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#Comédias#Literatura Brasileira

Verso e Reverso

Por José de Alencar (1857)

Ernesto — Sabes que ainda sou estudante, e por conseguinte não tenho grande abundância de dinheiro; vindo passar aqui as férias, julguei que a mesada que o meu pai me dava chegasse para as minhas despesas. Mas na corte são tantos os prazeres e divertimentos, que quanto se tenha, gasta-se; e gasta-se mesmo mais do que se tem. Foi o que me sucedeu.

Henrique — Fizeste algumas dívidas? Não é isso?

Ernesto — Justamente: procedi mal. Mas que queres? Encontrei no Rio de Janeiro uma coisa que eu não conhecia senão de nome — o crédito; hoje que experimentei os seus efeitos não posso deixar de confessar que é uma instituição maravilhosa.

Henrique — Vale mais do que dinheiro!

Ernesto — Decerto; é a ele que devo ter comprado o que precisava, sem mesmo passar pelo incômodo de pagar. Mas agora vou retirar-me para São Paulo, e não desejava que viessem incomodar meu tio, além de que seria desairoso para mim partir sem ter saldado essas contas.

Henrique — Tens razão; um homem honesto pode demorar por necessidade o pagamento de uma dívida; mas não deve fugir de seu credor.

Ernesto — Quis a princípio falar a meu tio, mas tive vergonha de tocar nisso; resolvi-me recorrer a ti.

Henrique — Em quanto importam essas dívidas?

Ernesto — Não chegam a cem mil-réis.

Henrique — Ora! uma bagatela. (Abre a carteira) Aqui tens.

Ernesto — Obrigado, Henrique, não fazes idéia do serviço que me prestas! Vou passar-te um recibo ou um vale...

Henrique — Que lembrança, Ernesto! Não sou negociante; tiro-te de um pequeno embaraço; quando puderes me pagarás. Não há necessidade de papel e tinta em negócios de amizade.

Ernesto — A tua confiança ainda mais me penhora. Entretanto mesmo para tranqüilidade minha desejava...

Henrique — Não falemos mais nisso. Quando embarcas?

Ernesto — Hoje; daqui a duas horas.

Henrique — Pois se não nos virmos mais, conta que aqui tens um amigo.

Ernesto — Eu te escreverei.

Henrique — Se é por simples atenção, não tomes esse incômodo; escreve-me quando precisares de qualquer coisa.

Ernesto — Ora, graças a ti, estou livre de uma grande inquietação!... Mas quero confessar-te uma injustiça que cometi para contigo, e de que me acuso.

Henrique — Como assim?

Ernesto — Quando vi os moços aqui da corte, com seu ar de pouco caso, julguei que não passavam de espíritos levianos! Hoje reconheço que sob essa aparência frívola, há merecimento real e muita nobreza de caráter. Tu és um exemplo. A princípio, desculpa, mas tomei-te por um sujeito que especulava sobre a amizade para a emissão de bilhetes de benefício e de poesias inéditas!

Henrique (rindo-se) — E mais é que às vezes assim é necessário! Não podemos recusar certos pedidos!.

CENA V

Os mesmos, Custódio

Custódio (na porta) — Muito bons dias tenham todos nesta casa.

Ernesto (a Henrique) — Oh! Aí vem o nosso compadre como seu eterno que há de novo. (A Custódio) Bom dia, Sr. Custódio, como vai?

Custódio (desce) — Bem, obrigado! Vai-se arrastando a vida enquanto Deus é servido. (Aperta-lhe a mão) Que há de novo?

Ernesto (rindo) — Tudo é velho; ali estão os jornais, mas não trazem coisas de importância.

Custódio — Conforme o costume. (Voltando a Henrique) Tem passado bem? Que há...

Henrique — Nada, Sr. Custódio, nada absolutamente.

(Custódio vai sentar-se à mesa e lê os jornais).

Ernesto (a Henrique) — Nas províncias não se encontra essa casta de bípedes implumes, que vivem absorvidos com a política, esperando antes de morrer ver realizada uma espécie de governo que sonharam e que se parece com a república de Platão!... Eis o verdadeiro tipo da raça desses fósseis da Independência e do Sete de Abril. Cinqüenta anos de idade, empregado aposentado, bengala, caixa de rapé e gravata branca. Não tem outra ocupação mais do que ler os jornais, perguntar o que há de novo e queixar-se da imoralidade da época.

Henrique (rindo) — Serviam outrora para parceiro de gamão nas boticas.

Custódio (lendo) — Oh! Cá temos um artiguinho da oposição!... Começa! Já era tempo! Com este ministério não sei onde iremos parar.

Ernesto (a Henrique) — Agora ei-lo ferrado com o tal artigo! Bom homem! Quando eu queria conversar com Júlia, nós o chamávamos sempre. Assim éramos três, e ao mesmo tempo estávamos sós; porque, agarrando-se a um jornal, não ouve, fica cego. Podia apertar a mão de minha prima que ele não percebia!

Henrique — Esta habilidade não sabia que eles tinham.

Ernesto — Pois recomendo-te!

Henrique — Fica ao meu cuidado. Adeus; dá cá um abraço; até a volta.

Ernesto (abraça) — Adeus, Henrique; lembra-te dos amigos, (Quer segui-lo)

Henrique — Não te incomodes. (Sai).



CENA VI

(continua...)

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