – Deixe-me beijar seus pés, vigésima maravilha do mundo!
TIBÚRCIO – Levante-se, homem!
LUÍSA – O que é isto, Jorge?
JORGE, de joelhos – E adorar-te como o maior descobridor dos tempos modernos.
TIBÚRCIO – Não há dúvida, está doido!
LUÍSA – Doido? Faltava-me esta desgraça!
JORGE levanta-se – Pedro Alves Cabral quando descobriu a Índia, Camões quando descobriu o Brasil, não foram mais felizes do que eu sou por ter descoberto o meio de meter medo a minha sogra e a minha mulher. E a quem devo eu esta felicidade? A ti, homem sublime.
TIBÚRCIO – E é só por isso?
JORGE – Acha pouco? Sabe o que é uma sogra e uma mulher? O senhor gosta da mana?
TIBÚRCIO – Fazia tenção de o procurar hoje mesmo, para falar-lhe a este respeito.
JORGE – Quer casar-se com ela?
LUÍSA – Jorge!
TIBÚRCIO – Seria minha maior ventura.
JORGE – Pois bem, pratique com minha sogra o que eu praticar com minha mulher.
TIBÚRCIO – Como é lá isso?
LUÍSA – Que loucura!
JORGE – Quer-se casar? É decidir, e depressa.
TIBÚRCIO – Homem, se a coisa não é impossível...
JORGE – Qual impossível! Minha sogra é uma velha.
TIBÚRCIO – Por isso mesmo.
JORGE – Luísa, vai chamá-las. Dize-lhes que estou só e que preciso muito falar-lhes. E tu não apareças enquanto elas cá estiverem. Anda! (Luísa sai.)
CENA XX JORGE e TIBÚRCIO.
TIBÚRCIO – O que quer fazer?
JORGE – Saberá. Esconda-se outra vez no armário, e quando eu bater com o pé e gritar:
Satanás!, salte para fora, agarre-se a minha sogra e faça quanto eu fizer.
TIBÚRCIO – Aqui mesmo nesta sala?
JORGE – Sim, sim. E avie-se, que elas não tardam.
TIBÚRCIO – Vá feito! Como é para ao depois casar-me... (Esconde-se no armário.)
JORGE, à parte – Toleirão! Casa-te e depois dá-me novas. (Senta-se.) Hoje é dia de felicidades para mim. Achei um marido para a mana; dei com os dois tratantes no xilindró, e para coroar a obra vim a descobrir o meio de me fazer respeitar nesta casa. Ainda bem que eu tinha meus receios de encontrar-me com elas... Hão de estar danadas.
CENA XXI
MARIANA e EUFRÁSIA aparecem à porta e, receosas espreitam para a cena.
JORGE – Podem entrar.
MARIANA, adiantando-se – Podem entrar? A casa é tua?
EUFRÁSIA – De hoje em diante hás de tu e a desavergonhada da tua irmã porem os quartos na rua.
JORGE – Veremos...
MARIANA – Que desaforo é esse? Ai, que arrebento!
JORGE levanta-se e coloca-se entre as duas – Até aqui tenho vivido nesta casa como um cão...
EUFRÁSIA – Assim o merecias.
MARIANA – E ainda mais.
JORGE – Mas como tudo neste mundo tem fim, o meu tratamento de cão também o terá.
MARIANA – Agora também digo eu – veremos!
JORGE – Até agora não tenho sido homem, mas era preciso sê-lo. E o que havia eu de fazer para ser homem? (Com exaltação:) Entrar nessa sociedade portentosa, universal e sesquipedal, aonde se aprendem os verdadeiros direitos do homem. (Faz momices e sinais extravagantes com as mãos.)
EUFRÁSIA – O que quer isto dizer?
MARIANA – Ai, o que está ele a fazer?
JORGE – Estes são os sinais da ordem. (Faz os sinais.)
MARIANA – Está doido!
JORGE, segurando-as pelos punhos – A senhora tem feito de mim seu gatosapato; e a senhora, seu moleque; mas isto acabou-se! (Levanta os braços das duas, que dão um grito.) Acabou-se! Sou pedreiro-livre! Satanás!
MARIANA – Misericórdia!
(continua...)
PENA, Martins. Os Irmãos das Almas. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2161 . Acesso em: 30 jan. 2026.