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#Contos#Literatura Brasileira

Luís Soares

Por Machado de Assis (1870)

Soares ficou petrificado. Durante alguns minutos conservou-se na mesma posição, com os olhos fitos na moça que se afastava lentamente. O rapaz dobrava-se ao peso da humilhação. Não previra tão cruel desforra da parte de Adelaide. Nem uma palavra de ódio, nem um indício de raiva; apenas um calmo desdém, um desprezo tranqüilo e soberano. Soares sofrera muito quando perdeu a fortuna; mas agora que o seu orgulho foi humilhado, a sua dor foi infinitamente maior. 

Pobre rapaz! 

A moça foi para dentro. Parece que contava com aquela cena; porque entrando em casa, foi logo procurar o tio, e declarou-lhe que, apesar de quanto venerava a memória do pai, não podia obedecer-lhe, e desistia do casamento.

- Mas não o amas tu? perguntou-lhe o major. 

- Amei-o. 

- Amas a outro? 

- Não. 

- Então explica-te. 

Adelaide expôs francamente o procedimento de Soares desde que ali entrara, a mudança que fizera, a sua ambição, a cena do jardim. O major ouviu atentamente a moça, procurou desculpar o sobrinho, mas no fundo ele acreditava que Soares era um mau caráter. 

Este, depois que pôde refrear a sua cólera, entrou em casa e foi despedir-se do tio até o dia seguinte. 

Pretextou que tinha um negócio urgente. 


Capítulo VI 


Adelaide contou miudamente ao amigo de seu pai os sucessos que a obrigavam a não preencher a condição da carta póstuma confiada a Anselmo. Em conseqüência desta recusa, a fortuna devia ficar com Anselmo; a moça contentava-se com o que tinha. 

Não se deu Anselmo por vencido, e antes de aceitar a recusa foi ver se sondava o espírito de Luís Soares. 

Quando o sobrinho do major viu entrar por casa o fazendeiro suspeitou que alguma cousa houvesse a respeito do casamento. Anselmo era perspicaz; de modo que, apesar da aparência de vítima com que Soares lhe aparecera, compreendeu ele que Adelaide tinha razão. 

Assim pois tudo estava acabado. Anselmo dispôs-se a partir para a Bahia, e assim o declarou à família do major. 

Nas vésperas de partir achavam-se todos juntos na sala de visitas, quando Anselmo soltou estas palavras: 

- Major, está ficando melhor e forte; eu creio que uma viagem à Europa lhe fará bem. Esta moça também gostará de ver a Europa, e creio que a Sra. D. Antônia, apesar da idade, lá quererá ir. Pela minha parte sacrifico a Bahia e vou também. Aprovam o conselho? 

- Homem, disse o major, é preciso pensar... 

- Qual pensar! Se pensarem não embarcarão. Que diz a menina? 

- Eu obedeço ao tio, respondeu Adelaide. 

- Além de que, disse Anselmo, agora que D. Adelaide está de posse de uma grande fortuna, há de querer apreciar o que há de bonito nos países estrangeiros a fim de poder melhor avaliar o que há no nosso... 

- Sim, disse o major; mas você fala de grande fortuna... 

- Trezentos contos. 

- São seus. 

- Meus! Então sou algum ratoneiro? Que me importa a mim a fantasia de um generoso amigo? O dinheiro é desta menina, sua legítima herdeira, e não meu, que aliás tenho bastante. 

- Isso é bonito, Anselmo! 

- Mas o que não seria se não fosse isto? 

A viagem à Europa ficou assentada. 

Luís Soares ouviu a conversa toda sem dizer palavra; mas a idéia de que talvez pudesse ir com o tio sorriu-lhe ao espírito. No dia seguinte teve um desengano cruel. Disse-lhe o major que, antes de partir, o deixaria recomendado ao ministro. 

Soares procurou ainda ver se alcançava seguir com a família. Era simples cobiça na fortuna do tio, desejo de ver novas terras, ou impulso de vingança contra a prima? Era tudo isso, talvez. 

À última hora foi-se a derradeira esperança. A família partiu sem ele. 

Abandonado, pobre, tendo por única perspectiva o trabalho diário, sem esperanças no futuro, e além do mais, humilhado e ferido em seu amor próprio, Soares tomou a triste resolução dos cobardes. 

Um dia de noite o criado ouviu no quarto dele um tiro; correu, achou um cadáver.

Pires soube na rua da notícia, e correu à casa de Vitória, que encontrou no toucador. 

- Sabes de uma cousa? perguntou ele. 

- Não. Que é? 

- O Soares matou-se. 

- Quando? 

- Neste momento. 

- Coitado! É sério? 

- É sério. Vais sair? 

- Vou ao Alcazar. 

- Canta-se hoje Barbe-Bleue, não é? 

- É. 

- Pois eu também vou. 

E entrou a cantarolar a canção de Barbe-Bleue. 

Luís Soares não teve outra oração fúnebre dos seus amigos mais íntimos. 

FIM


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