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#Comédias#Literatura Brasileira

As Casadas Solteiras

Por Martins Pena (1845)

As Casadas Solteiras é uma peça teatral cômica que satiriza costumes e relações sociais do século XIX. A trama gira em torno de casamentos por interesse, enganos e convenções sociais, revelando a hipocrisia presente nas relações familiares da época. Com humor ágil e situações exageradas, o texto critica normas morais e expõe conflitos entre aparência social e realidade, buscando divertir e provocar reflexão no público.

Personagens



Bolingbrok, negociante.

John, seu sócio.

Jeremias.

Narciso, pai de Virgínia e Clarice.

Henriqueta, mulher de Jeremias.

Um criado e Diferentes pessoas de ambos os sexos.



A cena se passa, o primeiro ato, em Paquetá; o segundo, na Bahia, e o terceiro, no Rio de Janeiro.



COMÉDIA EM TRÊS ATOS.



ATO PRIMEIRO



O teatro representa o Campo de São Roque, em Paquetá. Quatro barracas, iluminadas e decoradas, como costumam ser nos dias de festa, ornam a cena de um e outro lado; a do primeiro plano, à direita, terá transparentes fantásticos, diabos, corujas, feiticeiras, etc. No fundo, vê-se o mar. Diferentes grupos, diversamente vestidos, passeiam de um para outro lado, parando, ora no meio da cena, ora diante das barracas, de dentro das quais se ouve tocar música. Um homem com um realejo passeia por entre os grupos, tocando. A disposição da cena deve ser viva.

CENA I

Jeremias e o povo.

Jeremias — Bem fiz eu em vir à festa de São Roque. Excelente dia passei e melhor noite passarei — e vivam as festas! Perca-as quem quiser, que eu não. Para elas nasci, e nelas viverei. Em São Roque, na Penha, na Praia Grande, na Armação... Enfim, em todos os lugares aonde houver festa, se estiverem duas pessoas, uma delas serei eu. Que belo que isto está! Barracas, teatrinho de bonecas, onças vivas, fogo de artifício, máquinas, realejo e mágicos que adivinham o futuro... Logo teremos um nesta barraca... Ora, esses estrangeiros são capazes das maiores extravagâncias para nos chuparem os cobres! Se há tanta gente que acredita neles... Estou que não caibo na pele!

Vozes — Aí vem a barca! Aí vem a barca!

Jeremias — A barca! (Correm todos para a borda do mar, exceto Jeremias.) Vejamos, primeiro, quem vem da cidade, para depois aparecer. Tenho cá minhas razões... (Sai pela direita. Nesse momento aparece a barca de vapor, que atraca à praia e toca a sineta. Principiam a saltar os passageiros, e entre eles, John e Bolingbrok, que se encaminham para a frente.)

CENA II

John, Bolingbrok e o povo.

John — Enfim, chegamos.

Bolingbrok — Oh, yes, enfim! É uma vergonhe estes barques de vapor do Bresil.

Tão porque, tão, tão, tão...

John — Ronceira.

Bolingbrok — Ronceire? Que quer dize ronceire?

John — Vagarosa.

Bolingbrok — Yes, vagarosa. John, tu sabe mais portuguesa que mim.

John — Bem sabes, Bolingbrok, que ainda que sou filho de ingleses, nasci no Brasil e nele fui criado; assim, não admira que fale bem a língua... Mas vamos ao que serve.

Bolingbrok — Yes, vamos a que serve.

John — Primeiro, correremos tudo para ver se encontramos nossas belas.

Bolingbrok — Oh, God! Encontre nosses beles... Mim fica contente se encontre nosses beles. Oh, God!

John — Já vejo, meu caro Bolingbrok, que estás completamente subjugado. Admirame! Um homem como sois, tão frio e compassado...

Bolingbrok — Oh, non, my dear! Este é um error muito... fundo... muito oco... non, non! Muito profundo... yes... muito profundo. Minha peito é uma volcão, uma barril de pólvora... Faltava só a faísca. Miss Clarice é faísca, e minha peito fez, fez, fez bum!

John — Explosão.

Bolingbrok — Yes, yes! Explosão! Mim está incêndio.

John — Podias ter-te atirado ao mar.

Bolingbrok — Oh, non, non! Mar non! Primeiro quero casa com my Clarice, senão eu mata a mim.

John — Devagar com isso, homem, e entendamo-nos.

Bolingbrok — Oh, God!

John — Há dois anos que chegaste de Inglaterra e estabeleceste, na Bahia, uma casa de consignação, de sociedade comigo. Temos sido felizes.

Bolingbrok — Yes!

John — Negócios de nossa casa obrigaram-nos a fazer uma viagem ao Rio de

Janeiro. Há quinze dias que chegamos...

Bolingbrok — Yes!

John — E há oito que nossos negócios estão concluídos, e estaríamos já de volta, se não fosse o amor que nos prende.

Bolingbrok — Oh, my Clarice, my Clarice!

John — Por um feliz acaso, que servirá para mais estreitar nossa sociedade, amamos a duas irmãs.

Bolingbrok — Oh, duas anjos, john! Duas anjos irmãos...

John — Antes de ontem fomos, pessoalmente, pedi-las ao pia, que teve o desaforo de negar o seu consentimento, dizendo que não criou suas folhas para casá-las com ingleses.

Bolingbrok — Oh, goddam! Atrevida!

John — Mas deixa-o. Estamos de inteligência com elas, e hoje nos há de ele pagar.

(continua...)

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