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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

- Estamos entendidos? Perguntou a menina com a sisudez que não deixara em todo este diálogo. 

- Você é uma feiticeirinha, Aurélia; faz de mim o que quer. 

- Reflita bem, meu tio. Vou confiar-lhe meu segredo, um segredo que a ninguém neste mundo foi revelado, e que só Deus sabe. Se depois de conhecê-lo, o senhor não me quiser servir, eu jamais lhe perdoarei. 

- Pode confiar de mim sem susto o seu segredo, Aurélia, que eu mostrar-me-ei digno dessa confiança. 

- Creio, sr. Lemos, e para tirar-lhe qualquer escrúpulo que por acaso o assalte, lhe juro pela memória de minha mãe, que se há para mim felicidade neste mundo, é somente esta que o senhor pode me dar. 

- Disponha de mim. 

Aurélia parou um instante. 

- Conhece o Amaral? 

- Qual deles? Perguntou o velho um tanto acanhado. 

- Manuel Tavares do Amaral, empregado da alfândega, disse a moça consultando sua carteirinha. Tenha a bondade de tomar nota. Não é rico, mas possui alguma coisa, ajustou o casamento da filha Adelaide com um moço que esteve ausente do Rio de Janeiro, e a quem ele ofereceu de dote trinta mil cruzeiros. 

Ao proferir estas palavras sentiu-se um fugaz tremor na voz sempre tão límpida da 

moça, que logo após tomou um timbre ríspido. 

O Lemos ficara roxo de vermelho que já era; e para disfarçar o seu vexame remexia a cabeça mui desinquieto, com o dedo a repuxar e alargar o colarinho, como se este o sufocasse. 

Aurélia demorou um instante o seu frio olhar no semblante do velho; depois desviando com placidez a vista para fitá-la na página aberta de sua carteirinha, deu tempo ao tio de reportar-se, o que foi breve. O Lemos tinha o traquejo do mundo. 

- Trinta mil cruzeiros?... observou ele. Já não é mau começo! Aurélia continuou: 

- É preciso quanto antes desmanchar este casamento. A Adelaide deve casar com o Dr. Torquato Ribeiro de quem ela gosta. Ele é pobre; e por isso o pai o tem rejeitado; mas se o senhor assegurasse ao Amaral que esse moço tem de seu uns cinqüenta mil cruzeiros, acha que ele recusaria? 

- Suponha que eu assegurasse isso. Donde sairia esse dinheiro? 

- Eu o darei com o maior prazer. 

- Mas, minha menina, para que nos vamos nós intrometer nos negócios alheios? 

- O senhor é bastante perspicaz para perceber aquilo que debalde lhe procuraria ocultar. Prefiro confiar-me sem reservas à sua lealdade. 

A moça fez um esforço. 

- Esse moço, que está justo com a Adelaide Amaral é o homem a quem escolhi para meu marido. Já vê que não podendo pertencer a duas, é necessário que eu o dispute. 

- Conte comigo! Acudiu o velho esfregando as mãos, como quem entrevia os benefícios que essa paixão prometia a um tutor hábil. 

- Esse moço... 

- O nome? Perguntou o velho molhando a pena. Aurélia fez um aceno de espera. 

- Esse moço chegou ontem; é natural que trate agora dos preparativos para o casamento que está justo há perto de um ano. O senhor deve procurá-lo quanto antes... 

- Hoje mesmo. 

- E fazer-lhe sua proposta. Estes arranjos são muito comuns no Rio de Janeiro.

- Estão-se fazendo todos os dias. 

- O senhor sabe melhor do que eu como se aviam estas encomendas de noivos. 

- Ora, ora! 

- Previno-o de que meu nome não deve figurar em tudo isto. 

- Ah! Quer conservar o incógnito. 

- Até o momento da apresentação. Entretanto pode dizer quanto baste para que não suponham que se trate de alguma velha ou aleijada. 

- Percebo! Exclamou o velho rindo. Um casamento romântico. 

(continua...)

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