Por José de Alencar (1857)
EDUARDO (rindo) - Ah! lembro-me! E tu levaste esses versos à Henriqueta?
PEDRO - Levei, sim, senhor.
EDUARDO - Com que fim, Pedro?
PEDRO - Sr. não se zanga, Pedro diz por que fez isso.
EDUARDO - Fala logo de uma vez. Que remédio tenho eu senão rir-me do que me sucede?
PEDRO - Sinhá Henriqueta é pobre; pai anda muito por baixo; senhor casando com ela não arranja nada! Moça gasta muito; todo
o dia vestido novo, camarote no teatro para ver aquela mulher que morre cantando, carro de aluguel na porta, vai passear na Rua do Ouvidor, quer comprar tudo que vê.
EDUARDO - Ora, não sabia que tinha um moralista desta força em casa!
PEDRO - Depois modista, costureira, homem da loja, cabeleireiro, cambista, cocheiro, ourives, tudo mandando a conta e senhor vexado: "Diz que não estou em casa", como faz aquele homem que mora defronte!
EDUARDO - Então foi para que eu não casasse pobre que fizeste tudo isto? Que inventaste o recado que me deste em nome de Henriqueta?...
PEDRO - Pedro tinha arranjado casamento bom; viúva rica, duzentos contos, quatro carros, duas parelhas, sala com tapete. Mas senhor estava enfeitiçado por sinhá Henriqueta e não queria saber de nada. Precisava trocar; Pedro trocou.
EDUARDO - O que é que trocaste?
PEDRO - Verso feio da viúva para sinhá Henriqueta; verso bonito de sinhá Henriqueta foi para a viúva.
EDUARDO - De maneira que estou com um casamento arranjado com uma correspondência amorosa e poética; e tudo isto graças à tua habilidade?
PEDRO - Negócio está pronto, sim senhor; é só querer. Pedro de vez em quando leva uma flor ou um verso que senhor deixa em cima da mesa. Já perguntou por que V.Mce. não vai visitar ela!
EDUARDO (rindo-se) - Eis um corretor de casamentos, que seria um achado precioso para certos indivíduos do meu conhecimento!
Vou tratar de vender-te a algum deles para que possas aproveitar o teu gênio industrioso.
PEDRO - Oh! Não! Pedro quer servir a meu senhor! V.Mce. perdoa; foi para ver senhor rico!
EDUARDO - E que lucras tu com isto! Sou tão pobre que te falte aquilo de que precisas? Não te trato mais como um amigo do que como um escravo?
PEDRO - Oh! Trata muito bem, mas Pedro queria que senhor tivesse muito dinheiro e comprasse carro bem bonito para.
EDUARDO - Para... Dize!
PEDRO - Para Pedro ser cocheiro de senhor!
EDUARDO - Então a razão única de tudo isto é o desejo que tens de ser cocheiro?
PEDRO - Sim, senhor!
EDUARDO (rindo-se) - Muito bem! Assim, pouco te importava que eu ficasse mal com uma pessoa que estimava; que me casasse com uma velha ridícula, contanto que governasses dois cavalos em um carro! Tens razão!... E eu ainda devo dar-me por muito feliz, que fosse esse o motivo que te obrigasse a trair a minha confiança.
CENA V
PEDRO, CARLOTINHA
CARLOTINHA - Já escrevi! Ah! Mano não está!... Pedro!...
PEDRO - Nhanhã!
CARLOTINHA - Que fazes tu aí?
PEDRO - Oh! Pedro não está bom hoje, não; senhor está zangado.
CARLOTINHA - Por quê? Por causa de Henriqueta?
PEDRO - Sim. Pedro fez história de negro, enganou senhor. Mas hoje mesmo tudo fica direito.
CARLOTINHA - Que vais tu fazer? Melhor é que estejas sossegado.
PEDRO - Oh! Pedro sabe como há de arranjar este negócio. Nhanhã não se lembra, no teatro lírico, uma peça que se representa e que tem homem chamado Sr. Fígaro, que canta assim:
Tra-la-la-la-la-la-la-la-tra!!
Sono un barbiere di qualità!
Fare Ia barba per carità!...
CARLOTINHA (rindo-se) - Ah! O Barbeiro de Sevilha!
PEDRO - É isso mesmo. Esse barbeiro, Sr. Fígaro, homem fino mesmo, faz tanta cousa que arranja casamento de sinhá Rosinha com nhonhô Lindório. E velho doutor fica chupando no dedo, com aquele frade D. Basílio!
CARLOTINHA - Que queres tu dizer com isto?
PEDRO - Pedro tem manha muita, mais que Sr. Fígaro! Há de arranjar casamento de Sr. moço Eduardo com sinhá Henriqueta. Nhanhá não sabe aquela ária que canta sujeito que fala grosso? Cantando.) "La calunnia!..."
CARLOTINHA - Deixa-te de prosas!
PEDRO - Prosa, não; é verso! Verso italiano que se canta!
CARLOTINHA (rindo) - Tu também sabes italiano?
PEDRO - Ora! Quando Sr. moço era estudante e mandava levar ramo de flor à dançarina do teatro, aquela que tem perna de engonço, Pedro falava mesmo como patrício dela: Un fiore, signorina!
CARLOTINHA - Ah! Mano mandava flores a dançarinas... (A meia voz) E diz que amava a Henriqueta!
(continua...)
ALENCAR, José de. O demônio familiar. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7547 . Acesso em: 26 jan. 2026.