Por José de Alencar (1873)
Garatuja é um romance de José de Alencar que combina humor, crítica social e costumes do Brasil do século XIX. A narrativa acompanha personagens simples e situações do cotidiano, revelando contrastes entre ingenuidade, ambição e convenções sociais. Com tom leve e irônico, a obra retrata a vida urbana e interiorana, explorando comportamentos humanos e oferecendo um olhar crítico sobre a sociedade da época.
I
TRÊS ANTIGOS LUZEIROS
ESCAPOS A POEIRA DOS TEMPOS
No dia 3 de novembro do ano que se contou 1659 da graça e nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, a leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro estava em grande alvoroço.
Não era a então nascente capital, sossegada e pachorrenta, como a grande corte em que se transformou. Se não mente a crônica, tinha naqueles tempos afonsinhos o gênio trêfego, e um sestro de intrometer-se com as cousas da governança para não deixar que os oficiais d’El-Rei lhe tosquiassem muito cerce o pêlo e a bolsa.
Promovida a corte, lembrou-se no princípio alguma vez da balda antiga; mas com a vida palaciana, breve esqueceu de todos os ardores da juventude, e aquelas desenvolturas de rapariga.
Agora dá-se a respeito. Já não é a carioca faceira e petulante, de saia de crivo e olhos brejeiros, estalando castanholas ao som do fadinho. Fez-se dama; traz anquinhas, e arrasta a cauda com donaires de matrona.
Sete horas acabavam de soar na torre do mosteiro, e apesar do muito cedo o povo enchia as poucas ruas que formavam naquele tempo o âmbito da cidade, ainda conchegada às abas do Outeiro de São Januário, que a protegia com seu castelo roqueiro.
Onde porém mais alvoriçava o arruído era no Rossio do Carmo, nome que tinha então nos livros da vereança o Largo do Paço, ao qual não obstante a arraia-miúda continuava a dar a alcunha de Terreiro da Polé.
Golpes de gente azoinada e assustadiça borbotavam uns após outros da Rua Direita e Beco dos Barbeiros, mas sobretudo das bandas da Misericórdia, Castelo e Ajuda, área onde mais se condensava o povoado.
Vários ajuntamentos se haviam formado aqui e ali no circuito da vasta praça, separados pelo refluxo dos mais alvoroçados, que não se podendo ter parados um instante, ferviam, à maneira das ondas em torno de abrolhos, e burburinhavam sôfregos de colher pormenores da grande nova.
Desafrontada do paço, que só muitos anos depois devia ser construído, a praça estendia-se até a Rua da Misericórdia, onde se erguera a nova Igreja de São José, cuja capela-mor, de recente fábrica, entrava pelo mar adentro.
Do lado oposto, desde o canto da Rua Direita alongava-se um renque de lojas e tercenas, esboço do opulento empório que derramando-se pela várzea, havia de cobrir antes de dois séculos a vasta marinha. No lugar onde mais tarde se edificaram as casas do Teles e o arco, famoso na crônica fluminense, via-se ainda a velha tenda do ferreiro, que dera nome ao lugar.
A face de terra era ocupada pela Capela de Nossa Senhora do Ó e pelos dormitórios dos Carmelitas cuja cerca terminava na Rua da Cadeia. Ainda não existia o templo que hoje serve de capela imperial, erguido um século mais tarde sobre as ruínas daquele.
A face do mar descortinava o formoso panorama da baía. Junto à Ilha das Cobras balouçavam-se os galeões da frota próxima a partir para o reino.
Na praia, onde brincavam as ondas, ainda não rechaçadas por cais ou aterro, abicavam de instante a instante as canoas da outra banda e as barcas dos pescadores que tornavam do mar.
Dentro da praça, mas encostada à Igreja de São José, destacava-se a casa da Câmara, com o seu campanário, e as enxovias da cadeia, corridas de um e outro lado do pavimento térreo.
Em frente, a alguns passos de distância, no lugar onde fica atualmente a ucharia imperial, erguia-se o pelourinho, esse padrão do governo da cidade, ao qual o povo chamava cruamente — a pole.
Era justamente em torno da coluna da governança, que se apinhava a multidão, cujas vistas inquietas, desenganando-se de achar na picota qualquer edital da vereança acerca da grande novidade, voltavam-se para as janelas inda fechadas da Casa das Sessões.
Uma canoa de voga acabava de chegar à praia; e dela saltava nas costas do escravo remeiro um velho seco e alto, de rija têmpera, e cujos movimentos vivos e articulados davam-lhe ares de um grande grilo em posição vertical, vestido de garnacha preta, com os competentes calções e meias da mesma cor. Tinha de mais um casquete de abas reviradas, sapatos de cordovão com fivela de prata, e uma desmedida bengala, cujo castão de ouro, representando uma borla doutoral, lhe roçava o queixo adunco, quando a empunhava direita.
Era esse o licenciado João Alves de Figueiredo que aproveitara os dias feriados para refocilar em sua quinta de São Lourenço, à outra banda. Tornando à cidade, e surpreso do alvoroto em que a vinha encontrar, mal pisou em terra, barafustou à cata de novas.
Foi dar em uma pinha de gente, que imprensava-se para ouvir a narrativa do caso, feita por uma voz fanhosa e estrídula.
(continua...)
ALENCAR, José de. Garatuja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1841 . Acesso em: 26 jan. 2026.